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30/06/06

Copa 2006

Torcida brasileira não tem cultura de estádio

A falta de energia dos torcedores brasileiros nos estádios alemães já havia sido notada por todos. Desde a estréia contra a Croácia – onde havia a desculpa da numerosa comunidade croata em Berlim, que lotou o estádio Olímpico – até o jogo contra os pouco barulhentos japoneses. Pois as vaias para o Brasil no jogo contra Gana fez até os jogadores reclamarem. E, nesta quinta, houve quem reclamasse da falta de apoio das arquibancadas.

O impulso inicial é óbvio: falar que isso é conseqüência direta do alto custo de uma viagem para acompanhar a Copa na Alemanha, o que muda o perfil dos torcedores brasileiros na competição. E há uma dose de verdade nisso. Boa parte da torcida do Brasil em Copas não ter um vínculo efetivo com o futebol. Para alguns, o Mundial é apenas um pretexto para fazer uma viagem para um país interessante.

Assim, o “torcedor brasileiro” é um grupo formado por famílias ou grupos de amigos que não vão a estádios no Brasil, mas o fazem na Alemanha porque há um apelo consumista/fetichista maior. No final das contas, o efeito é como um corintiano apoiando o São Caetano na final da Libertadores ou de um vascaíno torcendo pelo Madureira na final da Taça Rio. Ele pode até tentar, mas não tem um vínculo emocional real com aquele time.

Para piorar o cenário, há os lamentáveis casos de garotas que aproveitam a ocasião para se mostrar e eventualmente conseguir algum “serviço”, passando ao mundo uma imagem distorcida da cultura brasileira. Um fenômeno que cresce a cada Copa.

De qualquer maneira, o problema de falta de “calor” da torcida brasileira não é tão simples assim. Basta ver o espetáculo que os argentinos (que têm poder aquisitivo semelhante aos brasileiros) deram durante a Copa. Havia cantos para a seleção, faixas para Maradona e uma atitude igualzinha à dos hinchas de Boca Juniors, River Plate ou Estudiantes. Tanto que se fizeram ouvir mesmo no jogo contra a Alemanha, em um estádio Olímpico de Berlim obviamente cheio de alemães.

O que efetivamente falta é que a cultura de estádio do futebol brasileiro passe pela Seleção. No Brasil, as torcidas de clubes têm seus cantos, sua forma de agir, seu código de ética, sua “cartilha” de procedimentos em relação ao time (como o momento certo de apoiar ou de apupar), quais os jogadores que devem ter seus cantos próprios e até a maneira de se referir à história da equipe, louvando estrelas do passado. Isso tudo não se limita às torcidas organizadas, pois também faz parte do cotidiano do torcedor “comum” de clube.

No entanto, nada disso chega à Seleção. O máximo é falar “Brasil! Brasil!” sem convicção, sem transmitir nada aos jogadores. Creditar isso à falta de empolgação do time é ter uma visão superficial, já que a falta de futebol-arte não é necessariamente sinônimo de vaias em jogos de clubes brasileiros. O problema é que a cultura de arquibancada comum dos jogos de clubes, algo que sirva como referência, está ausente. Na Argentina (e na Itália, na Alemanha, na Inglaterra...), mesmo o torcedor que não costuma ir a estádio sabe como deve agir quando for.

Esse divórcio de torcida com a Seleção é culpa da própria CBF, que transformou os jogos do Brasil nas Eliminatórias em eventos pop, com ingressos caros para limitar a audiência a classe média-alta. Quem vai não pensa em futebol, mas em um espetáculo qualquer. Como se o futebol não precisasse de uma conexão emocional com o público. Se é assim nas Eliminatórias realizadas aqui no Brasil, imagine o quanto isso fica pior na Alemanha.

O que importa é que não há um canto específico para a Seleção, não há uma maneira reconhecida para apoiar a Seleção, não há um sentido de união entre os torcedores para evitar que os adversários vençam “no grito”, não há nada disso. Ficam apenas gritos estéreis e a sensação falsa de que o brasileiro é um torcedor frio e pouco fanático.

*

DESTAQUES DE 29 DE JUNHO

Mais

* Thuram – Não perdeu tempo para rebater as declarações racistas do líder de direita francês Jean-Marie Le Pen. Isso um dia antes das quartas-de-final em que a Fifa organiza manifestações anti-racismo nos jogos.

Menos

* Adriano – Era um vértice do quadrado quase indiscutível, a ponto de alguns até tentarem imaginar um quinteto para encaixar Robinho sem que o interista saísse. Hoje, está tão mal que já pedem o fim do quarteto para a entrada de Juninho em seu lugar.

Obs.: como não houve jogos, ficam apenas dois destaques no dia

Ubiratan Leal

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