É raro a imprensa agradar ao torcedor. Primeiro, porque a mídia brasileira como um todo é cheia de falhas e vícios. No caso da esportiva, o excesso de oba-oba é o principal problema. Além disso, o torcedor comum tem uma tendência natural e instintiva de ver/ouvir/ler o que quer e de apenas confirmar seus pensamentos. Na soma dos dois casos, chega-se a conclusão de que os jornalistas são torcedores.
Esse é um grande mito. Claro, todo jornalista torce para algum time, mas, se a imprensa tem viés pró-Corinthians ou Flamengo, não o faz porque seus profissionais sejam corintianos ou flamenguistas. O jornalista se move por várias questões além da preferência clubística, como interesse em ser um bom jornalista, a necessidade de projetar seu veículo e a vaidade. E isso o torcedor precisa entender.
A mídia brasileira – e isso vale para todos os setores – tem cada vez mais dificuldade em dissociar seu noticiário das necessidades comerciais dos veículos. Assim, dá preferência a pautas “vendáveis” e reforça isso com abordagem simpáticas dos assuntos. A origem do oba-oba que toma conta do noticiário esportivo vem daí: uma das verdades estabelecidas no meio é que notícia boa vende jornal, notícia ruim, não.
Isso é válido para todo veículo que tem o esporte como influência em suas vendas. Ou seja, alguns jornais de noticiário geral fogem um pouco dessa regra. De qualquer forma, é raro ver em um jornal esportivo uma capa com conotação negativa para o time local. Por exemplo, se o Corinthians ou o São Paulo perdem um jogo decisivo da Libertadores, o veículo dá um jeito de achar alguma notícia positiva, por mais irrelevante que seja, no Santos ou no Palmeiras para dar como destaque principal.
Quando a notícia boa já vem naturalmente, no caso de vitória de um clube grande, a ordem é glorificar o feito. Como se tivesse sido uma prova definitiva que a equipe que venceu está irresistível e marcha rumo ao título. O famoso oba-oba que o torcedor do time adora, mas os rivais rejeitam e acabam acusando a imprensa de ser tendenciosa. E até é, mas não por preferência clubística, mas por interesse comercial.
Em geral, a imprensa paulista tem uma tendência corintiana e a carioca é pró-Flamengo (e em outros estados os veículos acabam tendendo à equipe mais popular ou que está em alta no momento). Mas isso não significa que os jornalistas sejam corintianos ou rubro-negros. Há vários são-paulinos, palmeirenses, vascaínos e botafoguenses nas redações. Mas mesmos esses assumem o papel da glorificação das equipes mais populares porque isso “dá Ibope” (por mais que o Ibope em si seja botafoguense, hehe).
Agora, que fique claro. Nos momentos em que exaltar São Paulo, Palmeiras, Fluminense ou qualquer outro clube se torna interessante, os veículos assumem esse papel. Isso ficou claro em dezembro passado. A imprensa paulista, que “era corintiana” nas semanas decisivas do Brasileirão, subitamente mostrou uma incrível verve são-paulina após o Mundial.
Ubiratan Leal
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