Juventus, Milan e Internazionale comandam a classificação no Campeonato Italiano. Nada mais trivial, inclusive a quarta posição da Roma e a quinta da Fiorentina, duas equipes que se reequilibraram técnica e administrativamente. E, logo depois, iniciando a fila de equipes médias e pequenas, aparece o Chievo. Um clube pequenino que insiste em provar que os burros (os asininos, não pessoas de pouca inteligência) podem voar. Justo quando mais parecia que eles aterrissariam.
Não é novidade que o Chievo é pequeno. Desde que o clube apareceu na temporada 2001-02 como revelação do campeonato já se fala nisso. Porém, poucos no Brasil conhecem a real dimensão de quão diminuto é – teoricamente – o segundo clube da cidade de Verona.
O clube foi fundado em 1929 por moradores de Chievo, um distrito (bairro afastado) implantado ao lado de uma represa do rio Ádige, a noroeste do centro de Verona. Na época, era apenas um time amador para entreter os poucos habitantes do bairro. E assim os clivensi ficaram durante décadas, disputando torneios com equipes de outros distritos ou pequenas cidades da região. O representante da cidade no futebol profissional era o Hellas Verona (conhecido no Brasil apenas como Verona).
Em 1985, o Verona foi campeão italiano em uma das maiores surpresas da história do calcio. A torcida do Chievo também estava animada, já que seu time havia sido assumido por Saverio Garonzi (ex-dirigente do Hellas) e Luigi Campedelli, dono da Paluani, empresa do setor alimentício (uma espécie de Bauducco, Pullman ou Panco). Como tinham simpatia pelo principal clube da cidade, os seguidores do time da represa brincaram com a possibilidade de crescerem e um dia encontrar o vizinho na elite italiana. Como resposta, ouviram que isso aconteceria apenas no dia em que os burros voassem.

Garonzi morreu anos depois, Luigi Campedelli também. Como o clube já estava estruturado, Luca Campedelli (foto), filho de Luigi, apenas deu continuidade ao trabalho e, aos poucos, a equipe escalou degraus no futebol italiano. Quando chegou à Serie C2, o time passou a mandar o jogos no estádio Marc’Antonio Bentegodi, que fica perto do centro de Verona, e mudou seu nome de Chievo para ChievoVerona (assim mesmo, sem espaço entre as palavras). Em 1992, com Alberto Malesani de técnico, o clube da represa alcançou a Serie B.
Em 12 de dezembro de 1994, Chievo e Hellas disputaram o primeiro derby scaligero da história, com empate em 1 x 1. Ainda assim, o encontro ocorreu apenas na Segunda Divisão. O burro já entrara na pista de decolagem, mas ainda não estava voando.
Em 2000, o técnico Luigi del Neri foi contratado e o time – que apenas pensava em fugir do rebaixamento – teve uma melhora significativa. Com um futebol ofensivo e insinuante, o Chievo foi vice-campeão da Serie B atrás apenas do tradicional Piacenza. Estava assegurado um lugar na Primeira Divisão e, principalmente, o encontro com o vizinho de cidade na Serie A.
Era uma situação inusitada. O distrito de Chievo tem apenas 2,5 mil habitantes e estava com um time na Primeira Divisão do calcio. Mesmo em sua cidade o time não era o mais importante, pois a maior parte da cidade torcia pelo Verona ou por grandes clubes, como Juventus, Milan e Internazionale.
De qualquer maneira, os clivensi tinham apelo. O Verona conta com alguma tradição e uma torcida fanática, mas essa é marcada por ter orientação fascista em suas facções mais radicais. O que, na verdade, é reforçado pelo fato de o Vêneto ser a região da Itália com fama de ser mais racista. Assim, o pequeno, simpático e despretensioso clube da represa ganhou algum destaque como sendo representante do lado bom de Verona, como símbolo dos veroneses não-racistas e uma alternativa ao antipático Hellas.

O que ficou apenas confirmado com o comportamento do time na elite. A torcida clivense era de um desprendimento impressionante. Apesar de pequena, ela se nega a ter orientação política e de se aliar a torcidas de outros clubes (o gemellaggio é muito comum na Itália). Além disso, não escondia sua simpatia pelo vizinho e vibrava quando o Verona fazia gol em outra partida na rodada. As únicas provocações ficaram para os dérbis (foto), quando a torcida do Chievo levou ao estádio vários bonecos de burros, que finalmente puderam voar. Com o futebol ofensivo e surpreendente, que valeu a liderança por quase todo o primeiro turno e a disputa pela Liga dos Campeões até a última rodada apenas reforçou o papel do Chievo de xodó do futebol italiano.
Com o Verona rebaixado para a Serie B, o clube da represa ganhou alguma sobrevida, pois era o único representante do Vêneto na elite do futebol italiano e acabaria angariando um pouco de atenção e investimento de empresários locais. De qualquer forma, era sabido que o time seria rebaixado em pouco tempo. Afinal, uma cidade como Verona não tem espaço para dois clubes e o Chievo, que tinha como base um distrito de 2,5 mil habitantes e deveria se sustentar com uma média de público de 11 mil torcedores (terceira pior da Serie A e menor que a do Hellas na Segundona).
Porém, o burro continuou voando, mesmo contra as probabilidades. A Paluani está longe de ser uma Parmalat ou Cirio, que bancaram Parma e Lazio quase no mecenato (o que depois se comprovou ser fachada para movimentações ilegais ou imorais), e não tem recursos para financiar um clube de elite europeu. E investir no futebol nem é algo fundamental em sua estratégia de marketing, tanto que a diretoria seguia a filosofia de “el panetù magna el balù” (“o panettone vem antes da bola” em dialeto vêneto).
Campedelli se mostrou um dirigente bastante hábil, ao saber conter os custos e, na base de observação de jogadores em times das Series B e C, montar equipes baratas e competitivas. Isso apesar de manter seu espírito amadorístico, como de um sujeito que dirige um clube de futebol por lazer. Del Neri também ajudou, ao dar um estilo de jogo e manter um padrão técnico mesmo com as mudanças no elenco após cada campeonato.
A temporada passada deveria ser o início da decadência do clube da represa. Del Neri foi contratado pelo Porto e o Chievo trouxe Mario Beretta. O novo comandante manteve a política do time, mas os resultados não foram muito bons e, em um campeonato absurdamente equilibrado, a equipe veronesa só escapou do rebaixamento na última rodada.
Pior, o clube foi acusado de participar de um esquema de manipulação de resultados no calcio. As suspeitas se mostraram infundadas, mas isso deixou Campedelli extremamente desgostoso com o futebol, a ponto de colocar o clube à venda. Um grupo de Brescia, mas o negócio não se concretizou.

Foi nesse ambiente que o clube iniciou a temporada 2005-06. Contratou o técnico Giuseppe Pillon e alguns reforços baratos, como o goleiro Alberto Fontana, da Internazionale, o zagueiro Andrea Mantovani, do Torino, o meia Giunti, do Bologna, e o atacante nigeriano Victor Obinna, do Enyimba. Além disso, manteve as principais figuras das temporadas anteriores, como os defensores Malagò e D’Anna, os meias Semioli, Luciano (brasileiro que se chamava Eriberto e mudou de nome após admitir que usava identidade falsa) e Zanchetta e os atacantes Amauri, Tiribocchi e Pellissier.
O time não é nada impressionante no papel, mas Pillon soube aproveitar o fato de a base se conhecer muito bem para dar um grande sentido coletivo ao Chievo. Com um jogo muito compacto e um bom preparo físico, o time conseguiu se destacar em um Campeonato Italiano de nível técnico muito baixo entre os clubes pequenos. Giunti é a principal figura, por dar o tom no meio-campo. Mas a dupla Amauri-Pellissier tem se mostrado eficiente no ataque, com 18 gols na soma de ambos. Obinna (4) e Tiribocchi (7) são reservas que conseguem manter o nível de produção ofensiva.
A regularidade do Chievo é surpreendente. O time tem o quinto melhor ataque e a sexta melhor defesa. Além disso, perdeu apenas uma partida no Marc’Antonio Bentegodi (para a Internazionale), o que inclui um empate com a Juventus e vitória sobre o Milan. Com esse retrospecto, a sexta posição na Serie A é justa e uma vaga na Copa Uefa é mais do que acessível. Sinal de que os burros têm uma autonomia de vôo maior do que esperado.

O burrinho alado se transformou em mascote do Chievo. Alternativo, não?
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O Chievo disputou uma vez a Copa Uefa, em 2002-03. Empatou com o Crvena Zvezda em Belgrado (0 x 0), mas sentiu a inexperiência internacional e perdeu a classificação em casa (0 x 2).
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Já foi discutida uma eventual fusão entre Chievo e Hellas Verona. A idéia mais concreta incluiria o uso do nome e da história do Verona e a diretoria e política administrativa do Chievo, aproveitando as virtudes de cada clube. Porém, há ainda alguns problemas a serem transpostos: 1) com os times em divisões diferentes, é discutível se a Lega Calcio aceitaria a fusão e em que escalão apareceria o novo clube. Ainda mais se a marca esportiva do Verona prevalecesse; 2) as duas torcidas não são rivais e há uma certa simpatia mútua, mas os helladini têm restrições a uma fusão por medo de isso parecer uma submissão a um vizinho em teoria menos tradicional; e 3) os dois clubes estão à venda e as diretorias estão mais preocupadas em encontrar um investidor do que em conversar sobre união de forças.
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O quinto lugar do Chievo em 2001-02 foi a terceira melhor campanha de um caçula na Serie A italiana desde a adoção do sistema de pontos corridos. Curiosamente, as duas melhores também foram de equipes do Vêneto. O LaneRossi Vicenza (atual Vicenza) veio da Segundona e terminou com o vice-campeonato em 1977-78 e o Verona foi quarto em 1981-82.
Ubiratan Leal
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