Assim que saíram os classificados africanos para a Copa do Mundo, com quatro seleções debutantes, as vozes mais apressadas decretaram uma “nova ordem” no cenário futebolístico do continente negro. Seria a prova final de que Camarões, Nigéria e outras forças da região estariam dando lugar a equipes como Angola, Costa do Marfim e Togo. Pois a Copa Africana de Nações conquistada pelo Egito mostrou que nada mudou e que o resultado das Eliminatórias foi apenas conseqüência de uma série de pequenas surpresas.
Pode-se dizer que a hierarquia do futebol africano se consolidou nos últimos 15 anos. Camarões, Nigéria, Egito, Marrocos, Tunísia, África do Sul e Gana são as grandes seleções do continente, com Camarões e Nigéria um pouco à frente dos demais e Zâmbia, Costa do Marfim e Senegal entrando nesse grupo eventualmente. O segundo escalão é composto basicamente por Angola, Congo-Kinshasa (ex-Zaire), Guiné, Argélia, Mali, Togo e Burkina Faso, além de Zâmbia, Costa do Marfim e Senegal quando estão em má fase.
Já houve casos recentes em que equipes do segundo grupo superaram as potências do continente. E se isso ocorresse nas Eliminatórias da Copa, seria normal. O que surpreendeu e motivou comentários mais cataclísmicos foi o fato de duas seleções medianas terem conseguido um lugar no Mundial (Angola e Togo), além de outras duas que freqüentam a elite, mas costumavam ter má sorte na qualificação às Copas (Costa do Marfim e Gana).

Assim, a expectativa em torno da CAN 2006 era a confirmação dessas mudanças. No entanto, a única notícia em relação a “nova ordem” foi a consolidação da Costa do Marfim como integrante do primeiro escalão da África e que a crise administrativa da África do Sul está prejudicando o desempenho dos Bafana Bafana em campo. De resto, houve domínio das seleções de sempre: Egito, Senegal, Tunísia, Nigéria e Camarões. Marrocos foi mal, mas tem a desculpa de que caiu no grupo dos dois finalistas e sua única derrota – 1 x 0 para a Costa do Marfim – foi conseqüência de um pênalti mal marcado (a falta foi fora da área).
Ficou claro que o resultado das Eliminatórias foi um acidente. Não a classificação isolada de Angola, Togo, Gana ou Costa do Marfim. Afinal, zebras são corriqueiras em apuramento a Mundiais e, se apenas uma ou duas dessas equipes estivessem na Alemanha, seria encarado com naturalidade. Angola já chegou perto de estar na Copa em outras oportunidades, Gana e Costa do Marfim já foram campeãs continentais e o Togo tinha como grande adversário um Senegal que não soube conviver com a fama pós-Copa de 2002. O que causa estranhamento é o fato de essas quatro equipes, simultaneamente, terem conseguido suas vagas.
E isso nada tem a ver com a fórmula de disputa das Eliminatórias africanas, como chegou a ser especulado erroneamente. Critérios de sorteio podem ser apontados como falhos se colocarem, por exemplo, Nigéria, Camarões, Costa do Marfim e Senegal em um grupo, deixando outra chave com Angola, Quênia, Tanzânia e Cabo Verde. Mas não foi o caso. As cinco chaves eram equilibradas, cada uma com um participante africano da Copa de 2002, e todas as surpresas das Eliminatórias tiveram de superar uma força tradicional do continente.
No máximo, pode-se dizer que as Eliminatórias, por serem em pontos corridos dentro dos grupos, dão margem à equipes medianas se garantirem com resultados em casa e, com um ou outra bom desempenho como visitante, já se colocam na frente. Mas mesmo isso é conjectura.
No final das contas, o que ficou claro é que Camarões, Egito e Nigéria continuam fortes e não estão perdendo espaço para novas forças. Apenas têm na Costa do Marfim um novo adversário à altura. Gana continua forte. Quanto a Angola e Togo, é possível trabalhar para o futuro e as Eliminatórias mostram isso, mas ainda é preciso mais experiência e intercâmbio para se alçarem a forças da região.

Camarões 2 x 0 Togo: ficou bem claro quem é a força africana
Ubiratan Leal
Imagens: BBC Sport e Africa Foot (Camarões x Togo)
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