A campanha brasileira da Libertadores 2006 tem sido notável. Dos seis participantes, apenas o Paulista parece ter poucas chances de classificação. Palmeiras e Corinthians ainda têm algo a provar, mas têm condições de seguir. Enquanto São Paulo, Goiás e Internacional estão tranqüilos por enquanto. Somado à má prestação dos argentinos, pode ser criada uma euforia brasileira. O que é muito precipitado ainda.
O principal motivo é que ainda há poucos elementos para se chegar a conclusões sólidas a respeito dos times que participam dessa edição da Libertadores. Os grupos não se cruzaram e determinadas equipes mudam muito sua forma de atuação em fases de mata-mata.
A imprensa brasileira adora achar que os único times da Libertadores que podem vencer os brasileiros são Boca Juniors e River Plate. De resto, todos são vistos como fracos e se disseminam frases como “eu vi jogo do Nacional de Santiago contra o Atlético de Assunção e, sinceramente, o (ponha o nome de qualquer equipe brasileira aqui) não deve ter dificuldades para vencer ambos”. Se fosse tão simples assim...
É o caso do Newell’s Old Boys, que caiu na soma dos confrontos diretos contra o Goiás. Os leprosos não têm um time forte como o vice-campeão sul-americano de 1992, mas disputam a liderança do Campeonato Argentino e podem crescer bastante quando tiverem um pouco mais de confiança na Libertadores. O mesmo raciocínio é válido para o River Plate, como pôde ser visto nos 4 x 1 sobre o Paulista nesta semana.
Outro exemplo argentino é o Vélez Sársfield, que tem 100% de aproveitamento até agora e tem jogado um futebol para disputar o título do torneio. Confiante, ciente das necessidades de cada partida, o Fortín é ignorado pela imprensa brasileira por só enfrentar adversários estrangeiros. Mas uma vitória por 3 x 1 sobre a LDU Quito na altitude da capital equatoriana é um resultado de respeito.
No México, vale destacar o Tigres UANL e as Chivas Guadalajara. Os felinos venceram as duas partidas em casa com o time titular e perderam fora com a equipe mista. No momento que se dedicar com mais fervor à competição continental, o clube de Monterrey pode dificultar a trajetória de qualquer brasileiro, como já fez com o Corinthians. O Rebaño Sagrado mostrou, com a vitória sobre o São Paulo, que está entre as equipes mais fortes da competição.
Isso porque os próprios brasileiros ainda não se mostraram tão superiores assim para justificar qualquer otimismo exagerado. O São Paulo, que segue como favorito ao título, tem demonstrado uma pequena inconstância, principalmente na defesa. Nada que comprometa a trajetória tricolor, mas é um problema que não pode ser ignorado. O Goiás tem a melhor campanha entre os brasileiros, mas não tem talentos e experiência suficiente e pode pagar por isso.
De qualquer forma, são-paulinos e goianos estão seguros. O que não pode ser dito dos outros. O Internacional, que vinha bem, teve uma temerosa queda de concentração na partida contra a equipe mista do Pumas Unam no Beira-Rio, algo que seria inadmissível em uma fase de mata-mata de Libertadores. Corinthians e Palmeiras ainda têm de encontrar um padrão para ter algo mais sólido e confiável a apresentar. O Paulista está com possibilidades reduzidas de seguir na competição.
No todo, fica um cheiro parecido com o de 2003. Naquele ano, após os jogos de ida das oitavas-de-final da Libertadores, os mais exaltados já sonhavam com uma improvável semifinal reunindo apenas as equipes brasileiras: Santos, Corinthians, Grêmio e Paysandu. O oba-oba foi imenso e transformaram em zebras resultados que deveriam ser considerados normais, como o River Plate bater o Corinthians, o Boca Juniors superar o Paysandu e o Independiente Medellín vencer o Grêmio. Pelo visto, os brasileiros não aprenderam a tirar lições das derrotas.
Ubiratan Leal
Imagens: Daniel Boucinha/Internacional