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9/03/06

Brazil

Clubes do interior precisam descobrir modelo

Noroeste 2004.jpg

É um recurso muito fácil e usual aproveitar qualquer boa fase de um clube de interior para dizer que há algo novo surgindo. Ainda mais em época de Estaduais, quando várias equipes pequenas aparecem como ameaça aos grandes em vários cantos do país. Casos de Noroeste, Ipatinga, Ipitanga, Colo Colo, Adap e até Volta Redonda. Porém, isso está longe de significar uma real recuperação do interior, pois ainda falta um projeto consistente para torná-los viáveis.

Em geral, os clubes pequenos vivem de um financiador ou de alguém que o ajude a montar o time. A regra básica é contar com apoio da prefeitura, de um empresário que use o time como “vitrine” para seus atletas ou de um grande clube que procura uma equipe satélite para dar experiência aos jogadores mais jovens. As que tentam viver no estilo “convencional” acabam soçobrando em dívidas e dificuldade de enfrentar a concorrência de clubes com apoio externo.

O problema desse cenário é ignorar a relação com a comunidade, que, no caso de clubes do interior, são seus torcedores. Um empresário está apenas preocupado no lucro, e não tem pudor em fundar uma instituição nova, sem nenhuma tradição, para o lugar de outra já reconhecida pela cidade como sua representante por décadas. Grandes clubes, quando procuram montar um time B, preferem locais em que possam manobrar sem grande risco de ter problemas com os torcedores.

Assim, vários clubes tradicionais acabam padecendo da falta de atratividade para eventuais investidores. Curiosamente, o motivo é justamente o que deveria ser uma virtude: a história e relação com uma torcida já estabelecida. E, claro, dívidas que nem sempre seriam tão problemáticas com um plano minimamente sério de crescimento.

O Brasil está tão preocupado com seus grandes clubes (Timemania, rateio de cotas de televisão, combate à pirataria...) que se esquece de realizar um plano para dar nova vida aos pequenos. Algo que dê possibilidades para quem tem um plano sério de montar um time de futebol modesto, sem a obrigação de ter de crescer rápido (e de forma irreal) ou morrer de inanição.

Claro que a primeira medida seria criar um calendário realmente nacional (contando todos os cantos do país), e não um que contemple apenas os principais centros, pensando em Séries A e B do Brasileirão. Assim, os clubes pequenos não precisariam viver dos poucos meses de duração dos Estaduais e nas natimortas copas de cada federação.

Mas não é só isso. É preciso alguma ferramenta que permita planos consistentes nesse âmbito. Um clube de interior pode perfeitamente viver às custas de sua prefeitura ou de um empresário. Mas deve haver um mínimo de comprometimento desse investidor. Uma garantia de que, se ele sair inadvertidamente, haverá uma maneira de seguir com o projeto. Só assim para haverem categorias de base sérias, trazer de volta o torcedor do interior ao estádio (sem ser nos jogos contra os grandes) e transformar o time de uma cidade em real representante de sua comunidade.

O Noroeste tem relativo sucesso neste início de temporada justamente porque soube se estruturar em cima de um nome tradicional e reconhecido pelos bauruenses. Isso é fundamental e mesmo os empresários menos compromissados com a história deveriam perceber. Só resta saber se há base para esse e outros casos terem vida longa e não morrerem em alguns anos.

Ubiratan Leal

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