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25/05/06

O mundo não é uma bola...

Simplesmente, o caos

Juventus_Luciano Moggi.jpg

Poucas formas de arte carregam tanto o caráter emocional do povo que o criou como a ópera. É uma manifestação cultural que, por mais que tenha grandes representantes alemães, franceses e russos, não esconde sua origem italiana. Até porque os peninsulares assumiram essa personalidade e adoram transformam em uma ária dramática qualquer problema que surja. Pois, no caso da atual crise do futebol italiano, nenhum drama operístico é pesado o suficiente para representar a gravidade da situação.

O ponto de partida de tudo isso é antigo e o próprio Balípodo já havia mencionado em um texto (veja em “textos relacionados”). Na Itália, sempre houve algumas certezas, como a que o futebol não é um esporte limpo no país e que o fato de a Juventus ser constantemente favorecida pela arbitragem não se trata de sorte ou simples coincidência. Apenas para traçar um paralelo, a idéia de que há “apito amigo” corintiano ou flamenguista é algo amadorístico perto do que se imagina da Vecchia Signora.

Não faltavam indícios para amarrar os argumentos. O primeiro e mais óbvio é o poder econômico da equipe. Mesmo não tendo sede nas maiores cidades da Itália (Roma e Milão), a Juve ganhou grande popularidade entre torcedores do sul e, assim, se tornou a equipe com mais torcedores do país. Assim, poderia usar essa força – que obviamente se transforma em poder econômico – para manobrar nos bastidores e terem arbitragens favoráveis.

O que poderia parecer apenas um achismo ganha força por fatos mais concretos. A Gea é a principal empresa de agenciamento de jogadores da Itália. A influência da empresa é tão grande que chega a ser suspeita, pois ela domina o elenco em vários clubes da Series A e B. Pior: o presidente da Gea é Alessandro Moggi, filho de Luciano Moggi, presidente da Juventus.

O fato de a Juventus ter sob contrato vários jogadores da Gea e de emprestá-los para pequenos clubes apenas fechava o esquema necessário para os piemonteses terem sob controle boa parte da Serie A. Afinal, árbitros e os adversários não representavam uma hostilidade aos juventinos.

As relações pouco transparentes motivaram a Justiça italiana a grampearem o telefone de Luciano Moggi. Quando os investigadores começaram a ouvir as fitas com as gravações era como Pandora quando abriu a caixa que continha todas as desgraças da humanidade. O buraco era muito mais fundo do que se imaginava e praticamente todos os agentes ligados ao futebol italiano estavam envolvidos de alguma maneira.

Luciano Moggi tinha contato constante com a comissão de arbitragem da Itália, liderada por Pierluigi Pairetto e Paolo Bergamo, e as conversas deixavam claro que a Juventus influía na escala de árbitros da Serie A. Além disso, Moggi também ameaçou apitadores que eventualmente prejudicassem seu clube. Claro que as menções não eram explícitas como o “1-0-0” de Alberto Dualib e Ivens Mendes, mas não precisa ser um gênio para perceber o sentido subliminar de cada frase.

Italia_Lippi.jpg

O uso da Gea como ferramenta de poder também foi confirmado. Moggi filho passava informações privilegiadas das movimentações de mercado, permitindo que a Juventus se antecipasse a qualquer negociação de um rival. Além disso, clubes pequenos sobreviviam graças à Gea, que cedia alguns de seus clientes em troca de subserviência. Para completar, Davide Lippi, filho de Marcelo Lippi (foto), técnico da seleção italiana, é funcionário da Gea e as conversas mostraram Luciano Moggi tentando influenciar a convocação da Azzurra. E era difícil interromper o avanço da empresa porque muitos jogadores aceitavam as condições, ciente de que poderiam ter um atalho para ir à grande Juventus.

Houve ainda outros delitos descobertos pelas gravações, como um esquema de apostas em que participavam jogadores como Buffon, aconselhamento de como atletas poderiam se desvincular de seus clubes para defenderem a Vecchia Signora, a maneira como os piemonteses mantinham a imprensa sob controle e fraude no balanço anual do clube. Até o empresário uruguaio Paco Casal foi mencionado em algum momento.

À medida que as investigações se aprofundaram, outros clubes também foram envolvidos. Apesar de a situação da Juventus ser incomparavelmente mais grave, o cenário se tornou sombrio também para Fiorentina e Lazio. Em menor grau, a crise também passou por Milan, Messina, Siena, Udinese, Avellino, Arezzo e Crotone.

O escândalo, que recebeu o nome de “Calciocaos”, teve um impacto imediato. Três diretores de alto escalão (mas não Moggi) foram demitidos, o presidente da Federcalcio (federação italiana) renunciou e os árbitros italianos que participariam da Copa do Mundo foram retirados da lista, já que seus nomes foram citados nas gravações. A opinião pública pediu ainda a saída de Buffon e Lippi da seleção italiana, mas não foi atendida.

As investigações continuam, com muita gente depondo, muita gente opinando, muita gente aproveitando para aparecer e o buraco se aprofundando. A procuradoria italiana já anunciou que o relatório será finalizado em julho, para dar tempo de punições drásticas serem implantadas já na temporada 2006-07.

Juventus 2006.jpg

Na Itália, o rebaixamento da Juventus é visto como quase certo, até porque vários clubes já sofreram esse castigo na Itália por casos menos graves do que esse. Existe até a possibilidade de os bianconeri caírem para a Série C1 e perderem os dois últimos títulos nacionais. Fiorentina e Lazio também podem descer de categoria, no caso, para a Serie B. O Milan é outro com possibilidade de ir para a Segundona, apesar de essa possibilidade ser pequena pelo que se descobriu até agora.

Em relação às copas européias, ainda há muita incerteza. Alguns falaram até que Juventus, Milan, Fiorentina e Lazio perderiam suas vagas e os representantes italianos na Liga dos Campeões seriam Internazionale, Roma, Chievo e Palermo. De qualquer maneira, os clubes da Bota já foram excluídos da Copa Intertoto.

Como envolve clubes, agentes, jogadores, árbitros, federação e imprensa, o Calciocaos tem proporções nunca atingidas no futebol italiano. Nem o famoso caso do Totonero – que levou Milan e Lazio ao rebaixamento – tinha raízes tão profundas. Se as punições exigidas pelos torcedores forem efetivadas, o futebol italiano virará do avesso por um bom tempo. Tempo para todos repensarem seus papéis, criarem um novo sistema – de preferência um mais protegido contra a corrupção – para o calcio e reerguer o que já foi o maior campeonato do mundo, mas hoje afunda gradualmente.

Ubiratan Leal

Imagens: La Stampa (Moggi), La Gazzetta dello Sport (Davide e Marcelo Lippi) e La Repubblica (Juventus 2006)

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