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18/10/05

Histórias

O Relatório Taylor

Depois de ver a Vila Belmiro invadida no jogo contra o Corinthians e ameaçada de interdição, a diretoria do Santos anunciou que pretende aumentar o alambrado do estádio. Enquanto isso, imprensa, torcedores e outros agentes do meio do futebol discutem medidas para conter a violência, como impedir a entrada de simpatizantes do time visitante ou realizar jogos de alto risco com portões fechados. Há até os que querem – mesmo que inconscientemente – tirar o foco da discussão e culpar o STJD e Luiz Zveiter pela morte de três torcedores em dois dias. E ninguém pára para pensar.

Um grande problema do Brasil, em todos os aspectos, é menosprezar a importância da palavra “projeto”. E que o termo não seja tomado pelo sentido “luxemburguiano”, quando vem acompanhado por várias frases-feitas de auto-ajuda. Projetar é estudar profundamente o problema a ser atacado, imaginar as diversas soluções possíveis, identificar as virtudes e defeitos de cada uma, estudar a implementação passo a passo, sabendo que nada é resolvido por decreto, e, a partir daí, iniciar realmente um processo de evolução. A falta dessa mentalidade por ser vista desde as políticas econômicas brasileiras à maneira como se tem debatido o “sim” ou o “não” no referendo do desarmamento.

Por exemplo, jogar as razões para corintianos e palmeirenses trocarem tiros na estação Tatuapé do metrô, para são-paulinos arrebentarem a pauladas a cabeça de um ponte-pretano e para flamenguistas e vascaínos marcarem hora de brigarem pelo Orkut sobre o STJD é ridículo. Por mais que a indignação pela decisão possa acirrar ânimos, nada justifica agredir alguém a ponto de matá-lo. Se alguém faz isso, é porque tem conceitos éticos, sociais e morais extremamente distorcidos e uma decisão judicial nada tem a ver com isso.

Na verdade, a anulação dos jogos serve, no máximo, de desculpa para sair praticando violência. E não vale nem dizer que, se o Ponte Preta 1x0 São Paulo não tivesse sido anulado, não haveria o segundo jogo e não haveria a morte de um torcedor. Porque, se um grupo esteve disposto a matar por causa de uma gozação, o faria em outro jogo.

As ações precisam ser integradas, envolvendo, inclusive, o governo. No momento em que grupos vagam pela cidade com bombas caseiras e armas, isso se torna questão de segurança pública. Ou seja, é questão de Estado. Até porque a origem de tudo isso é a agressividade que tem girado em torno do futebol, desde a violência das torcidas até tapas nada delicados na nuca das pessoas para falar “Pedala, fulano!”, passando pela forma pouco esportiva com que os defensores param os atacantes mais habilidosos. Muitas coisas no mundo do futebol brasileiro, mesmo que inocentes, envolvem medidas violentas ou agressivas. É algo enraizado e que se espalhou pela sociedade. Achar que soluções pontuais mudarão isso é ingenuidade ou falta de vontade de mudar, pois apenas ações conjuntas e que envolvam toda a sociedade podem ter efeitos efetivos.

Depois de todo esse preâmbulo, finalmente o texto chega em seu ponto principal: o Brasil precisa imediatamente iniciar a elaboração de uma versão tupiniquim do Relatório Taylor, trabalho que diminuiu drasticamente a violência de torcidas na Inglaterra. E a vantagem do Brasil é que não precisamos esperar tragédias da mesma magnitude das inglesas para agir. Até porque as bases legais para as medidas já estão no Estatuto do Torcedor.

Em 15 de abril de 1989, Nottingham Forest e Liverpool fariam uma das semifinais da FA Cup no estádio Hillsborough, em Sheffield. Pouco antes do jogo, milhares de torcedores do Liverpool sem ingresso se aglomeraram em uma das entradas do estádio, pressionando para entrar. A polícia tentou evitar um arrombamento e abriu o portão, deixando a multidão entrar sem o menor controle.

O problema é que o estádio já estava lotado. Os torcedores sem ingresso forçaram a entrada e pressionaram quem já estava nas arquibancadas. As pessoas eram esmagadas contra o alambrado enquanto pediam para a polícia permitir a invasão do campo, única saída para evitar o pior. Apenas quando os comandantes da operação de segurança permitiram a abertura dos portões do alambrado é que se pôde ter dimensão da tragédia. Morreram esmagados 95 torcedores do Liverpool, com mais de 200 feridos.

A culpa claramente foi da polícia, mas, por trás, havia uma série de conceitos preconceituosos e equivocados a respeito do comportamento dos torcedores. Como há no Brasil de hoje (ou alguém acredita que não há vários jovens de classe média nas torcidas organizadas?).

Na primeira metade da década de 1980, houve uma explosão de tragédias envolvendo torcedores. Apenas em 1985, três tragédias, sendo duas no mesmo dia. Em Bradford, 56 torcedores morreram após um incêndio nas arquibancadas de madeira durante o jogo contra o Lincoln. Enquanto isso, em Birmingham, um torcedor faleceu ao cair de um muro após uma confusão entre torcedores do Birmingham City e do Leeds United. Para terminar a temporada trágica, torcedores do Liverpool provocaram a morte de 39 simpatizantes da Juventus antes da final da Copa dos Campeões no estádio de Heysel, em Bruxelas (aliás, o juventinos morreram em sua maioria esmagados contra o alambrado, como em Hillsborough).

Todos os clubes ingleses foram punidos por cinco anos das competições européias. O Liverpool foi exceção: recebeu o dobro de pena. Em tese, tal punição até violou as regras de liberdade comercial da Comunidade Econômica Européia, mas nem os ingleses reclamaram. Eles tinham consciência de que, mais importante do que brigar na Justiça por ninharia era resolver o grande problema da violência no futebol.

O governo designou o deputado Justice Popplewell para realizar um estudo a respeito do comportamento dos torcedores e propor soluções para reduzir a violência. O problema é que o ponto de partida era uma visão estereotipada dos hooligans e o Relatório Popplewell foi elaborado de maneira superficial. O que deu uma falsa sensação de segurança.

As principais propostas eram a proibição do fumo em arquibancadas combustíveis, instalar sistema de CFTV (circuito fechado de TV) nos estádios e manutenção dos alambrados, mas com aumento no número de portões de emergência. Além disso, o estudo procurou retratar o hooligan como um torcedor bêbado e de violência incontrolável, tanto que propôs a introdução de um sistema de cadastro de torcedores, que carregariam carteiras de identificação.

De acordo com o Relatório Popplewell, Hillsborough era um dos estádios mais seguros da Inglaterra. Não havia comércio de bebidas alcoólicas e o CFTV funcionava perfeitamente. Porém, o medo de que uma horda de hooligans invadisse o campo bêbada e agredisse os jogadores foi tão grande que os policiais demoraram para proteger quem era esmagado. E, entre os envolvidos, invasores do estádio e vítimas, a maioria era formada por famílias comuns, sem ninguém alcoolizado.

Um novo estudo foi encomendado após o desastre de Sheffield. O lorde Peter Taylor liderou a equipe que teve como ponto de partida “humanizar o ambiente hostil do futebol”, já imaginando que parte do comportamento violento era conseqüência direta da falta de respeito que era dispensada ao torcedor médio. As primeiras sugestões do trabalho foram que todos os estádios das duas principais divisões da Inglaterra e da principal da Escócia tivessem assentos numerados em todos seus setores em 1994. Quem não obedecesse teria a casa interditada por 4 anos. Os alambrados foram abolidos na idéia de que é melhor um torcedor invadir o gramado do que dezenas morrerem esmagados em um tumulto.

No total, foram 76 recomendações, quase todas aprovadas pelo Parlamento britânico. Por exemplo, o Relatório Taylor previu uma maior abrangência das operações policiais para a segurança em dias de jogos, uma maior comunicação entre policiais e os serviços de emergência e a criação de artigos específicos na lei, de forma que crimes e contravenções de torcedores fossem tipificados. O cadastro de torcedores foi rejeitado pela dificuldade de viabilização.

Para assegurar que as mudanças fossem executadas, o estudo sugeriu que o governo repassasse ao Football Trust ₤ 100 milhões para a melhoria na infra-estrutura dos estádios. A verba seria retirada dos impostos cobrados sobre apostas e loterias no Reino Unido. O Football Trust foi um fundo criado em 1979 promover o desenvolvimento do futebol no Reino Unido. Foi criado pelas casas de apostas e sempre teve sua atuação voltada na melhoria dos estádios e no combate ao hooliganism.

A partir do Relatório Taylor, as autoridades inglesas tiveram um documento no qual basear suas ações. Um estudo que teve algumas falhas e, por isso, recebeu críticas. Mas previu ações conjuntas, que envolvessem vários agentes envolvidos com o futebol. Claro que a violência não acabou no futebol inglês. Mas diminuiu a níveis aceitáveis. Agora, é a vez de o Brasil tentar algo parecido. Com medidas específicas para a realidade brasileira, mas sem confundir paliativos com soluções reais.

Ubiratan Leal

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