A imprensa brasileira não é chegada a perder tempo para requentar material para enrolar algumas linhas e, claro, inflar o torcedor para dar jeitão de “desafio” a um jogo teoricamente comum. Assim, não hesitou em transformar o França x Brasil das quartas-de-final em “revanche” ou algo do tipo após as Copas de 1986 e 1998. Uma bobagem que nada acrescenta. O duelo é um clássico, mas não há nada que transforme a França em uma seleção diferente de Inglaterra, Itália ou Holanda.
Os jornalistas muitas vezes reclamam da superstição de jogadores, considerando isso algo meramente folclórico. Mas ficar se agarrando a números e estatísticas de décadas atrás é puramente superstição. Por mais que um histórico negativo possa influenciar – e muitas vezes efetivamente influencia – o desempenho de uma equipe, que pode se sentir pressionada, a maneira de abordar isso deve deixar claro o que é importante e o que é apenas curiosidade.
De concreto, um ou outro jogador participou da partida de Saint-Denis e estará em campo em Frankfurt, como Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo (Brasil, sem contar os reservas Zé Roberto e Dida) e Zidane e Barthez (França, além dos reservas Henry, Trezeguet e Vieira). Porém, a trajetória de franceses e brasileiros nos últimos oito anos foi tão intensa que não há muitos rastros daquela partida.
Do lado brasileiro, Ronaldo teve duas gravíssimas contusões, recuperou-se e foi artilheiro na Copa de 2002. Depois, voltou a ter problemas físicos e pessoais, mas não havia mais a necessidade de provar algo a alguém, o que havia ficado pendente logo após a derrota na final do Mundial de 1998.
A Seleção como um todo também já está com a imagem intacta. Os anos que seguiram a Copa da França foram muito ruins, mas a maneira como a competição foi conquistada em 1998, além do amadurecimento de uma excelente geração de jogadores, deixou o Brasil como principal força do futebol mundial.
Na França, o título da Eurocopa de 2000 serviu como confirmação que o time campeão do mundo dois anos antes realmente era o melhor. A derrocada em 2002 e na Euro 2004 deixaram traumas e foi tentando superar as pressões e a necessidade de se recolocar como grande que os franceses chegaram à Alemanha.
Assim, não há trauma algum de 1998 ou 1986, apenas uma curiosidade enciclopédica para ser mencionada. Se o Brasil ganhar ou perder da França, será pelo que ocorrer em campo. Assim, a imprensa brasileira ganharia muito mais se prestasse atenção na equipe francesa, na grande Copa que Makélélé, Ribéry e Vieira estão fazendo, na recuperação do ânimo de Zidane, na evolução de Henry depois de o time tirar a pressão de não fazer gols em Mundiais e na insegurança de Barthez. É isso que vai pautar o duelo, não a superstição.
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DESTAQUES DE 28 DE JUNHO
Mais
* Sérvia-Montenegro – Multou cinco jogadores pela falta de futebol apresentado na Copa. É uma grande besteira, mas ajuda a coroar a tragédia que foi a campanha do país no Mundial e nos dá mais uma historinha curiosa para comentar.
Menos
* Voronin – O único jogador ucraniano – além de Shevchenko, claro – sobre o qual havia alguma expectativa se contundiu e deixará a Copa como grande decepção.
Obs.: como não houve jogos, ficam apenas dois destaques no dia
Ubiratan Leal