A cada quatro anos, muitos brasileiros se lembram que são brasileiros e se unem para apoiar a seleção do país na Copa do Mundo. Boa parte do ufanismo é hipócrita, mas fenômenos parecidos de união coletiva e patriótica ocorrem em vários outros lugares. Da maré vermelha sul-coreana ao recém-descoberto carinho dos portugueses pela equipe nacional. Tudo porque, mais do que um encontro de times de futebol, a Copa do Mundo desperta um fascínio todo especial, como nem os Jogos Olímpicos conseguem.
Achar que o esporte é apenas transformar em competição atividades físicas é ver as coisas de maneira muito limitadas. A importância das modalidades atléticas na formação do ser humano já havia sido descoberta pelos gregos ainda na Antigüidade. Nesse aspecto, as Olimpíadas são imbatíveis quando se trata de mostrar a capacidade de superação de indivíduos. Porém, o Mundial de futebol é a melhor maneira que culturas podem se encontrar e se manifestar seguindo uma linguagem comum.
Um dos tantos significados da palavra “arte” é a linguagem utilizada para expressar sentimentos, formas de interagir com o mundo ou qualquer outro tipo de subjetividade humana. E o futebol é uma das atividades que melhor encarnam isso. Pelas regras do jogo mundialmente aceitas, por ser praticado em quase todo o planeta, por permitir que se desenvolvam centenas de estilos dentro de uma mesma modalidade e por não depender (tanto) de dinheiro para impor seu valor. E com uma linguagem muito mais democrática e popular do que o cinema de arte, a pintura, as artes plásticas ou a literatura.
Isso é a Copa do Mundo. São 32 países usando o futebol para mostrar seu jeito de ser. Por isso, para muitos, o fato de participar da competição já é motivo para tanta festa. Mais do que tentar o título, a presença em um evento como esse, em que o mundo inteiro se vê, é a própria legitimação da existência desses países.
Também por isso é que, em um Mundial, para muitos não basta ver sua seleção. É preciso assistir a todos os jogos, mesmo Irã x Angola ou Coréia do Sul x Togo. É como ver a materialização de países, de culturas, durante um mês. Coisa que poucas coisas além do futebol poderiam fazer. Por isso a Copa é tão legal.
Ubiratan Leal