Neste mês de fevereiro, foi possível ver, no mesmo dia, dois clássicos de características muito marcantes: Chelsea x Liverpool e São Paulo x Palmeiras. Nessas partidas ficou muito clara a característica estereotipada de jogo de ingleses e brasileiros. Os primeiros com muito sistematização, os últimos com um jogo mais espontâneo. Mas, apesar das aparências, dizer que os 4 x 2 dos são-paulinos foram um jogo “melhor” é uma questão cultural.

Não há dúvidas que o encontro do Morumbi foi mais emocionante, com mais variáveis e gols em profusão. Porém, a percepção do que é um jogo de boa qualidade técnica é bastante diferente de país para país. E o brasileiro que diz que futebol inglês é chato como um todo é tão preconceituoso quanto o britânico que menospreza a qualidade do jogo praticado na América do Sul.
O brasileiro tende a ver como tecnicamente boa a partida em que as equipes atuam de maneira aberta, sem medo de se expor, com jogadores demonstrando habilidade, o acaso é predominante em diversos momentos e há um grande número de lances nos melhores momentos da mesa redonda da noite. Porém, muitas vezes o preço de jogos com essas características são times defensivamente fracos, sem planejamento coletivo e que apelam para o individualismo por incapacidade de criar algo em conjunto.
Pode parecer chatice se apegar a esses aspectos diante de um encontro emocionante. Mas muitos europeus vêem o futebol dessa maneira. Assim, a espontaneidade do jogo é visto como fraqueza, como incapacidade de ver o futebol como esporte coletivo e, como tal, deve como prioridade a busca por ações coletivas. Aos olhos de muitos europeus, o futebol brasileiro (de clubes) é um jogo monótono, em que um jogador pega e bola e sai correndo para o outro lado e, se não for parado com uma falta irritante na intermediária, vai desperdiçar o lance por falta de um companheiro que o ajude na jogada.
Para esse torcedor, apreciar a movimentação tática das equipes, a maneira como uma tenta anular a outra, os artifícios que cada jogador e técnico emprega na batalha tática é empolgante. O nervosismo gerado por cada movimentação, que pode ter efeitos colaterais negativos, também gera emoção.
Como em qualquer manifestação artística (e o Balípodo defende que o futebol é uma), a maneira de apreciar uma partida de futebol é individual e soberana (não há certo ou errado dentro de certos padrões). O ordenamento coletivo pode perfeitamente ser bonito para alguns torcedores, como a espontaneidade o é para outros. Mal comparando, é como um amante de rock progressivo e o de punk rock. São formas completamente diferentes de ver o mesmo estilo musical. Pura questão cultural.
Ubiratan Leal
Imagens: BBC Sport e UOL
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