Durante as três semanas de preparação, a imprensa bombardeou o torcedor com tudo quanto é tipo de informação. Até o campeão de videogame e pseudo-cantadas foram noticiados. O curioso é que, o futebol mesmo, pouco foi analisado e a real condição da seleção de Carlos Alberto Parreira não era tão conhecida como deveria. Até porque alguns veículos até tentaram ter uma postura mais digna, mas a maioria se envolveu no clima institucional promovido pela CBF. Pois, com a estréia na Copa, não há mais segredos. E as virtudes e defeitos do Brasil foram expostos.
O caso mais evidente é o de Ronaldo. O atacante esteve completamente alheio à partida, sem reagir a jogada alguma. Parecia que usava óculos de realidade virtual e via imagens aleatórias, sem saber que estava em um campo de futebol. O que é mais estranho é que sua postura não é condizente com a de um atleta que tem como único problema a falta de preparo físico. Se fosse apenas isso, ele correria por um tempo e se cansaria prematuramente. Pois a paralisia passava a sensação de que havia outro problema. Como uma febre muito forte.
De qualquer maneira, é uma aberração o fato de tantos meios de comunicação acompanharem a preparação da seleção em Weggis e Königstein quase como uma edição futebolística do Big Brother e não ter atentado ao fato de Ronaldo estar sem a menor condição de jogo. O fato de a comissão técnica não ter divulgado o peso do jogador é secundário, pois a obrigação dos jornalistas lá era contornar esse obstáculo para passar a informação. E de maneira mais consistente do que espalhar piadas sobre a barriga de Ronaldo. Até porque forma física não é apenas excesso de gordura no abdômen.
Com um atacante inócuo, o outro dianteiro, Adriano, foi alvo fácil dos marcadores. Até porque o interista não prima pela mobilidade e capacidade de se desvencilhar da marcação. O que já era previsível pelo amistoso contra a Nova Zelândia e tem um efeito mais preocupante do que se projetou antes da estréia.
Com os atacantes presos na marcação, é mais fácil para as defesas adversárias cercarem Kaká e Ronaldinho. Exatamente como fez a Croácia, dificultando muito a armação de jogadas por parte do Brasil. Tanto que Cafu e Roberto Carlos, que, com o “quadrado mágico”, deveriam ser mais modestos nos avanços aos ataques, criaram algumas das principais oportunidades brasileiras.
Kaká ainda se destacou por chamar a responsabilidade em alguns momentos e ter um pouco mais de liberdade que Ronaldinho. Porém, não foram poucas as jogadas iniciadas pelo milanistas que acabaram em falta ou se perderam no congestionamento da intermediária croata. Ronaldinho até tentou, mas pecou por chamar demais o jogo para si quando o melhor talvez fosse aproveitar o excesso de marcadores sobre o barcelonista para acionar outros jogadores.
Menos mal que os sinais passados pela defesa foram positivos. Dida não fez grandes defesas, mas não foi o caso de deixar escapar alguma bola tolamente, como vinha fazendo no Milan, passando insegurança aos defensores. Além disso, o esquema de marcação de Émerson e Zé Roberto no meio-campo funcionou muito bem, por mais que fosse necessário maior ajuda dos avantes no primeiro combate.
Mas vale ressaltar que a defesa também não foi sensacional. Os atacantes croatas tiveram liberdade em alguns momentos, sobretudo caindo pela esquerda, nas costas de Cafu. Sinal de que ainda é necessário ajustes de posicionamento e maior concentração dos defensores.
No todo, o saldo da estréia não é bom, apesar de ficar evidente que o Brasil tem potencial para melhorar o nível de seu futebol. Exatamente a mesma situação de Inglaterra, Portugal e Holanda. De qualquer maneira, agora já se sabe exatamente como está o Brasil. Sem a desinformação injustificável em uma cobertura tão intensa como a que tem ocorrido.
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DESTAQUES DO DIA
Mais
* Ahn Jung Hwan: entrou no segundo tempo e mudou o rumo de Coréia do Sul x Togo
* Dida: não fez grandes defesas, mas transmitiu confiança, o que também é fundamental
* Torcida croata: com aquele quadriculado, são facilmente identificáveis. Com muito barulho, ficou claro que dominaram as arquibancadas do estádio Olímpico de Berlim. E ainda dizem que ninguém é festivo como o brasileiro.
Menos
* Cobertura do estádio de Frankfurt: projetada para ser algo inovador, fez sombras esquisitas quando ficou aberta no primeiro jogo (Inglaterra x Paraguai) e teve de ser fechada no Coréia do Sul x Togo
* Parte da torcida brasileira: como sempre, um festival de mulheres de trajes mínimos no meio da torcida brasileira. O pessoal acha lindo e mostra os decotes até onde for possível. E ainda há quem não entenda o motivo de muitas pessoas virem ao Brasil fazer turismo sexual...
* Raymond Domenech: deixou Trezeguet no banco e, quando precisou de força ofensiva, colocou Saha. Só pode ser um tirador de sarro
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FICHAS TÉCNICAS DO DIA
Coréia do Sul 2 x 1 Togo
Primeira fase da Copa do Mundo 2006
Data: 13/06/2006
Local: CommerzBank Arena, em Frankfurt
Público: 48.000
Árbitro: Graham Poll (Inglaterra)
Coréia do Sul: Lee Woon-Jae; Kim Young-Chul, Choi Jin-Cheul, Kim Jin-Kyu (Ahn Jung-Hwan) e Lee Young-Pyo; Song Chong-Gug, Park Ji-Sung, Lee Eul-Yong (Kim Nam-Il) e Lee Ho; Lee Chun-Soo e Cho Jae-Jin (Kim Sang-Sik). T: Dick Advocaat
Togo: Agassa; Nibombe, Tchangai, Assemoassa (Forson) e Abalo; Salifou (Aziawonou), Cherif-Toure, Romao e Senaya (Toure); Kader e Adebayor. T: Otto Pfister
Gols: Kader (31/1º), Lee Chun-Soo (9/2º) e Ahn Jung-Hwan (27/2º)
Cartões amarelos: Abalo, Romao, Tchangai, Lee Chun-Soo Lee e Kim Young-Chul
Cartão vermelho: Abalo
França 0 x 0 Suíça
Primeira fase da Copa do Mundo 2006
Data: 13/06/2006
Local: Göttlieb-Daimler Stadion, em Stuttgart
Público: 52.000
Árbitro: Valentin Ivanov (Rússia)
França: Barthez; Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal; Makélélé, Vieira, Ribéry (Saha), Zidane e Wiltord (Dhorasoo); Henry. T: Raymond Domenech
Suíça: Zuberbühler; Magnin, Senderos, Müller (Djourou) e Degen; Cabanas, Vogel, Wicky (Margairaz) e Barnetta; Frei e Streller (Gygax). T: Jakob Kuhn
Cartões amarelos: Abidal, Zidane, Sagnol, Magnin, Streller, Degen, Cabanas e Frei
Brasil 1 x 0 Croácia
Primeira fase da Copa do Mundo 2006
Data: 13/06/2006
Local: estádio Olímpico, em Berlim
Público: 72.000
Árbitro: Benito Archundia (México)
Brasil: Dida; Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Émerson, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho; Ronaldo (Robinho) e Adriano. T: Carlos Alberto Parreira
Croácia: Pletikosa; Simic, Robert Kovac, Simunic e Babic; Srna, Tudor, Niko Kovac (Jerko Leko, 41min) e Kranjcar; Prso e Klasnic (Olic). T: Zlatko Kranjcar
Gol: Kaká (44/1º)
Cartões amarelos: Niko Kovac, Robert Kovac e Tudor (Croácia) e Émerson (Brasil)
Ubiratan Leal