Há clubes que constroem sua identidade em cima de algum aspecto. Pode ser a garra, pode ser a capacidade de superação, a autoconfiança em todos os momentos, a técnica ou a simbiose com seus torcedores... o que quer que seja. O importante é que esses clubes jamais podem ser subvalorizados no que depender de tal pilar em volta do qual se estruturou. É o caso do Estudiantes de La Plata.
Quando os pinchas desceram para o vestiário no intervalo de jogo contra o Sporting Cristal, o placar do estádio Centenário de Quilmes – o estádio Luis Jorge Hirschi está interditado – marcava um inominável 3 x 0 para os peruanos. O mais curioso é que os cerveceros de Lima mereciam o resultado. Dominavam o meio-campo, sufocavam o time da casa e jogavam um futebol incomum até mesmo para uma potência do continente. Nem parecia a equipe que, na primeira rodada, perdera em casa do Independiente Santa Fé.
O discurso mais óbvio para o vestiário era remeter ao Liverpool x Milan da decisão da última Liga dos Campeões. Foi um jogo que todos viram e se tornou símbolo de como o futebol dá espaço a reações inesperadas. Porém, é uma referência completamente irreal para o universo de uma partida anônima entre dois times que devem ser coadjuvantes na Copa Libertadores. Seria mais fácil para os platenses se houvesse algo mais concreto a se agarrar. E havia.
Em 1983, Grêmio e Estudiantes se enfrentaram na fase semifinal da Libertadores (na época, eram dois triangulares. Gaúchos e platenses tinham ainda o América de Cali no grupo). No Luis Jorge Hirschi lotado, os gremistas dominaram o primeiro tempo e fizeram 3 x 0 com Renato Gaúcho, Osvaldo e César.
Com quatro jogadores expulsos e no desespero para se manter na disputa, o Estudiantes – que contava com Trobbiani, Craviotto, Russo e Herrera, além do técnico Carlos Bilardo – buscou na garra do time tricampeão continental na década de 1960 as forças para reagir. O duelo terminou em um histórico 3 x 3, que ajudou a consolidar a mística dessa equipe, considerada por muitos pincharratas como a melhor da história do clube.
Eram outros jogadores, mas a alma platense era a mesma. Aos nove minutos, José Calderón diminuiu a vantagem rimense e aqueceu os 25 mil torcedores que venceram os cerca de 45 km que separam La Plata a Quilmes para apoiar sua equipe. Aos 20, Calderón tabelou com Sosa e, com um grande arremate, fez seu segundo na partida. E 2006 começou a parecer 1983.
Diante da iminente reação argentina, o Sporting Cristal entrou em desespero, se tornando presa mais fácil para os pinchas. Aos 34, Cardozo cruzou e Pavone empatou. O histórico 3 x 3 contra o Grêmio já se repetia. Até que, no último minuto, em outro cruzamento de Cardozo, Lugüercio virou.
O Estudiantes de 1983 era superior a esse. O Grêmio – que conquistaria aquela Libertadores e, depois, o Mundial – também era um adversário mais qualificado que o Sporting Cristal. E, dessa vez, os pinchas não estavam com quatro jogadores a menos. Mas isso tudo não faz diferença. O que importa aos torcedores platenses é que o espírito copeiro de Bilardo, Zubeldía, Pachamé e Trobbiani continua vivo no clube. E é disso que se trata a Libertadores.
FICHA TÉCNICA
Estudiantes 4 x 3 Sporting Cristal
Primeira fase da Copa Libertadores da América 2006
Data: 21 de fevereiro de 2006
Local: estádio Centenario, Quilmes-ARG
Público: cerca de 25 mil
Árbitro: Roberto Silvera (Uruguai)
Estudiantes: Herrera; Carlos Araujo (Sosa), Núñez, Cáceres e Alayes; Esmerado, Carrusca (Lugüercio), Cardozo e Galván (Cominges); Pavone e Calderón
Sporting Cristal: Delgado; Norberto Araujo, Prado Rodriguez e Vilchez; Soto (Soria), Quinteros, Torres e Zegarra; Marczuk e Leal (Vassallo)
Gols: Soto (17/1º), Prado (32/1º), Soto (38/1º), Calderón (9 e 20/2º), Pavone (34/2º) e Lugüercio (44/2º)
Cartões amarelos: Carlos Araujo, Núñez, Galván, Delgado, Zegarra, Prado, Torres e Quinteros
Ubiratan Leal
Imagem: Olé