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22/03/06

Brazil

Valorizar raízes protege contra apequenamento

Uma das conseqüências prováveis após o esvaziamento dos Campeonatos Estaduais é o apequenamento de forças regionais que não conseguirem manter o ritmo de conquistas no cenário nacional. O que não é um fenômeno brasileiro, pois a Liga dos Campeões tem feito isso com as ligas nacionais européias. No entanto, isso não significa que grandes clubes estejam fadados a se transformarem em América-RJ, Ypiranga-BA, Nürnberg ou Pro Vercelli. Basta encontrar seu nicho para fincar raízes.

Primeiro, é necessário explicar o processo de enxugamento nas forças de cada país. No Brasil, com os Estaduais perdendo valor, a tendência é que as únicas conquistas realmente consideradas importantes o suficiente para atrais torcedores seriam Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores e Mundial. No caso, é interessante excluir Libertadores e Mundial de Clubes porque quem vence um desses torneios, é porque já obteve relativo sucesso na Copa do Brasil ou no Brasileirão.

Se isso realmente acontecer e imaginando que os tradicionais grandes clubes do Brasil são Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Atlético-MG, Cruzeiro, Internacional e Grêmio, cada um conquistaria, na melhor das hipóteses, um título importante a cada seis anos. Porém, seria algo ainda pior, pois essa conta descarta o crescimento de clubes como Atlético-PR e Goiás, ignora o surgimento de surpresas como Santo André e Paulista e deixa de lado a possibilidade de alguns clubes conquistarem mais de um título nacional nesse período de tempo.

Assim, é inevitável que alguns dos tradicionais grandes clubes do Brasil fiquem até 15 anos sem ver um título nacional. Se os Estaduais não servem como compensação, a tendência é que esses percam representatividade e se apequenem aos poucos. Na Europa, o parâmetro é parecido, com as copas nacionais perdendo força e campeonato doméstico e Liga dos Campeões servindo como torneios efetivamente válidos.

No Brasil, o cenário ainda não está tão definido quanto na Europa e ainda há muita coisa a ser delineada. Porém, os clubes já deveriam se atentar a esse processo quase inevitável e começar a buscar soluções. E a principal delas seria ter uma cara, um perfil específico em que, independente do tamanho, esse clube prevaleceria.

Teria de ser vencida uma barreira cultural. Aqui, o sonho de todo clube é ter uma torcida de massa, como se isso fosse algo obrigatório. Para os que sabidamente não terão como concorrer com rivais locais, seria muito mais inteligente trabalhar em cima de um grupo limitado, mais ou menos como uma empresa de médio porte que procura fazer um produto diferente para dominar um mercado restrito, mas fiel.

Essa lógica vai muito além de pensar nas divisões tradicionais “clube de colônia”, “clube da elite” ou “clube do povão”. Claro, essas especificidades poderiam ser exploradas, sobretudo em casos como a Portuguesa (que teria muito mais torcida que tem se atraísse a simpatia de todos os descendentes de portugueses de São Paulo). Mas há muitos outras variantes.

No México, por exemplo, o Pumas Unam se define como o time dos intelectuais e estudantes universitários. Em Londres, o Tottenham tem relativa identificação com amantes de um estilo de jogo mais técnico, enquanto que o Arsenal tradicionalmente era adepto do “futebol de resultados” (curioso como isso se distorceu nos últimos anos). Há casos de clubes que defendem causas políticas (Barcelona e Athletic Bilbao), outros que se definem como cosmopolitas (América-MEX e Real Madrid).

É como criar uma cultura em volta do clube, o que já existe, mas é mal explorado. Dessa maneira, mesmo sem conseguir tantos títulos, uma equipe poderia ter a certeza que levantaria determinadas bandeiras. E teria a certeza teria a seu lado torcedores que se identificassem com isso.

Ubiratan Leal

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