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13/04/06

Histórias

A tradição das Midlands no futebol

Aston Villa x Birmingham.jpg

Na reta final, o Campeonato Inglês se concentrou tanto na disputa entre os rivalíssimos Arsenal e Tottenham Hotspur pela quarta vaga do país na Liga dos Campeões que poucos se atentaram a um importante fato: a crise das Midlands. Essa região, que, como o nome indica, fica entre Londres e o norte da Inglaterra, tem como único representante relativamente importante o Aston Villa. Enquanto isso, West Bromwich Albion e Birmingham City estão a caminho da segunda divisão, de onde não conseguem sair Leicester City, Coventry City e Derby County. Uma participação desproporcional à importância histórica da região.

Isso já fica claro no fato de o Notts County ser o clube profissional mais antigo do mundo. Mas a história das Midlands vai muito além disso. Em 1888, sete clubes se reuniram para criar a Football League, entidade que organizaria o Campeonato Inglês que surgiria. Burnley e Blackburn Rovers eram do norte do país. Todos os demais pioneiros – Aston Villa, Notts County, Stoke, West Bromwich Albion e Wolverhampton Wanderers – eram das Midlands. Para a primeira edição do torneio, ainda foram acrescentadas cinco equipes, com mais uma da região: o Derby County.

O principal motivo para as Midlands se tornarem um pólo de criação de clubes de futebol foi a grande industrialização, combinada com urbanização, da região. Tanto que Birmingham é a segunda maior cidade da Inglaterra, menor apenas que Londres. Dessa forma, vários clubes surgiram de grêmios esportivos de trabalhadores de empresas, como o Coventry (ligado a uma fábrica de bicicletas) e West Brom (originário de uma fábrica de componentes para máquinas).

Era evidente que os clubes da região se tornariam forças nas primeiras décadas do Campeonato Inglês. Na década de 1890, as Midlands ganharam seis títulos em sete anos, com cinco times diferentes contribuindo para essa estatística. Claro que isso esquentou as rivalidades, sobretudo na região metropolitana de Birmingham (Aston Villa, Birmingham City e West Bromwich Albion) e em Nottingham (Notts County e Nottingham Forest).

Wolverhampton 1954.jpg

O Aston Villa se destacou desde o início, com cinco títulos na década de 1890. Tanto que, até 1953, quando o Arsenal conquistou seu sétimo campeonato nacional, o Villa era o maior vencedor do torneio (ao lado de Everton e de Arsenal). O Wolverhampton Wanderers teve um grande momento na década de 1950 (foto) e chegou a ser chamado de “melhor time do mundo” pela imprensa inglesa, motivando a criação da Copa dos Campeões da Europa. Os demais tinham brilhos momentâneos e não se consolidavam entre os grandes. Até porque os principais centros já estavam no norte da Inglaterra e, em menor grau, em Londres.

Ainda assim, havia espaço para os times das Midlands. Por exemplo, na década de 1960, a região teve três dos quatro primeiros títulos da Copa da Liga Inglesa. Mas, claro, era evidente o declínio, ainda mais quando, em 1970, o Aston Villa – principal bandeira da região – caiu para a Terceira Divisão. Mas foi apenas o início do renascimento do futebol no berço do Campeonato Inglês.

A equipe que simbolizou o processo foi o Nottingham Forest, até então um clube tradicionalíssimo (o primeiro estádio a usar rede nos gols foi o Town Ground), mas que conseguira apenas alguns títulos de copas e campanhas medianas no campeonato nacional. O técnico Brian Clough assumiu o comando dos reds em 1975 e montou um time extremamente competitivo, com marcação forte e determinação em todas as partidas como modo de contornar a própria limitação técnica. A base era formada por Shilton; Anderson, Lloyd, Burns e Clark; Francis, McGovern, Bowyer e Robertson; Woodcock e Birtles. Os destaques eram o goleiro Peter Shilton e o meia Trevor Francis.

Nottingham Forest x Malmo.jpg

Com essa equipe, o Forest ficou 42 jogos invictos no Campeonato Inglês entre 1977 e 78 (recorde só batido pelo Arsenal em 2004) e conquistou um título nacional em 1977-78. O que deu direito à equipe de disputar a Copas dos Campeões. Logo na estréia, os reds eliminaram Liverpool, AEK-GRE, Grasshopper-SUI, Köln-RFA e Malmö-SUE (foto) para conquistar o primeiro título internacional das Midlands. Na temporada seguinte, o time repetiu o sucesso e ficou com o bicampeonato após passar por Östers-SUE, Arges Pitesti-ROM, Dynamo de Berlim-RDA, Ajax-HOL e Hamburg-RFA. Assim, o time se tornou o único a ter mais títulos da Copa dos Campeões do que de seu campeonato nacional.

As conquistas do Nottingham Forest nesse período poderiam ser maiores se, em 1979, o clube não tivesse desistido de disputar o Mundial Interclubes contra o Olímpia. Os paraguaios conquistaram o título vencendo o Malmö na decisão. No ano seguinte, os ingleses decidiram participar do torneio, mas perderam do Nacional do Uruguai por 1 x 0. Outro título que passou perto foi a Copa da Uefa de 1983-84, quando caiu nas semifinais para o Anderlecht (o que seria uma eliminação comum se, 13 anos depois, não fosse comprovado que o juiz aceitou suborno de dirigentes da equipe belga).

Brian Clough ficou no comando dos reds até 1993, quando o time foi rebaixado. Era o início da decadência do clube. O Nottingham Forest ainda voltou algumas vezes para a Premiership, mas, hoje, está na League One (terceira divisão). É o único clube a ter conquistado a principal competição da Europa nessa condição.

Mas o início da década de 1980 nas Midlands não teve apenas o Nottingham Forest como protagonista. Na época, o Aston Villa já se recuperara da crise e se tornara um concorrente interessante no Campeonato Inglês. O comandante da reação era o treinador Ron Saunders. Em 1980-81, o time conquistou o título nacional e acabou com uma estiagem de 71 anos sem conquistar a principal competição da Inglaterra.

Em 1981-82, os villans não decepcionaram e deram continuidade à série de cinco títulos europeus conquistados por clubes ingleses. O time de Birmingham venceu Valur-ISL, Dynamo de Berlim-RDA, Dynamo de Kiev-URS, Anderlecht-BEL e Bayern de Munique para repetir a façanha do Nottingham Forest e levar a Copa dos Campeões para as Midlands. O time-base era Rimmer; Swain, Evans, McNaught e Williams; Bremner, Cowans e Mortimer; Shaw, Withe e Morley. E, como ocorrera com o rival regional, o time de Bimrmingham também caiu diante de um uruguaio no Mundial Interclubes: Peñarol 2 x 0.

Depois disso, o Aston Villa rapidamente perdeu espaço e se tornou um figurante no Campeonato Inglês. Com a criação da Premier League, em 1993, o futebol inglês atingiu um novo patamar de profissionalismo e parâmetros financeiros, em um processo que o clube – como seus vizinhos de região – não conseguiram acompanhar no mesmo ritmo de Manchester United e Arsenal. Hoje, o torcedor das Midlands está prestes a ter apenas o Villa como um digno representante de sua história na elite do futebol inglês. Um cenário bastante injusto com uma região tão importante no desenvolvimento do esporte.

*

Veja quais são os principais clubes profissionais (nas quatro primeiras divisões da Inglaterra) das Midlands:

Aston Villa
Cidade:
Birmingham
Estádio: Villa Park, 39.217 lugares
Títulos: 7 Campeonatos Ingleses (1894, 96, 97, 99, 1900, 10 e 81), 7 FA Cups (1887, 95, 97, 1905, 13, 20 e 57), 5 Copas da Liga (1961, 75, 77, 94 e 96) e 1 Copa dos Campeões (1982).
Temporada 2005-06: Premiership (primeira divisão)

Birmingham City
Cidade:
Birmingham
Estádio: Saint Andrews, 30.200 lugares
Títulos: 1 Copa da Liga (1963)
Temporada 2005-06: Premiership (primeira divisão)

West Bromwich Albion
Cidade:
West Bromwich
Estádio: The Hawthorns, 25.400 lugares
Títulos: 1 Campeonato Inglês (1920), 5 FA Cups (1888, 92, 1931, 54 e 68) e 1 Copa da Liga (1966)
Temporada 2005-06: Premiership (primeira divisão)

Coventry City
Cidade:
Coventry
Estádio: Highfield Road, 23.611 lugares
Títulos: 1 FA Cup (1987)
Temporada 2005-06: Championship League (segunda divisão)

Derby County
Cidade:
Derby
Estádio: Pride Park, 33.597 lugares
Títulos: 2 Campeonatos Ingleses (1972 e 75) e 1 FA Cup (1946)
Temporada 2005-06: Championship League (segunda divisão)

Leicester City
Cidade:
Leicester
Estádio: Walkers Bowl, 32 mil lugares
Títulos: 3 Copas da Liga (1964, 97 e 2000)
Temporada 2005-06: Championship League (segunda divisão)

Stoke City
Cidade:
Stoke-on-Trent
Estádio: Britannia, 24.050 lugares
Títulos: 1 Copa da Liga (1972)
Temporada 2005-06: Championship League (segunda divisão)

Wolverhampton Wanderers
Cidade:
Wolverhampton
Estádio: Molineaux, 28.525
Títulos: 3 Campeonatos Ingleses (1954, 58 e 59), 4 FA Cups (1893, 1908, 49 e 60) e 2 Copas da Liga (1974 e 80)
Temporada 2005-06: Championship League (segunda divisão)

Nottingham Forest
Cidade:
Nottingham
Estádio: City Ground, 30.602 lugares
Títulos: 1 Campeonato Inglês (1978), 2 FA Cup (1898 e 1959), 4 Copas da Liga (1978, 79, 89 e 90) e 2 Copas dos Campeões (1979 e 80)
Temporada 2005-06: League One (terceira divisão)

Port Vale
Cidade:
Stoke-on-Trent
Estádio: Vale Park, 22.356 lugares
Títulos: -
Temporada 2005-06: League One (terceira divisão)

Walsall
Cidade:
Walsall
Estádio: Bescot, 9.400 lugares
Títulos: -
Temporada 2005-06: League One (terceira divisão)

Notts County
Cidade:
Nottingham
Estádio: Meadow Lane, 21.300 lugares
Títulos: 1 FA Cup (1894)
Temporada 2005-06: League Two (quarta divisão)

Ubiratan Leal

Imagens: Daily Telegraph (Aston Villa x Birmingham) e Football Focus (demais)

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