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2/03/06

E se...

E se a Copa dos Campeões não existisse?

Hoje, a Liga dos Campeões é a principal referência do futebol profissionalizado do mundo. Afinal, e o campeonato mais rentável e é crucial para qualquer clube europeu que tenha pretensões de ser grande, mesmo em seu país. O torneio ainda reúna praticamente todos os astros do esporte no mundo e inspirou competições similares em outros continentes. Pois como seria o cenário mundial sem a existência da Copa/Liga dos Campeões?

O torneio foi criado na década de 1950 devido à uma campanha do jornal francês L’Équipe, que se inspirava na Copa Mitropa e pretendia acabar com os diversos casos de times chamados ou auto-proclamados de “campeões mundiais” ou “campeões europeus”. Claro, se Gabriel Hanot, editor do periódico gaulês, não tivesse essa idéia, alguém a teria e a Copa dos Campeões teria surgido do mesmo jeito, apenas uns anos mais tarde. Mas, para esse texto não acabar em dois parágrafos, suponhamos que ninguém resolvesse reunir os campeões nacionais da Europa ou que a Fifa e/ou a Uefa não permitissem que tal competição fosse organizada.

Durante as décadas de 1960, 70 e 80, o impacto não seria tão forte. O dinheiro que rolava no mundo esportivo ainda era relativamente baixo, as ligas nacionais eram a base de sustentação econômica de todos os clubes da Europa e a idéia de intercâmbio, apesar de forte, era pequena se comparada à que há na atualidade.

Ramon de Carranza.jpg

As principais diferenças estariam nas competições amistosas de pré-temporada. Para não se enclausurarem dentro de suas próprias pátrias, os clubes acabariam dando mais importância aos torneios rápidos como Ramón de Carranza e Teresa Herrera. Surgiriam vários, em diversos países da Europa, com a participação inclusive das grandes equipes sul-americanas (que não teriam a Libertadores, inspirada na Copa dos Campeões). Também ganhariam força as copas regionais, como a Mitropa e a Latina. Talvez surgisse alguma entre os países britânicos, outra entre os escandinavos e uma do Leste Europeu.

Por serem diluídos e rápidos, esses torneios teriam grande importância do ponto de vista técnico e seriam muito celebrados pelos torcedores. No entanto, não seria possível atrair recursos financeiros que realmente fizessem alguma diferença no caixa dos clubes e o conceito de “melhor da Europa” ou “melhor do mundo” seria muito subjetivo, com cada torcedor tentando colocar os fatos de seu lado.

A partir da década de 1990, com o fim da Cortina de Ferro, o gradual aumento da importação de jogadores na Europa e o crescimento do marketing esportivo, as mudanças seriam mais sensíveis. Com recursos de sobra para investir em futebol, as grandes empresas acabariam obrigadas a investir nas ligas nacionais, que veriam um fluxo inimaginável de dinheiro chegando. Para transmitir a maior quantidade possível de partidas e atender à demanda reprimida, as televisões tratariam de incrementar o leque de opções para o espectador, com novos horários para os jogos e novos formatos de transmissão. Com tanto dinheiro girando, os campeonatos nacionais ganhariam grande força interna, se tornariam mais equilibrados e se fechariam em si próprio, um pouco como a NBA.

Porém, uma questão começaria a surgir. Os clubes de cada país mostrariam todo seu poder em seus campeonatos internos, mas não se enfrentariam entre si. Os torneios amistosos continuariam existindo e ganhariam novas versões, como a Copa Nike, a Copa Adidas, a Copa Puma e a Copa Kappa, cada uma reunindo os principais clubes patrocinados por estas empresas. Uma grande jogada de marketing que aos poucos mostraria aos investidores no futebol que havia potencial em realizar grandes desafios internacionais.

Milan x Barcelona 2005.jpg

No final da década de 1990, um promotor de eventos na Europa decidiria ousar. Com bons contatos, ele reuniria grandes empresas internacionais, se associaria ao organizador de alguma dessas competições e realizaria o “Torneio dos Campeões”. Prometendo prêmios polpudos aos participantes, o evento atrairia os campeões de Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, França, Holanda, Bélgica e Escócia. Por valorizar demais seu campeonato nacional, a Inglaterra declinaria do convite.

Seria a primeira competição que reuniria os campeões dos principais países da Europa. O torneio seria aguardado com bastante expectativa e chamaria a atenção de torcedores de todo o mundo, que considerariam o evento como uma mini-Copa do Mundo. Seria um grande sucesso financeiro e técnico, o que motivaria empresários japoneses e árabes a sugerirem a realização do torneio anualmente em seus respectivos países.

Porém, os dirigentes europeus perceberiam que a competição teria mais futuro se fosse alargada, com mais partidas e um período de duração maior. Depois de três edições com sede fixa e alocada em duas semanas na pré-temporada, o Torneio dos Campeões cresceria com o convite a todos os campeões do continente e jogos de ida e volta, para os torcedores de cada clube poderem ver seu time de perto. As televisões pagariam vultosas quantias pelos direitos de transmissão, pois teriam garantia que teriam futebol para a temporada inteira.

E a Copa dos Campeões acabaria surgindo de qualquer forma. Se não fosse pelo interesse esportivo em ver qual o melhor clube da Europa, seria pelo potencial financeiro da competição.

Ubiratan Leal

Imagens: News Page Designer (Ramón de Carranza) e The Thao (Milan x Barcelona)

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