Quando conquistou seu terceiro título mundial, em 1990, a Alemanha Ocidental ganhou muita força na disputa simbólica de maior potência do futebol mundial. Mesmo no Brasil, falava-se em como os alemães representavam o futebol do futuro, em como o Brasil deveria aprender com os germânicos e que, no histórico em Copas, os conterrâneos de Wim Wenders já superavam o Brasil em diversos quesitos. Pelo que ocorreu nos últimos 15 anos, esse parece um cenário surrealista. E Telê Santana teve muito a ver com isso, ainda que poucos percebam ou reconheçam. Mesmo em um momento como o atual, em que sobram justas homenagens ao treinador.
A “alemanização” do futebol brasileiro no final da década de 1980 e início da década de 1990 não se reflete apenas ao uso de táticas mais defensivas ou de maior consciência do “futebol de resultados”. Aliás, isso é algo até pequeno perto do que havia na época. No Brasil, havia a clara sensação de que a posição de elite do futebol mundial estava em risco e que o país perdera a capacidade de criar jogadores e de montar equipes competitivas.
Mesmo o ditado de que “no papel, ninguém bate a seleção brasileira” soava como falso. Em 1990, o Brasil saiu da Copa com a imagem de ser tecnicamente inferior aos principais rivais. Pior, os clubes brasileiros estavam fragilizados e não conseguiam lutar pelo título da Libertadores constantemente. E, de fato, a geração que sucedeu o time de Telê Santana em 1982 e 86 era escassa em talentos. O Brasil não tinha talentos o suficiente para montar três seleções.
Falcão foi contratado com técnico justamente para mudar isso. Sua instrução era convocar apenas jogadores que atuassem no Brasil e o próprio fato de a CBF ter escolhido um elegante ex-volante era clara referência ao comando de Franz Beckenbauer na seleção alemã-ocidental.
Pois, em outubro de 1990, Telê Santana assumiu o São Paulo em substituição a Pablo Forlán. Pegou um time em crise financeira e rebaixado moralmente no Campeonato Paulista (apesar de não ter sido rebaixado de fato). Seu trabalho teve linhas básicas para esse cenário: se livrar dos figurões que não justificassem o investimento e apostar na garotada. Nessa leva, o técnico revelou atletas como Cafu, Elivélton e Antônio Carlos e teve competência para transformar esses jovens em grandes jogadores. Mas isso é o de menos.
O importante foi a repercussão daquele time. Raí, que completava três anos no Morumbi sem nunca ter convencido os torcedores, começava a ganhar espaço como meia de criação e como líder. Müller voltou do Torino e se tornou referência para as jogadas de ataque com sua movimentação e inteligência. Zetti se consolidou como um dos principais goleiros do Brasil e os jovens garantiam o ímpeto do time como um todo.
Os resultados vieram rápido. Em dezembro de 1990, com apenas três meses de Morumbi, Telê já ajudara o São Paulo a ser vice-campeão brasileiro. No primeiro semestre do ano seguinte, o clube conquistaria esse título. Em 1992, o clube era campeão sul-americano e mundial. Sempre com o estilo de Telê Santana: valorização do futebol ofensivo e um planejamento minucioso para que o trabalho pudesse ter resultado consistente e em longo prazo. E sem que fossem necessárias extravagâncias ou adoção de fórmulas mal-copiadas do exterior.
Parece simples vendo hoje, mas, no contexto da época, o técnico redescobria o caminho das vitórias para o futebol brasileiro. Quando o São Paulo ganhou a Libertadores, goleou Barcelona (4 x 1) e Real Madrid (4 x 0) em torneios na Europa e venceu os blaugranas no Mundial Interclubes, o Brasil voltava a se ver como uma nação vencedora em um esporte que não fosse o automobilismo. E mantendo seu estilo de jogo mais instintivo do que lógico, com valorização do talento e da técnica e não do pragmatismo.
Nesse momento, o técnico revertia o processo iniciado em 1974, mas que ganhara força em 1982. Com a derrota para a Itália no estádio Sarriá, passou-se a crer que o Brasil deveria repensar seu modo de jogar. O Tricolor provava que não.
O simbolismo do São Paulo de Telê era tão forte que, quando a seleção brasileira passava por má fase, discutia-se se o time do Morumbi não seria mais forte. Nem se falava tanto na volta do técnico à seleção. Pois o importante não era seu nome em si, mas no modelo que ele propunha e em como ele mostrara que o Brasil ainda podia ser vencedor.
Em 1994, Carlos Alberto Parreira montou uma seleção “europeizada” para a conquista do quarto título mundial. E sem muitos dos jogadores daquele São Paulo de Telê Santana, por mais que a torcida pedisse vários. De qualquer maneira, é inegável que, sem o Tricolor da primeira metade da década passada, o Brasil não teria passado pelas névoas que rondavam o futebol na época. Pela recuperação da autoconfiança e por perceber que, mais do que adotar um sistema de fora, era possível usar elementos externos (organização, por exemplo), para valorizar a cultura futebolística local. E isso era modernizar.
Por isso, pode-se dizer que Telê Santana recolocou o futebol brasileiro em seu caminho. Depois de sua passagem pelo São Paulo, o torcedor nunca mais duvidou capacidade do país em gerar e desenvolver seus talentos. Um legado que poucos creditam ao técnico, mas que não deve ser deixado de lado jamais. Sobretudo no momento em que o país lamentavelmente o perde.
Ubiratan Leal
Imagem: Samba Foot