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18/07/06

O mundo não é uma bola...

A Itália após a devastação

Juventus_Luciano Moggi b.jpg

É difícil afirmar que a sentença da Justiça italiana a respeito do escândalo de manipulação das arbitragens tenha atraído tanto a atenção quanto a final da Copa do Mundo entre a Azzurra e a França. Mas foi algo muito perto disso. E as decisões anunciadas, apesar de o Milan continuar na Serie A e a Juventus não cair para a C1, estiveram longe de ser uma pizzada. Tanto que, agora, a pauta do momento na Bota é projetar o futuro próximo, analisando o que sobrou no calcio depois da tormenta.

As decisões foram claras. O Milan joga a temporada 2006-07 na Serie A, mas começa com -15 pontos, e perdeu 44 pontos do campeonato passado, ficando sem a vaga na Liga dos Campeões. A Juventus caiu “apenas” para a Serie B, mas iniciará a competição com -30 pontos, e ainda teve revogado seus títulos nas duas últimas temporadas (por enquanto, os títulos ficarão vagos, apesar de a Internazionale tentar ficar com ambos). Fiorentina e Lazio também vão para a Segundona, mas com -15 e -7 pontos respectivamente. Além disso, vários dirigentes e árbitros foram suspensos por prazos que variam até um máximo de cinco anos.

Vendo isoladamente as punições, elas parecem bastante duras. Não apenas por rebaixar três grandes clubes, mas também pode atrapalhar o futuro próximo. Apenas o fato de as penas, sobretudo de Milan e Juventus, não terem sido aparentemente tão rigorosas quanto foi sugerido pela comissão de investigação da Federcalcio (federação italiana) fez que muitos falassem em marmelada.

Primeiro, é preciso dizer que as decisões foram justas por manterem a proporção de culpa de cada clube no escândalo. Além disso, o grande aspecto da sentença não foi o rebaixamento como uma medida esportiva, mas como uma punição enorme do ponto de vista financeiro.

No início das competições nacionais, potências européias como Milan e Juventus já consideram como certeza a classificação para a Liga dos Campeões da temporada seguinte. Assim, os milhões de euros trazidos pela competição já entram no planejamento dos clubes e é assim que investimentos são feitos. Por isso, equipes que acabam se surpreendendo com uma eliminação prematura no torneio continental muitas vezes entram em crise financeira (o principal caso é o Borussia Dortmund).

Assim, a retirada de Milan e Juventus da Liga dos Campeões de 2006-07 terá um impacto econômico enorme nessas equipes, por mais que os milanistas tenham ficado na primeira divisão. Além disso, o fato de a Fiorentina ter perdido sua vaga na competição impede que os viola dêem um salto econômico que poderia colocá-los como quarta força do país.

No caso dos rebaixados, não só os recursos das competições continentais se vão (a Lazio disputaria a Copa da Uefa), mas também os milhões dos direitos de transmissão da Serie A. É evidente que, dessa maneira, os clubes punidos terão de se redimensionar economicamente, co elencos mais baratos e investimentos modestos. No caso da Lazio, que quase faliu recentemente e convive com estritas regras financeiras após negociação com credores, essa queda pode significar a falência do clube (que, claro, seria refundado como a Fiorentina ou o Napoli, mas recomeçaria da Serie C1).

Vale também dizer que os times que supostamente foram “poupados” (Milan e Juventus) sofrerão mais do que parece com os pontos negativos. Algo que a imprensa brasileira que insinua a pizzada italiana não tem se atentado. Para a Juventus, começar a Serie B com -30 pontos ou ir para a C1 tem quase o mesmo efeito. A única diferença é que, na Segundona, há um pouco mais de público e de dinheiro da televisão. Mas nada muito significativo.

Juventus campea 2006.jpg

Se caísse para a terceira divisão, a Vecchia Signora certamente subiria na primeira temporada. E, depois, não deveria ter dificuldade para conquistar outro acesso e, assim, voltaria à elite em duas temporadas. Iniciando a Segundona com três dezenas de pontos a menos, os bianconeri só conseguem a promoção na primeira temporada por um milagre. O time teria de fazer cerca de 100 pontos em 42 jogos, isso considerando que a equipe estaria enfraquecida pela debandada dos craques e que muito provavelmente os árbitros serão, pelo menos no primeiro ano, pouco gentis que os piemonteses.

No caso do Milan, a perda de 15 pontos tira virtualmente o time da disputa pelo título. Só houve um pouco de condescendência no fato de que esse valor ainda manter um pouco a possibilidade de título e não afeta em quase nada as chances dos milanistas se classificarem para a Liga dos Campeões 2007-08. E, aí, é até válido pensar em como a pressão de Silvio Berlusconi (dono do Milan e da Mediaset, empresa de comunicação que detém os direitos de transmissão do Campeonato Italiano que ameaçou reduzir o valor do contrato para 2006-07 caso os quatro grandes fossem rebaixados) pode ter influenciado a decisão. Apesar de isso ser apenas hipótese.

De qualquer maneira, as punições como um todo foram severas. Os clubes afetados certamente terão de se desfazer de suas estrelas, o que já agitou o mercado em outros países europeus, notadamente a Espanha. A situação também pode melhorar para o segundo escalão italiano, como Roma, Palermo e Sampdoria, que poderão pegar um ou outro reforço juventino, fiorentino ou laziale.

Resta, agora, o futebol italiano aprender a se refundar. Justamente o que foi feito na década de 1980, após o escândalo Totonero. Foi o início de uma reorganização de todo o calcio, em um processo que levou a Itália a ter o melhor campeonato do mundo durante mais de uma década. Algo que deve ser, de novo, o objetivo de quem liderar a reformulação institucional que terá início nesta temporada.

Ubiratan Leal

Imagens: La Gazzetta dello Sport (Luciano Moggi) e La Repubblica (Juventus campeã)

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