A demissão de Antônio Lopes do comando do Corinthians foi correta. Tão correta que se ouve poucos membros da imprensa tentando contemporizar, dizendo que o técnico foi bode expiatório ou algum outro discurso típico desses momentos. O principal motivo é que ele mostrou-se falho justamente nos pontos em que teoricamente deveria se destacar. O que não elimina o fato de que, no fundo, o Corinthians de hoje é um grande pólo de atração de crises.
Quando Márcio Bittencourt foi demitido, após uma vitória sobre o Flamengo por 4 x 1 na Ilha do Governador, o Corinthians era líder do Campeonato Brasileiro (considerando que o STJD acabara de anular 11 partidas). Esse desempenho não garantia críticas positivas ao ex-volante do próprio Corinthians e, por isso, ele caiu.
O motivo alegado para a contratação de Antônio Lopes foi algo como “se antecipar a uma situação crítica, em que a experiência do comandante seria fundamental para um momento de decisão”. Aparentemente, a diretoria temia que o time se desestabilizasse emocionalmente e tecnicamente nas rodadas finais do Brasileirão. Pelo que vinha apresentando o Alvinegro na época de Márcio, até soa como verdadeira essa explicação.
Porém, Lopes não conseguiu de melhorar a equipe nesse aspecto. Um técnico experiente como ele deveria ter sido capaz de conduzir o grupo e diminuir as tensões pré-decisão. Não foi isso o que se viu. Depois de ajustar a defesa e dar uma pequena arrancada no Brasileiro, o Corinthians foi se desmontando, sentiu a pressão das últimas rodadas e quase deixou o título ir ao Internacional.
No início da temporada, também não soube se impor (se é que isso seria possível) na crise com Tevez a respeito das folgas para os principais jogadores no Paulistão. Além disso, criou um foco de tensão ao desagradar os jovens formados no próprio clube, um grupo genioso e com influência muito grande no elenco.
Isso até seria um problema menor se o treinador tivesse dado um padrão tático ao time, o que não ocorreu em nenhum momento. As variações da equipe eram mínimas e sempre conservadoras e algo previsíveis. Em um ano de Libertadores, o que sempre deixa os nervos corintianos mais sensíveis, não havia mais condições de manter Lopes.
O que deve ficar claro, no entanto, é que a saída correta de Lopes não significa que não existam outros problemas enraizados no clube. O mais gritante é a briga pelo comando do futebol corintiano entre o clube e a MSI. Quando os dois chefes se desautorizam continuamente, os subordinados ficam sem saber a quem ouvir ou, pior, não levam mais a sério nenhum dos dois comandos.
Tudo isso é ainda mais crítico porque a MSI trouxe reforços com o rótulo explícito de “estrelas”. Os jovens – que, apesar de tudo, levaram o Corinthians ao quinto lugar no Brasileirão de 2004 – ficaram melindrados e só diminuíram os atritos internos quando também tiveram um aumento de status. Márcio até era importante nesse aspecto, mas pecava pela falta de maturidade tática e técnica
A soma de fatores desenvolveu um ambiente de trabalho bastante delicado, que pode quebrar a cada pequena ação mal encaixada. A não ser que o técnico assumisse o papel da diretoria e conseguisse atrair para si respeito suficiente para servir de autoridade e referência no grupo. Como Lopes passou da cota pessoal de equívocos e não soube usar sua experiência para liderar o elenco, acabou caindo. O problema é que poucos serão capazes de realizar algo em um ambiente agressivo como o encontrado no Parque São Jorge.
Ubiratan Leal