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15/05/06

O mundo não é uma bola...

Até o Peru já aprendeu

Deportivo Municipal.jpg

Teve início no último dia 12 a Segunda Divisão Descentralizada peruana. Um torneio que teria vários motivos para ser ignorado pelos brasileiros, mas que mostra que o futebol incaico evoluiu em campos que o Brasil ainda tateia. Como a percepção de que, para espalhar o futebol pelo país, é preciso fortalecer as divisões inferiores do futebol local. Um assunto bastante relevante se for considerado que estamos quase em junho e ainda não há definição em relação à Série C brasileira de 2006.

É bastante fácil traçar paralelos entre os dois países. O Brasil tem maior extensão territorial (o que atrapalha em relação a custos de viagem), o que é compensado pelo maior poderio econômico diante dos peruanos. Porém, a principal semelhança é a grande crise que atravessam os clubes pequenos e a concentração de clubes nos principais centros financeiros do país. Tudo por alta de uma estrutura que dê condições de sobrevivência para quem estiver fora da primeira divisão.

Na Peru, até 2005, a chamada Segunda División era um torneio em pontos corridos que abrigava apenas os times da região metropolitana de Lima. Mas o acesso à elite era determinado pela Copa Peru, um gigastesco torneio composto por grupos regionais cujos vencedores se enfrentavam em um mata-mata para definir quem iria à elite do país. A Segunda División era o equivalente ao grupo limenho desse torneio.

Por questões econômicas e de tradição futebolística, apenas esse grupo de Lima era minimamente profissional, com clubes um pouco estruturados. Sobretudo porque é mais fácil se manter financeiramente nessa competição, que tem custos de transportes muito baixos.

Nos demais grupos regionais, a vida era muito diferente. Com custos de transportes altos (por causa da falta de infra-estrutura rodoviária adequada e do relevo acidentado, viagens de ônibus pelo interior do Peru são muito cansativas e custosas), clubes de regiões paupérrimas tinham dificuldade de crescerem. Apenas um ou outro que tivesse apoio de empresários ou do poder público local conseguiam disputar uma vaga na primeira divisão.

Esse processo minava o futebol do interior do Peru. Os clubes que chegavam à elite conseguiam sobreviver, mas despencavam em um abismo quase sem fundo caso voltassem a um grupo regional da Copa Peru. O que ia contra a política de descentralização que a federação peruana vem promovendo.

Nos últimos anos, já houve incentivo para quem quisesse ajudar clubes de centros longe de Lima. O próprio investimento na reforma e ampliação de estádios para a Copa América de 2004 e o Mundial Sub-17 de 2005 faziam parte do projeto. Dessa forma, equipes como Coronel Bolognesi (Tacna), Alianza Atlético (Sullana), Universidad César Vallejo (Trujillo), Estudiantes de Medicina (Ica), Atlético Grau (Piura) e Juan Aurich (Chiclayo) ganharam espaço. Antes disso, apenas Melgar (Arequipa), Cienciano (Cuzco) e Unión Huaral (Huaral) eram representantes fortes do futebol do interior peruano.

Com estádios melhores e recursos indo para os clubes, os times melhoraram e o público aumentou. Ainda assim, não era suficiente. Tanto que Estudiantes de Medicina e Atlético Grau faliram, pois ainda era preciso pensar nos andares de baixo. A mudança de padrão entre o Campeonato Peruano e os grupos regionais da Copa Peru era gigantesca e muitos clubes não conseguiam realizar a transição entre as duas competições.

Foram precisos dois anos de discussão e planejamento. Foi definido que os oito primeiros da Segunda División de 2005 se uniriam aos rebaixados da elite e a dois representantes regionais definidos pelas campanhas na temporada passada e pela capacidade estrutural e financeira de se manterem. Assim, Alfonso Ugarte (de Puno), América de Cochahuayco, Curibamba (Andahuaylas), Deportivo Aviación, La Peña Sporting, Municipal, Olímpico Somos Perú, Universidad César Vallejo, Universidad de San Marcos e Villa del Mar deram início à competição.

A tendência é que, em alguns anos, a presença de equipes do interior aumente nessa nova competição, reduzindo a concentração em torno da capital. Curiosamente, a solução brasileira para a Série C talvez fosse invertida, com a regionalização do campeonato. De qualquer maneira, um princípio é fundamental e vale para os dos casos: a necessidade urgente de criar competições duradouras e que dêem condições de clubes de centros menores que militam em divisões mais baixas de criarem um plano de estruturação.

Ubiratan Leal

Imagem: La Banda del Basurero

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