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26/05/06

Cultura & Mídia

A TV digital dá as caras na Copa

Em 1970, as transmissões da Copa do Mundo foram feitas em cores. No Brasil, apenas na sede da Embratel foi possível assistir aos jogos dessa forma, pois o sistema ainda não estava acessível ao público. Mesmo assim, até hoje o primeiro Mundial do México tem a marca de ser o primeiro em technicolor. Da mesma forma, a Copa de 2006 pode ser, do ponto de vista tecnológico, lembrada como o Mundial da TV digital.

Como há 36 anos, o acesso à novidade ainda é restrito no Brasil, apesar de já ser uma realidade em países como Alemanha, Japão, Estados Unidos, Itália, França e Austrália. Em parte, pela indefinição do governo brasileiro em relação ao padrão de transmissão – japonês, norte-americano ou europeu – que será adotado em emissoras abertas. A outra limitação é o fato de que os dois canais que disponibilizarão a tecnologia ao público são por assinatura. Ainda assim, há elementos para considerar essa estréia da TV digital em Copas um marco. Sobretudo pelas possibilidades que a tecnologia traz para o futuro das transmissões esportivas.

A primeira diferença em relação à televisão analógica está na imagem e no som. Com menos perdas na transmissão dos dados, a qualidade de áudio e vídeo é comparável com a de cinema. Mas isso é secundário comparado com a maneira com que a tecnologia pode envolver o telespectador/torcedor. E, aí sim, as mudanças são significativas.

Muitas das inovações ainda não passam de possibilidades em estudo de viabilidade técnica e econômica. Porém, já se imagina com clareza alguns dos recursos que estarão disponíveis a quem acompanhar uma partida pela TV. Para uma transmissão de futebol, os principais são a multi-câmera e menus. “O telespectador poderá interagir mais, escolhendo as câmeras em que verá o jogo e podendo acessar um menu de informações na tela, com números da partida, escalações, resultados de outros jogos da rodada ou diversos outros dados”, exemplifica Marcelo Zuffo, professor da USP que faz parte da equipe que estuda a implantação da TV digital no Brasil.

A expectativa pela entrada definitiva dessa tecnologia no país é tão grande que pesquisadores brasileiros já desenvolvem novos recursos. É o caso do “Torcida Virtual”, sistema de ambiente colaborativo criado para aproximar a experiência do telespectador com a do torcedor que está no estádio.

A técnica consiste em fazer a visão da televisão ser a mesma de uma pessoa que esteja sentada na arquibancada. Com um sistema de som estéreo e home theater, o áudio também seria o mesmo da arquibancada, com gritos, cantos, aplausos e vaias. “A interação é tão grande que, se o sistema tiver rede de retorno, é tecnicamente possível o grito de milhões de telespectadores ser transmitido de volta e ser ouvido no estádio, se somando às vozes de quem já está lá”, comenta Guido Lemos, professor da UFPB (Universidade Federal da Paraíba) e um dos responsáveis pelo projeto.

O que falta ainda?
Uma coisa em comum com todos os recursos imaginados para a TV digital é que o telespectador ainda depende do material produzido pelas emissoras. O menu de informações seria elaborado pelos responsáveis pela transmissão e o torcedor poderia apenas escolher como e quando acessá-las. Claro que, se forem fornecidos dados completos, como os que já existem em coberturas pela internet, há uma grande gama de dados à disposição do público.

Essa dependência também existe nos aspectos audiovisuais. Em princípio, o torcedor poderá escolher o ângulo em que verá o jogo ou um lance dentro das opções oferecidas pela transmissão. Isso vale inclusive para o “Torcida Virtual”, que é condicionado à instalação de câmeras e captadores de som no meio das arquibancadas.

Justamente por isso, os recursos disponíveis ao público brasileiro ainda estão longe das possibilidades do sistema. Na TV aberta, as emissoras só poderão utilizar a tecnologia após o governo definir o padrão para a transmissão dos dados. Afinal, elas deverão ter a mesma linguagem para que o telespectador possa receber a transmissão de todas em um único aparelho (no caso, o telespectador não precisa de um novo televisor, mas tem de comprar um decodificador – com custo de mercado estimado entre R$ 300 e R$ 800 para 2006 – semelhante aos da televisão por assinatura). Por enquanto, apenas demonstrações de testes estão nos planos.

Na TV paga, o uso de tecnologia digital já está disponível e duas emissoras transmitirão a Copa dessa maneira (veja quadro à direita). “Isso é possível porque, em sistema fechado, cada operadora já colocou seu próprio receptor na casa do telespectador e, por isso, pode definir seu padrão para a transmissão e recepção dos dados”, explica Virgílio Amaral, diretor de estratégia e tecnologia da TVA.

Ainda é um começo. Na Copa da Alemanha, está previsto que poucos recursos já estejam disponíveis ao público, caso do menu de informações e da alta definição em áudio e vídeo. De qualquer maneira, estudiosos de comunicação consideram essa uma revolução tão significativa quanto o início das transmissões via satélite e da aparição das cores. O potencial é grande.

Mais informações
Veja o que as emissoras que transmitirão a Copa estão preparando na área de TV digital

GLOBO
Não pode realizar transmissões comerciais em TV digital, mas planeja organizar demonstrações – chamadas de “degustação” – em locais como shoppings. A realização dessas seções ainda depende de acertos.

BAND SPORTS
Comprou os direitos de transmissão em TV digital – são separados dos direitos de transmissão convencional – e fez uma parceria com a TVA e a Gradiente. Assim, o assinante compra o pacote completo, incluindo o aparelho de plasma de alta definição. Os jogos serão transmitidos em um segundo canal da emissora.

SPORTV
Terá um terceiro canal, o “Sportv Copa”, apenas para a transmissão das partidas com tecnologia digital.

ESPN BRASIL
Não fará transmissões com sistema digital durante a Copa do Mundo.

Ubiratan Leal

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