Depois de ter em suas oitavas-de-final dois duelos que poderiam perfeitamente ser a decisão (Chelsea x Barcelona e Bayern de Munique x Milan), além de outro bastante esperado (Real Madrid x Arsenal), a Liga dos Campeões vê entre os oito melhores apenas duas efetivas surpresas (Villarreal e Benfica). Uma média que vem se mantendo nos últimos anos e serve um pouco para amenizar a realidade que ela própria criou no futebol europeu.
Apesar de serem uns dos principais atrativos do torneio, os enormes prêmios financeiros distribuídos aos participantes acabaram causando uma estranha relação de dependência e distorção de forças nas ligas nacionais. O que aumentou a diferença técnica entre grandes e pequenos e criou um perigoso dilema aos medianos do continente.
Os recursos que entraram na conta dos grandes clubes fizeram com que eles pudessem investir na temporada seguinte com alguma margem de erro. Assim, mesmo alguma contratação equivocada tem seu efeito minimizado e, no final das contas, o abismo entre esses clubes e os demais conterrâneos se torna muito grande. Dessa maneira, quem participa de uma edição da Liga dos Campeões se coloca em situação privilegiada para fazê-lo na temporada seguinte, criando um ciclo difícil de quebrar.

É fácil de identificar isso. Basta ver como clubes como Manchester United, Arsenal, Milan, Internazionale, Juventus, Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Lyon e PSV Eindhoven (e agora o Chelsea) se tornaram figuras constantes no torneio e aumentaram seus domínios domésticos. A classificação para a Liga dos Campeões é algo quase que automático e deixa a briga por vagas previsível em quase todas as ligas, com uma ou outra possibilidade de surpresa.
Porém, é uma relação de dependência. O gigantismo orçamentário dessas equipes é tamanho que uma eventual não-classificação, como pode ocorrer com o Arsenal na próxima temporada, pode ter conseqüências econômicas profundas. Pode parecer algo natural, mas, no momento em que a LC deixa de ser um prêmio e passa a se tornar uma necessidade (quase obrigação), é porque algo está distorcido.
Até porque as equipes médias (do ponto de vista econômico) que eventualmente passam pela Liga dos Campeões dificilmente conseguem dar um salto de categoria. Com nível de investimento baixo, não têm condições de realizar boas campanhas continentais durante várias temporadas, como pode ser visto nos casos de Porto e Liverpool. Quem tenta se antecipar e investe pesado imaginando que se tornará um grande rapidamente, como fez o Borussia Dortmund há três temporadas, corre um sério risco de entrar em gravíssima crise financeira por não ter capacidade de arcar com esse novo patamar de custos.
Não há muito o que fazer para mudar isso. E talvez nem deva ser feito nada. Até porque a Liga dos Campeões cresceu e se tornou realmente atraente por causa deste sistema. Mas que ela está aumentando a disparidade entre grandes e pequenos do continente, isso está...
Ubiratan Leal
Imagem: The Thao
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