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26/04/06

Brazil

O que de pior poderia acontecer ao Palmeiras

Palmeiras x Ponte Preta 2006.jpg

Na estréia do Palmeiras no Brasileirão, apenas 2.753 pessoas pagaram ingresso para ir ao Palestra Itália ver a partida contra a Ponte Preta. A um dia do clássico contra o São Paulo na Libertadores, 11 mil lugares no setor palmeirense do estádio ainda estavam à venda. Mostra de que não há mais sintonia entre o clube e seus simpatizantes. O maior sinal de que as coisas estão realmente preocupantes no Parque Antárctica e que uma eventual recuperação tem tudo para ser sofrida.

Esse relativo “abandono” pode parecer normal para uma equipe que vem capengando nos últimos meses. No entanto, a torcida palmeirense não costuma ter esse comportamento. Apesar de ter fama de arredios ao próprio time, os alviverdes raramente proporcionam públicos abaixo de 5 mil quando atuam em casa. Por mais ignóbil que seja o encontro.

Isso pôde ser visto no início de 2006. As primeiras partidas do Palmeiras na temporada não foram das melhores. O time venceu sete jogos em seqüência, mas o futebol não era dos mais convincentes e os adversários eram sabidamente fracos. No entanto, era um momento de grande otimismo. Contra o Deportivo Táchira, na Pré-Libertadores, quase 30 mil palmeirenses foram ao Parque Antarctica, um número que nem seria possível em um jogo doméstico, quando uma pequena parte do estádio deve ser esvaziada para separar torcida local de visitante. Claramente, a torcida havia “comprado” o projeto do clube para o ano.

Pois tudo isso ruiu diante da fragilidade estrutural do Palmeiras de hoje. Os reforços até pareciam interessantes em um primeiro momento, sobretudo Edmundo e Paulo Baier. Porém, ficou evidente que falta capacidade de observação de jogadores a dirigentes e à comissão técnica. Por exemplo, Márcio Careca chegou na lateral-esquerda para ser reserva de Lúcio (que não sempre foi contestado). Enílton veio com credenciais, mas o fato de não se consolidar como titular quando seus concorrentes no elenco são (ou eram) Washington e Gioíno é sintomático. Amaral, Valdomiro e Douglas não cumpriram o papel de reservas aceitáveis. E Ricardinho teve um bom início, mas afundou com o resto do time.

Se um ou outro jogador recém-chegado não vinga é normal. O problema é quando, de oito reforços, apenas um (Edmundo) joga o que dele se espera. Aí não é mais azar, é sinal de que há algo mais profundo nisso. Como erros crônicos ou precipitação de avaliação do potencial dos jogadores. E a incapacidade de se impor no mercado durante as férias, perdendo para outros clubes a oportunidade de contratar atletas que efetivamente acrescentariam algo ao elenco alviverde.

A mesma lógica vale para a dificuldade em recuperar jogadores. É muito estranho que Marcos, Juninho Paulista, Marcinho, Enílton, Gamarra e Daniel tenham sofrido, nos quatro primeiros meses do ano, contusões no músculo adutor da coxa (esquerda ou direita). Falar na incompetência do departamento médico é buscar apenas bodes expiatórios. Além da falta de infra-estrutura (equipamentos e sistema de controle da condição de cada atleta), é discutível se a pré-temporada foi realmente bem planejada em relação ao preparo físico.

Enquanto isso, a diretoria tinha de se virar nas brigas internas do clube. Affonso Della Monica foi eleito como membro do grupo de Mustafá Contursi, mas foi se afastando gradualmente do antigo dirigente sem conseguir se aliar de verdade à antiga oposição. Com isso, perdeu sustentação interna e o clube parou. Até porque os poucos que se mantiveram fiéis a Della Monica (leia-se o diretor de futebol Salvador Hugo Palaia) eram os que realmente davam força a Leão como comandante do time profissional.

Um cenário como esse é mais do que propício para derrubar a equipe em campo. Os jogadores perdem confiança na comissão técnica pela demora na recuperação de contusões e por colocar em dúvida os métodos. Até porque Leão está longe de ser um sujeito afável para seus subordinados (jogador não gosta de técnico centralizador e que expõe questões internas do elenco à imprensa). E, pior, os jogadores não podem nem ver na diretoria alguma figura que se esboce como símbolo de liderança.

É claro que os torcedores sentiriam que, no fundo, o Palmeiras não tinha projeto algum para 2006. E toda aquela empolgação do início do ano morreu. Hoje, os torcedores se sentem à deriva, sem ver que caminho o time pode tomar até o final do ano. É cedo para previsões mais catastróficas, mas o Alviverde precisa de uma reformulação em sua mentalidade o mais rápido possível. Nem que seja para montar um projeto de emergência, com um elenco barato mas comprometido com a camisa verde o suficiente para realizar uma campanha digna no Brasileirão e para, principalmente, mobilizar novamente o torcedor palestrino.

*

A ausência de torcedores palmeirenses tem pouca relação com o envolvimento entre organizadas e a política interna do clube. Quem conhece o Parque Antarctica de perto sabe que o “torcedor comum” é a base do público do Palmeiras e é ele que murchou com a situação do time.

Ubiratan Leal

Imagem: Folha Imagem

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