O River Plate fez o gol da vitória contra o Libertad no mesmo momento em que terminou Paulista 0 x 0 El Nacional. Ainda faltavam dez minutos para terminar o jogo no Monumental de Núñez (os millonarios atrasaram absurdamente a entrada em campo) e os argentinos nem precisavam mais da vitória para passar de fase. Mas o time permanecia no ataque, até que o técnico Daniel Passarella pediu para sés comandados diminuíssem o ritmo, pois um segundo gol definiria o Corinthians como adversário na fase seguinte.
Claro, o treinador imaginava que o Chivas Guadalajara vencesse o Cienciano no México. Porém, o Rebaño Sagrado também estava consciente das artimanhas da tabela. Assim, seguraram um pálido empate em 0 x 0 no estádio Jalisco, na esperança (bem sucedida) de que o São Paulo vencesse o Caracas no Morumbi e ficasse em primeiro lugar do grupo. Com isso, o Chivas, que enfrentaria o River Plate, terá de encarar o Independiente Santa Fé, da Colômbia.

Essas duas histórias mostram como não há mais possibilidade de jogar com a sorte na Libertadores. Cada detalhe já é encarado com seriedade e situações como o River Plate entrar em campo com reservas contra o Paulista, o Tigres poupar jogadores nos deslocamentos a Chile e Brasil ou o Goiás reduzir seu ímpeto no returno da fase de grupos não são mais admitidas.
Veja como serão os encontros da terceira fase da Libertadores 2006 (para facilitar a montagem dos cruzamentos nas fases seguintes, a ordem apresentada aqui é a mesma da tabela. Assim, o vencedor do primeiro jogo enfrenta o do segundo. Quem passar pega o melhor entre o terceiro e o quarto jogo e assim por diante):
Vélez Sársfield x Newell’s Old Boys
O Balípodo não concorda com a tese de já dizer que a Libertadores 2006 está em mãos brasileiras. O favoritismo é evidente, mas há clubes de outros países em condições de levar o título. No entanto, parece que a sorte também está a fim de ajudar. Afinal, as duas equipes não-brasileiras com mais condições de levar a competição terão de se cruzar nas quartas-de-final. Isso se a lógica prevalecer nas oitavas, o que não é tão certo no caso do Vélez.
O Fortín está claramente deixando o Torneo Clausura de lado para tentar o segundo título sul-americano. A campanha até o momento é quase perfeita, com cinco vitórias e um empate em seis partidas, além de ter feito 18 gols (melhor ataque da competição). E, mais importante que os números, o time tem demonstrado maturidade para enfrentar uma competição traiçoeira como a Libertadores.
Exatamente o que não vem ocorrendo com o Newell’s Old Boys. Os leprosos até estão bem no Campeonato Argentino e poderiam assustar. Mas, até o momento, estão frágeis na competição continental, titubeando nos momentos decisivos. A ponto de a classificação às oitavas só ter ocorrido pela fraqueza dos concorrentes (Unión Española e The Strongest). Como é um duelo de argentinos (chamar Vélez x Ñuls de clássico é um exagero), com equipes que se conhecem e estão acostumadas a se enfrentar, até é possível imaginar uma surpresa. Mas o Vélez segue como candidato ao título.
Independiente Santa Fé x Chivas Guadalajara
O Chivas pôde escolher seu adversário nas oitavas, e o fez muito bem. O Independiente Santa Fé ficou em primeiro lugar de sua chave, mas se beneficiou da instabilidade e falta de qualidade dos adversários. O time colombiano nem teve o mérito de transformar sua casa em uma espécie de alçapão ou algo assim. Tanto que empatou em Bogotá com o Bolívar.
Enquanto isso, o time mexicano tem conseguido controlar sua campanha. Empatou demais (duas vezes com o Caracas, por exemplo), mas soube evitar grandes sustos e desgastes. As vitórias contra o São Paulo dão mais crédito à causa dos tapatíos. É verdade que o time continuará sem os seis jogadores convocados para a preparação mexicana para a Copa do Mundo, mas o presidente Jorge Vergara disse que faria um esforço para contratar reforços para o mata-mata da Libertadores e inscrevê-los no lugar de parte dos ausentes. Deve ser suficiente para essa próxima fase.

São Paulo x Palmeiras
O São Paulo é o melhor time do Brasil e talvez seja o melhor das Américas. Ainda assim, é uma enorme precipitação tratar o Tricolor como uma equipe imbatível. O que ficou muito claro nas duas partidas contra o Chivas. Os são-paulinos têm uma certa dependência de Júnior na armação e seus atacantes, apesar de talentosos, estão sujeitos a apresentações apagadas. Até mesmo a revelação Thiago.
Mas, mesmo com esses problemas, o São Paulo é favoritos destacado para o duelo contra o Palmeiras. O Alviverde tem problemas no plano tático, técnico, físico e motivacional. Pior, o único jogador realmente capaz de decidir uma partida sozinho é Marcos, que se recupera de contusão. Juninho Paulista e Edmundo até podem ter um brilhareco, mas dependem de seus (fracos) companheiros. E o clube ainda tem de conviver com crise interna, mudança no comando e a perda total da confiança da torcida. O que é raro no Palmeiras. Se pensar que, quando o Alviverde vinha bem, liderando e animado, perdeu de 4 a 2 para o São Paulo o Estadual, imagine vindo sem técnico e com uma derrota por 6 x 1 par ao Figueirense... Só a rivalidade segura um pouco o time do Parque Antarctica.
Goiás x Estudiantes
Um dos duelos mais interessantes das oitavas-de-final. O Goiás começou muito bem e empolgou com goleada sobre o Newell’s Old Boys e uma vitória em Santiago contra a Unión Española. Depois, apenas administrou a vantagem. A equipe goiana tem jogadores que empolgam, como Wellington, além de Harlei, um goleiro seguro (só sofreu um gol na Libertadores até o momento, sendo o menos vazado do torneio). Porém, ainda é preciso ver como a equipe reage em um jogo mais agudo. Como esse contra o Estudiantes.
Os platenses mostraram que precisam do apoio da fanática torcida para se encherem de brios e superarem as próprias limitações técnicas. Tanto que as três vitórias na fase de grupos vieram no sufoco e quase que na marra. Sinal de que os pincharratas não sentem tanto o fato de jogarem fora de seu estádio (que está interditado). As possibilidades estão na capacidade de intimidar o adversário. O que não é necessariamente algo escuso. Muita gritaria da torcida, marcação pressão e um estilo de jogo autoconfiante, agressivo e intenso já ajudariam muito.
Atlético Nacional x LDU Quito
Outro jogo equilibrado. O Atlético Nacional tem a vantagem de decidir em casa e conta com mais tradição na competição. Porém, tem abusado do direito de jogar mal e expor sua própria fragilidade. É uma equipe insossa, com ataque bissexto e que não dá motivos para receber confiança dos torcedores.
Bom para a LDU Quito, que se ajeitou durante a competição e está em grande fase. Começa a disparar no Campeonato Equatoriano e vem com um ataque muito forte na Libertadores (11 gols nos últimos três jogos). Como tem conseguido aproveitar a altitude de Quito para fazer seus resultados e tem uma quantidade razoável de talentos no time, até pode ser considerado levemente favorito.
Internacional x Nacional-URU
As duas equipes já se enfrentaram na primeira fase e a superioridade dos gaúchos ficou bastante clara: 3 x 0 Inter no Beira-Rio e 0 a 0 em Montevidéu. A tendência para as oitavas-de-final é parecida. O Colorado é mais forte e já aprendeu a jogar partidas decisivas. Com a torcida apoiando, basta sair do Uruguai com um empate no jogo de ida para assegurar a classificação em casa.
O Nacional terá de quebrar o planejamento gaúcho vencendo em Montevidéu. Isso parece óbvio (e é), mas a situação do Tricolor uruguaio depende muito da partida de ida. Se serve como argumento para aumentar a esperança dos bolsos, o Internacional sentiu o choque da perda do título gaúcho contra o Grêmio e perdeu parte de sua confiança.
Corinthians x River Plate
É o duelo que mais chama a atenção. Primeiro, por ser um dos únicos Brasil x Argentina da fase. Depois, porque são duas equipes que chegaram com pose de candidata ao título, mas ainda despertam muitas dúvidas.
O Corinthians é favorito. Tem elenco mais forte e, nas duas últimas partidas, mostrou que há um resquício de alma competitiva no elenco. Até porque Tevez sempre está lá para lembrar os companheiros de como se joga uma Libertadores. Com a entrada de Sílvio Luiz, os alvinegros passam a ter um pouco mais de segurança no gol (nada de excepcional, também), algo muito importante em uma competição em que viver sob tensão é um fator constante. O problema é o de sempre: crises internas, falta de comando no alto escalão e pressão por todos os lados quando a partida vale por torneio internacional.
Enquanto isso, o River Plate tenta provar à sua torcida que não é o pior time montado em Núñez na última década. Os millonarios ainda lutam pelo título nacional com Boca Juniors, Newell’s Old Boys, Gimnasia Jujuy e Lanús, mas a dificuldade enfrentada na fase de grupos da Libertadores é sintomática. O mais preocupante é que o time não parece ter nenhum grande candidato a craque, como sempre ocorre no River Plate. O melhor candidato é o meia-atacante Montenegro, que já nem é um garoto (27 anos). Contra o Corinthians, o time tem de explorar o inevitável nervosismo do adversário e contar com a experiência de Gallardo.
Libertad x Tigres UANL
Duas grandes incógnitas. O Libertad merece elogios, pois, a despeito do grupo fraco que teve na etapa anterior da Libertadores, os alvinegros foram seguros em todos os momentos. Só perderam para o River Plate em Buenos Aires, quando já era apenas formalidade para os paraguaios. Mesmo assim, fica evidente que não é time para lutar pelo título. Pode apenas complicar a vida de adversários medianos.
Pode ser o caso do Tigres UANL. Os felinos têm enviado equipes mistas para os jogos na América do Sul para se garantirem em Monterrey. Uma tática arriscada agora, em uma fase de mata-mata. Se levar a Libertadores a sério, os mexicanos até pintam como candidatos secundários ao título, até porque só perderam um jogador para a seleção de Ricardo LaVolpe.
Ubiratan Leal
Imagens: Olé (River x Libertad), Rubens Chiri/São Paulo (São Paulo x Chivas) e Daniel Boucinha/Internacional (Inter x Nacional)
Obs.: texto publicado originalmente na Trivela
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