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19/06/06

Copa 2006

Domenech não sabe o que quer da França

Franca x Coreia do Sul 2006.jpg

Coupet; Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal; Makélélé, Vieira, Wiltord/Dhorasoo e Zidane; Henry e Trezeguet. No Brasil, muitos não valorizam uma escalação dessas, mas se trata de um belíssimo time se bem armado. É (ou deveria ser) essa base da França que não consegue deslanchar na Copa 2006. Tudo porque seu técnico não tem um projeto para seu trabalho. Como se faltassem pontos em sua linha de raciocínio.

Raymond Domenech assumiu o comando em um momento relativamente bom. Depois do título mundial com Aimé Jacquet em 1998 e da Eurocopa de 2000 com Roger Lemerre, os franceses tiveram um grande baque com o débâcle na Copa de 2002. Ainda assim, a seleção saiu de lá com status de grande equipe que teve problemas pontuais e algum azar. Tanto que, na Euro 2004, chegou como favorita, a vitória sobre a Inglaterra na primeira fase foi considerada normal e a queda diante da Grécia foi uma enorme zebra.

O problema é que ele não soube o que fazer. Ele tinha duas possibilidades claras: fazer o óbvio e continuar o trabalho de Jacquet (lembrando que Lemerre era auxiliar do técnico campeão de 1998) e renovar as peças que considerasse necessário ou, melhor, iniciar um trabalho próprio. Para isso, ele teria de imaginar o que ele queria do time francês e, durante dois anos, ir moldando seus jogadores a essas funções. Assim, a equipe teria solidez tática e poderia aproveitar melhor o talento de seus jogadores. Uma tarefa nada complicada, considerando que o grupo francês nas Eliminatórias não previa grandes problemas.

O anúncio da aposentadoria de Zidane, Makélélé e Thuram desorientou o treinador, que penou na busca por substitutos à altura. Depois, o trio retornou e ajudou a dar o gás final aos bleus para conseguir a classificação para a Copa. Ainda assim, Domenech não sabia o que queria da França. Por exemplo, a volta de Zidane serviria para dar um maestro ao time. Mas o meia não teria como se encaixar para ditar o ritmo de uma equipe sem padrão.

Enquanto isso, a seleção não tinha um sistema de jogo pré-definido para testar os jogadores e ver quais os mais adequados a cada posição. E, claro, eventualmente mudar um pouco o esquema para aproveitar melhor um ou outro talento.

Isso ficou mais claro no momento em que a França começou a se preparar para o Mundial. Primeiro, Domenech mostrou não ter tato com o grupo ao anunciar a titularidade do contestadíssimo Barthez. Aí já ficava evidente como o grupo francês começava a ter problemas internos. Depois, a convocação de Govou no lugar de Cissé (deixando Giuly e Anelka de fora) escancarou a falta de conhecimento do treinador a respeito do grupo de jogadores que tinha à disposição.

Para piorar, Trezeguet foi para o banco. Uma medida taticamente desastrosa. Em teoria, Domenech tenta repetir na França o ataque prolífico do Lyon. Assim, coloca Malouda e Wiltord, com Henry substituindo Fred ou Carew. Um grande equívoco. Malouda e Wiltord trabalham como meias bastante abertos, quase como pontas, e fazem do Lyon um time que joga muito pelas laterais.

Essa estratégia só funciona no pentacampeão francês porque há um atacante fixo no meio da área para servir de referência. O problema é que Henry não tem essas características. O atacante gosta de arrancar com a bola desde a intermediária, trocando passes velozes no caminho e afunilando da lateral par ao meio à medida que o gol se aproxima. Isso é tão marcante que o Arsenal tem dificuldades em jogar pelas pontas, justamente porque está acostumado a atacar pelo meio para servir seu melhor jogador.

Na seleção francesa, Malouda e Wiltord tentam se aproximar de Henry e o jogo dos bleus tem a tendência a se afunilar. Porém, a dupla lionesa não sabe realizar essa função e o ataque gaulês não tem alimentação alguma. Pior, Zidane fica sem espaço e suas ações se tornam pouco incisivas. Por isso, a França pena tanto para criar oportunidades.Com Trezeguet, Henry teria um companheiro no meio do ataque para trabalhar as jogadas e Zidane, mais uma referência.

Além disso, a equipe não atua com uma estratégia para as partidas. Contra a Suíça, os franceses não tinham um esquema pensado para furar a defesa helvética. Diante da Coréia do Sul, os franceses começaram com a marcação adiantada, trocas de passes rápidos e penetrações de Wiltord e Henry, com Malouda se movimentando para abrir espaços. Deu certo e em menos de dez minutos os bleus já estavam em vantagem. Caso seguissem com esse ritmo, o jogo seria resolvido já no primeiro tempo.

No entanto, Domenech transpareceu que ele, mais do que o time, está traumatizado com a falta de resultados gauleses os últimos anos. Fez o time interromper seu ímpeto e ficar apenas trocando passes pacientemente para o tempo passar, como se a equipe goleasse. A França deixou a Coréia do Sul tentar, mesmo que sem força para isso, o empate. Em um lance isolado, o gol asiático saiu e os franceses não tinham mais meios para buscar o segundo gol em poucos minutos.

Os bleus dependem de apenas uma vitória por dois gols de diferença sobre Togo. O que é possível e provável. Porém, a falta de um projeto para a seleção, de um sistema de jogo que aproveite melhor os jogadores que foram à Alemanha, se manifesta. E pode ser evidenciada na fase de mata-mata. Uma mostra de como a falta de um projeto pode atrapalhar uma seleção que tem potencial para realizar uma boa copa.

*

DESTAQUES DE 18 DE JUNHO

Mais

* Kawaguchi: o único jogador japonês que tem se destacado nessa Copa
* Guus Hiddink: a Austrália perdeu do Brasil, mas deu uma aula em como um time deve se distribuir em campo
* Zé Roberto: o titular de Parreira mais contestado antes da Copa é o melhor em campo na segunda partida

Menos

* Raymond Domenech: com o time precisando fazer um gol, ele tirou Malouda e colocou Dhorasoo
* Zico: depois de o time mostrar medo de chutar a gol, ainda reclama da temperatura
* Croácia: deu calor no Brasil na estréia e fez pose de time perigoso, mas foi quase inofensivo contra o Japão.

*

FICHAS TÉCNICAS DO DIA

Croácia 0 x 0 Japão
Primeira fase da Copa do Mundo 2006
Data:
18/06/2006
Local: Franken, em Nuremberg
Público: 41.000
Árbitro: Frank de Bleeckere (Bélgica)
Croácia: Pletikosa; Simic, Robert Kovac, Tudor (Olic) e Simunic; Srna (Bosnjak), Babic, Niko Kovac e Kranjcar (Modric); Prso e Klasnic. T: Zlatko Kranjcar
Japão: Kawaguchi; Kaji, Miyamoto, Nakazawa e Santos; Ogasawara, Fukunishi (Inamoto), Nakata e Nakamura; Takahara (Oguro) e Yanagisawa (Tamada). T: Zico
Cartões amarelos: Miyamoto, Robert Kovac, Kawaguchi, Srna e Santos

Brasil 1 x 0 Austrália
Primeira fase da Copa do Mundo 2006
Data:
18/06/2006
Estádio: Allianz Arena, em Munique
Público: 66.000
Árbitro: Markus Merk (Alemanha)
Brasil: Dida; Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Emerson (Gilberto Silva), Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho; Adriano (Fred) e Ronaldo (Robinho). T: Carlos Alberto Parreira
Austrália: Schwarzer; Popovic (Bresciano), Neill, Moore (Aloisi) e Chipperfield; Emerton, Culina, Grella e Sterjovski; Cahill (Kewell) e Viduka. T: Guus Hiddink
Gols: Adriano (4/2º), Fred (45/2º)
Cartões amarelos: Cafu, Ronaldo, Robinho, Emerton e Culina

França 1 x 1 Coréia do Sul
Primeira fase da Copa do Mundo 2006
Data:
18/06/2006
Estádio: Zentralstadion, em Leipzig
Público: 43.000
Árbitro: Benito Archundia (México)
França: Barthez; Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal; Vieira, Makélélé, Malouda (Dhorasoo), Zidane (Trezeguet) e Wiltord (Ribéry); Henry. T: Raymond Domenech
Coréia do Sul: Lee Woon-Jae; Kim Young-Chul, Kim Dong-Jin, Choi Jin-Cheul e Lee Young-Pyo; Kim Nam-Il, Lee Eul-Yong (Seol Ki-Hyeon), Lee Ho (Kim Sang-Sik) e Park Ji-Sung; Lee Chun-Soo (Ahn Jung-Hwan) e Cho Jae-Jin Cho. T: Dick Advocaat
Gols: Henry (9/1º) e Park Ji-Sung (36/2º)
Cartões amarelos: Lee Ho, Kim Dong-Jin, Abidal e Zidane

Ubiratan Leal

Imagem: Kicker

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