A maneira como o brasileiro manifesta seu fanatismo pelo futebol é peculiar. Ao contrário de ingleses, não consome qualquer produto ligado ao seu clube preferido. Contrariando o costume de argentinos, não demonstra amor incondicional pelo seu time. Mas tem uma capacidade notável de inserir o mundo do futebol no dia-a-dia, mesmo em situações sem relação alguma com o futebol. E, como qualquer manifestação cultural, o idioma também entrou nessa linha. Com esse princípio, a revista Língua Portuguesa lançou a edição especial “Futebol & Linguagem”. Uma idéia feliz, mas que poderia ter sido melhor aproveitada.
Isso não significa que a revista seja ruim. Mas, como um todo, falta brilho. As pautas foram bem selecionadas, mas faltou um aprofundamento maior em algumas, como a dificuldade de jogadores estrangeiros de aprenderem o português (se limitou a contar historinhas curiosas) e a da origem do nome dos clubes brasileiros (uma coleção de causos, mas sem uma tese que demonstre alguma tendência). Em outras, ficou a sensação de que o assunto é mais rico e ganharia corpo se argumentos histórico-sociais se incorporassem com mais vigor na análise puramente lingüística.
Claro que isso vai muito também da expectativa inicial criada por cada um que compra a publicação (e o autor desse texto, como uma pessoa normal que é, não foge dessa regra). No caso, como é uma edição especial de uma revista especializada em língua portuguesa, esperava-se (ou pelo menos o Balípodo esperava) um cuidado acadêmico com os assuntos, dissecando os temas e as variantes a ponto de chegar perto de esgotá-los.
Outras questões que deixaram a desejar foi no excesso de informações já batidas, caso da criação dos cartões como forma de melhorar a comunicação entre árbitro e jogadores, e outras levemente equivocadas. Muitas vezes por serem mitos que, de tanto que foram falados, se consagraram. Como dizer que a Copa de 2006, por ter Brasil, Portugal e Angola será a mais lusófona da história (são três times em 32, menos de 10%. Em 1966, com duas seleções – Brasil e Portugal – em 16, eram 12,5%).
Também incomoda a falta de padrão gráfico. Muitas páginas são divididas em quatro colunas, um exagero para uma revista e que cansa a vista do leitor pela rapidez com que é obrigado a descer o olho para passar de uma linha para outra. Além disso, não há homogeneidade entre o visual de uma reportagem em relação à outra.
Mas é claro que há bons momentos na publicação. A reportagem sobre a forma como os termos futebolísticos se incorporaram na linguagem do brasileiro (a matéria que dá suporte a toda a revista) explica bem como funciona esse processo. Sem preconceitos, exageros ou “forçadas de barra” para fazer a tese parecer válida.
A entrevista com Juca Kfouri é outro ponto alto de “Futebol & Linguagem”, apesar de não aproveitar plenamente o potencial do jornalista. O que também pode ser um pouco conseqüência da limitação de espaço que qualquer entrevista profunda sempre enfrentará.
O resultado é uma revista boa, mas que não vai além disso. Pelo menos diante da expectativa do Balípodo, que gostaria que essa fosse uma obra de referência sobre a rica relação entre futebol e língua portuguesa. E não é o caso.
Mais informações
“Futebol & Linguagem” é uma edição especial da revista Língua Portuguesa. A publicação é editada pela Segmento e custa R$ 7,90.
Ubiratan Leal
Imagem: Língua Portuguesa