É tentador, em uma Copa do Mundo, decretar qualquer coisa. Que favoritos são farsas, que pequenos são horríveis, que outros pequenos não são tão fracos, que alguém é decadente, enquanto outro é uma força ascendente. Isso não deixa de ser até uma reação natural, como uma espécie de necessidade de chegar a uma conclusão rápida para antecipar o final de uma competição cheia de incertezas como o Mundial de futebol. Por isso, os resultados apertados de Inglaterra, Suécia e Argentina não servem para projetar a campanha deles no torneio.
O mais óbvio é lembrar que estréias são nervosas e que uma partida não é amostragem para se concluir nada. A maior prova disso seria a Itália de 1982, que empatou três partidas na primeira fase (Polônia, Peru e Camarões) e se tornou campeã passando pelo Brasil de Zico, Sócrates, Falcão e Telê Santana. Mas não é só isso. A forma como as três partidas de 10 de junho se desenrolaram deixaram evidente que o que se viu foi um retrato granulado dessas três equipes.
A Inglaterra foi bastante peculiar contra o Paraguai. Os integrantes de seu grande meio-campo foram bem. Nenhuma atuação brilhante, mas Lampard e Gerrard deram solidez ao setor em um jogo ríspido e brigado das duas partes. Não se dedicaram a mostrar o lado mais bonito de seus jogos, pois se adaptaram à necessidade da partida. Beckham, raras vezes valorizado como deveria pelos brasileiros, se ocupou bem o lado direito e movimentou a partida com suas viradas de jogo. Joe Cole desconcertou a marcação paraguaia com seus dribles (apesar de alguma falta de produtividade).
Assim, fica a constatação: se o meio-campo inglês – ponto forte do time considerando que Owen e Rooney não estão nas melhores condições – teve uma boa atuação, o time não foi mais incisivo e brilhante contra o Paraguai porque não se propôs a isso. Até pode ser um erro estratégico ou falta de ambição, mas é justificável para uma equipe ciente que seu melhor jogador ainda está contundido e que precisava tomar cuidado em um encontro que estava mais violento do que o desejável.
Com a Suécia o problema foi outro. O time dominou Trinidad e Tobago, mas jogou com tamanha soberba e auto-suficiência que não soube se desvencilhar de uma defesa que foi minimamente menos frágil do que o esperado. Ibrahimovic e Larsson jogaram como se fossem fazer os gols com facilidade, o que não foi real. Depois de um tempo, os suecos começaram a se desesperar com a possibilidade de desperdiçar pontos com os caribenhos, que a essa altura já estavam muito mais confiantes e determinados em sobreviver mais alguns minutos para levar um ponto para Porto Espanha.
Quanto à Argentina. Bem, a Argentina não pareceu, mas jogou muito bem. Ela se impôs não pela força ou pela técnica, mas pela inteligência. Deixou a Costa do Marfim tomar a iniciativa e ter um volume de jogo enganosamente maior. Porém, Ayala estava pronto para tirar qualquer centímetro de Drogba e os marfinenses não conseguiam fazer uma pressão real.
Enquanto isso, os argentinos estavam preparados para realizar ataques certeiros e inteligentes. Nesse aspecto, a presença de um jogador leve como Saviola foi muito importante, pois ele se deslocava constantemente e abria espaços na defesa africana, que tinha apenas em Crespo um atacante fixo para marcar. Com Riquelme em noite inspirada, não foi difícil construir a vitória ainda no primeiro tempo.
É verdade que os argentinos padeceram do mesmo problema dos ingleses e exageraram na redução de ritmo depois do intervalo. Houve também alguns tons de covardia de seu técnico, que sinalizou com as alterações que pensava apenas em manter a vantagem no marcador.
No geral, o que ficou evidente é que o futebol de ingleses, argentinos e suecos é muito maior que o apresentado na primeira rodada. E que ingleses e argentinos são candidatos ao título. Ainda que um patamar abaixo de Brasil e Alemanha, como já era antes do início da Copa. Afinal, até agora não houve elementos que justificassem uma mudança no conceito dessas seleções.
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DESTAQUES DE 10 DE JUNHO
Mais
Shaka Hislop, que passou segurança à defesa trinitária
Peter Crouch, que mostrou raça e movimentação constante
Riquelme, ganhando pontos para ser considerado craque
Menos
Henrik Larsson
Carlos Alberto Parreira, que tomou um nó tático de si mesmo no coletivo em que os reservas golearam os titulares
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FICHAS TÉCNICAS DO DIA
Inglaterra 1 x 0 Paraguai
Primeira fase da Copa do Mundo de 2006
Data: 10/06/2006
Local: Commerzbank Arena, em Frankfurt
Público: 48 mil
Árbitro: Marco Antonio Rodríguez (México)
Inglaterra: Robinson; Gary Neville, Rio Ferdinand, Terry, Ashley Cole; Beckham, Lampard, Gerrard, Cole (Hargreaves); Owen (Downing) e Crouch. T: Sven-Goran Eriksson
Paraguai: Villar (Bobadilla); Caniza, Gamarra, Cáceres, Toledo (Núñez); Bonet (Cuevas), Acuña, Paredes e Riveros; Haedo Valdez e Santa Cruz. T: Aníbal Ruiz
Cartões amarelos: Gerrard, Valdez, Crouch
Gol: Gamarra (contra, 3/1º)
Trinidad e Tobago 0 x 0 Suécia
Primeira fase da Copa do Mundo de 2006
Data: 10/06/2006
Estádio: Westfalen, em Dortmund
Público: 62.959
Árbitro: Shamsul Maidin (Cingapura)
Trinidad e Tobago: Hislop; Lawrence, Avery John, Sancho e Gray; Birchall, Theobald (Whitley), Edwards, Samuel (Glen) e Yoke; Stern John. T: Leo Beenhakker
Suécia: Shaaban; Mellberg, Lucic, Edman e Linderoth (Jonson); Alexandersson, Wilhelmsson (Kallstrom), Svensson (Allback) e Ljungberg; Larsson e Ibrahimovic. T: Lars Lagerback
Cartões amarelos: Yorke e Larsson
Cartões vermelhos: Avery John
Argentina 2x1 Costa do Marfim
Primeira fase da Copa do Mundo de 2006
Data: 10/06/2006
Estádio: AOL Arena, em Hamburgo
Público: 49.480
Árbitro: Frank de Bleeckere (Bélgica)
Argentina: Abbondanzieri; Burdisso, Ayala, Heinze e Sorín; Cambiasso, Mascherano, Maxi Rodríguez e Riquelme (Aimar); Crespo (Palacio) e Saviola (Lucho González). T: José Pekerman
Costa do Marfim: Tizié; Eboué, Kolo Touré, Boka e Méité; Zokora, Yaya Touré, Keita (Arouna Koné) e Akalé (Bakary Koné); Kalou (Dindane) e Drogba. T: Henry Michel
Gols: Crespo (23/1º), Saviola (36/1º) e Drogba (36/2º)
Cartões amarelos: Saviola, Heinze, Lucho González, Eboué e Drogba
Ubiratan Leal
Imagem: ABC Color