Veja os dois melhores textos sobre como seria o futebol se apenas as equipes de camisa vermelha vencessem. Lembrando que a brincadeira surgiu aqui, não dá prêmios nem nada e fez parte da ação "O que tem no copo vermelho?".
PRIMEIRO COLOCADO
A Copa do Mundo Vermelha
Zurique, junho de 2012, Congresso da Fifa. A sede da Copa de 2018 seria decidida entre Inglaterra, Holanda e Portugal, já que havia consenso de que ela se realizaria num país europeu. Porém dois outros países apresentaram candidaturas: o Brasil, que perdera a indicação de 2014 para o Canadá por não ter apresentado uma proposta adequada, e Cuba, que queria comemorar o sexagésimo aniversário da revolução (cuja data oficial, 1° de janeiro de 1959, poderia ser convenientemente revista e alterada para o dia anterior).
Surpreendentemente Cuba conseguiu ser eleita. Somente então Joseph Blatter percebeu que poderia ter sido um erro – do ponto de vista europeu, ao menos – dar tanto poder aos países periféricos da bola. Mas a decisão estava tomada.
As Eliminatórias que se iniciaram em 2016 mostraram uma coincidência atípica – países de uniformes vermelhos sobressaíam de maneira vistosa. Brasil e Argentina não decolavam, Itália e França patinavam. Alemanha e Uruguai aos trancos e barrancos iam sobrevivendo, o que parecia ter relação direta com os uniformes encarnados que adotaram no princípio do século, com o qual os germânicos ganharam a Copa de 2006 e os uruguaios... bom, ao menos chegaram à Copa de 2014. Dos campeões mundiais, apenas os ingleses seguiam solidamente.
Após mais de um ano de partidas ao redor do globo, as previsões mais catastróficas haviam se concretizado. O Brasil havia falhado em ir à Copa pela primeira vez em 21 oportunidades, para imensa decepção dos haitianos, que pretendiam ir em massa à ilha vizinha acompanhar os canarinhos.
A lista dos países classificados foi: América do Sul – Peru, Venezuela, Paraguai, Chile e Uruguai (que eliminou Papua Nova Guiné na repescagem); África – Marrocos, Tunísia, Angola e Egito; Europa – Bélgica, Noruega, Portugal, Espanha, Bulgária, Croácia, República Tcheca, Dinamarca, Áustria, Suíça, Inglaterra, País de Gales, Turquia, Letônia e Alemanha (ainda dirigida por Klinsmann); Ásia – China, as duas Coréias e Cingapura; América do Norte – Cuba (país-sede), Canadá, Panamá e Trinidad e Tobago. Vinotintos, panamenhos e letões comemoraram sua primeira viagem a uma Copa. Cingapura tentaria somar seu primeiro ponto após três derrotas em 2014.
O sorteio dos grupos, conduzido pelas estrelas Gloria Estefan e Sasha Meneghel, levou às seguintes chaves (cabeças-de-chave à frente): Grupo A – Cuba, Venezuela, Suíça e Angola (o que gerou suspeitas sobre eventual favorecimento aos donos da casa); Grupo B – Inglaterra, Áustria, Peru e Panamá; Grupo C – Espanha, Bulgária, Tunísia e China; Grupo D – Uruguai, Croácia, Turquia e Coréia do Sul; Grupo E – Alemanha, Dinamarca, Paraguai e Canadá; Grupo F – República Tcheca, Letônia, Trinidad e Tobago e Egito; Grupo G – Portugal, Noruega, Chile e Cingapura; e Grupo H – Marrocos, Bélgica, País de Gales e Coréia do Norte.
Um mês antes do princípio da competição, a primeira surpresa: a relação dos uniformes que as seleções deveriam trajar na primeira fase não foi aceita pelos países que só jogariam de vermelho uma vez. Após dias de intensa discussão, definiu-se que um sorteio uma hora antes do jogo indicaria a cor de cada equipe, e a compensação à equipe perdedora seria que o trio de arbitragem seria de seu continente. Com isso, as discussões nos meios de imprensa sobre a ética na arbitragem e, principalmente, sobre até aonde a superstição levaria o torneio, se avolumaram. Menos no Brasil, onde o Campeonato Brasileiro pegava fogo, já que o regulamento previa um quadrangular final durante a Copa. Internacional e América-SP já estavam classificados, e as outras duas vagas eram disputadas ponto a ponto por CRB, Náutico e Vila Nova.
A quinze dias do torneio, o grande choque: ao voltar de um amistoso contra o México em Guadalajara, a delegação cubana teve que fazer uma escala em Miami devido ao mau tempo. No momento em que o avião tocou o solo, os jogadores pediram asilo político. Era o fim da seleção de Cuba. A Fifa não perdeu tempo e decidiu não muito democraticamente que a vaga aberta seria do quinto colocado da Concacaf – para decepção e revolta dos cubanos, os próprios Estados Unidos. Apesar das acusações de suborno, chantagem e até de que os norte-americanos provocaram o furacão que acarretou o pouso forçado do aeroplano, a Fifa manteve-se firme em sua decisão. Milhares de cubanos foram às ruas levar seus “Habanitos” de pelúcia; o popular charutinho mascote da Copa virou símbolo da nova resistência ante os inimigos do norte.
Foi sob esse clima tenso que a competição teve início. Porém, para alívio dos cubanos, os americanos, convocados às pressas, sucumbiram ao eficiente futebol venezuelano, perdendo por 2 a 0, gols do artilheiro milanista Dudamel Jr. O resultado foi suficiente para aplacar os ânimos, e a competição passou a transcorrer normalmente, ou tão normalmente quanto possível. Enquanto isso, o CRB ficava de fora do quadrangular do Brasileirão.
Findas quatro semanas de jogos, o mundo ficou surpreso ao saber que não haveria surpresas na final. Os tetracampeões alemães e os bicampeões uruguaios haveriam de se encontrar no remodelado estádio Panamericano de Havana, na segunda, 13 de agosto, aniversário do presidente Fidel Castro.
O sorteio antes do jogo indicara que os alemães teriam a sorte de jogar de vermelho. Pablo Carvallo, chefe de delegação uruguaia, reagiu comemorando a sorte de poderem jogar de azul, a cor da Virgem dos Trinta e Três, padroeira nacional – a superstição fez com que muitos nem se lembrassem que essa também era a cor da bandeira nacional.
Qual não foi a surpresa quando bilhões de pessoas ao redor do mundo (todas, menos as que naquele momento, em plena segunda-feira, assistiam ao decisivo Inter x Náutico no Beira-Rio) viram o árbitro Paulo César de Oliveira adentrar o gramado vestido de vermelho da camisa às chuteiras? Os alemães protestaram, os uruguaios não sabiam o que fazer, os cubanos aplaudiam ensandecidos. Porém, sendo o brasileiro a autoridade máxima em campo, os europeus, resignados, tiveram que colocar seus antigos uniformes principais.
Os olhos dos torcedores tiveram que se acostumar novamente aos antigos padrões do futebol quando finalmente rolou a bola, e os platinos, de azul, se lançaram contra os germânicos, de branco. Entretanto, parecia que, qual Sansão sem seus cabelos, também as equipes perderam suas forças nos vestiários, deixando-as junto aos uniformes colorados. Assim, na final mais sem graça da história das Copas, latinos e saxões se arrastaram sofregamente até o apito final, depois de 120 minutos de embate sem gols.
A disputa de pênaltis parou o planeta. Multidões silenciosas aguardavam o desfecho da decisão até mesmo em Porto Alegre, onde o Internacional, com sete jogadores em campo, se sagrara campeão brasileiro minutos depois de o Náutico perder dois pênaltis. Mas foi uma decisão rápida. Enquanto os uruguaios acertavam a meta, os alemães pararam nas defesas do arqueiro Carlos Vázquez, de modo que ao cabo das três primeiras cobranças a sorte da final estava decidida.
A torcida invadiu o gramado, pois desde o princípio estava ao lado dos colegas de continente, e começou a arrancar a roupa dos novos ídolos charrúas. E no momento em que arrancaram o calção do herói Vázquez, resplandeceu a cueca vermelha que ele usara na partida. A multidão que gritava enlouquecida o carregou em uma emocionante volta olímpica. De nada valeram os protestos alemães; o Uruguai era, na bola, na sorte e na malícia de seu goleiro, o legítimo campeão do mundo de 2018.
Cláudio Kristeller
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SEGUNDO COLOCADO
Do inferno ao céu, a Copa Vermelha por um gremista
Se os times vermelhos sempre vencessem, o Internacional seria dominante no futebol nacional. Os colorados venceriam todos os Campeonatos Gaúchos e Brasileiros, e disputariam com América de Cáli e Independiente o posto e maior das Américas.
Seria um inferno. Os torcedores do Internacional se sentiriam os maiores do mundo e não respeitariam seus rivais por todo o Brasil. O clube cresceria em títulos, poder e em soberba de seus torcedores. Ninguém mais suportaria um futebol desse jeito e, aos poucos, o esporte seria esvaziado.
Com o tempo, o Internacional seria obrigado a diminuir, mas a soberba cegaria o Colorado, que continuaria tentando crescer e crescer e crescer e crescer. Até que, sem ter como se sustentar, explodiria de tamanha grandeza, como uma supernova.
Seria o marco para uma nova era. Com uma nova lógica, sem o domínio do vermelho. E torcedores de todo o país saudariam esse novo momento, sem o inferno rubro e o surgimento de um céu – e de uma era – azul para o futebol brasileiro.
André Pase