Os discursos de Joseph Blatter a respeito do calendário internacional já são manjados há tempos. De qualquer forma, o suíço presidente da Fifa insiste e continua defendendo que os campeonatos nacionais deveriam ter apenas 16 integrantes para reduzir a quantidade de jogos por temporada. Precipitados, alguns já discorrem a respeito da proposta como se fosse algo sério. Porém, o assunto é mais complexo do que parece e envolve muito mais do que apenas a quantidade de partidas disputadas por cada clube. E Blatter sabe disso.
Adotar um calendário unificado para todo o mundo é algo necessário e que, em certa medida, já ocorre, por necessidade dos países a se compatibilizarem com a Europa. Seria ótimo se todas as federações respeitassem as “datas Fifa”, se não houvesse acúmulo de partidas ou bagunças que servem apenas para dificultar o entendimento da realidade por parte do torcedor.
Mas tudo isso deve ser visto como parâmetros mínimos, sem grandes detalhamentos. Afinal, cada país possui suas particularidades – desde o frio do inverno europeu e o calor dos trópicos até a necessidade cultural dos ingleses de preservarem os “replays” da FA Cup e as rodadas entre Natal e Ano Novo – e não é recomendável brigar contra elas.
No entanto, a Fifa mostra que pensa em algo além disso. No momento em que fala sobre a quantidade máxima de clubes em campeonatos nacionais, a entidade dá a entender que pretende exercer um controle muito mais rígido no dia-a-dia do futebol internacional. O que é tão nonsense se for visto como questão de calendário que fica a sensação de que a questão é muito mais política do que de agenda.
Se a Fifa conseguisse implementar um calendário internacional detalhado a ponto de definir a quantidade de clubes dos campeonatos nacionais, ela estaria demonstrando poder o suficiente para governar todos os níveis do futebol. Mesmo questões puramente locais. Claro, é uma forma de enfraquecer clubes (já que os principais campeonatos europeus são organizados por ligas, e não por federações) e reduzir o risco de aparecer um grupo insurgente dentro da estrutura do esporte (alguém falou em G-14 ou na Uefa?).
Por isso, o calendário internacional só será realidade se limitar-se a definir datas mundiais a serem cumpridas, respeitando a autonomia de confederações continentais e federações nacionais. Se assim mesmo já é difícil, buscar algo além disso é utopia. Pois as brigas políticas serão insolúveis.
Ubiratan Leal