No próximo sábado, o Tottenham receberá o Arsenal no estádio White Hart Lane e tentará encerrar o jejum de seis anos sem vitória no clássico do norte de Londres. Como tem sido comum nas últimas décadas, os gunners são favoritos. Porém, as perspectivas são cada vez melhores para os spurs, que dividem a vice-liderança com Charlton e Wigan e estão em gradual processo de renascimento, mostrando que o norte da capital inglesa não é necessariamente alvirrubro. O que ficou provado no último domingo, quando empataram com o Manchester United em Old Trafford.
Por mais que o Chelsea tenha crescido com os rublos de Roman Abramovich e tenha hoje um dos melhores times do mundo, o segundo grande clube londrino é o Tottenham Hotspur. O clube tem até menos títulos ingleses que o blues (1x2), mas compensam com grande sucesso em FA Cups (Copas da Inglaterra, simbolicamente mais importantes que os Campeonatos Ingleses) e uma história mais rica. E também são vistos por carinho por tradicionalmente jogarem um futebol mais vistoso que a média britânica.
Os spurs até hoje são lembrados pelo time que tinham nos anos 60 do século passado, o primeiro a conquistar a Copa e o Campeonato Inglês no mesmo ano (1961) no século XX. Até hoje, o time formado por Bill Brown; Peter Baker, Ron Henry; Danny Blanchflower, Maurice Norman, Dave MacKay; Terry Dyson, John White, Bobby Smith, Les Allen e Cliff Jones é considerado um dos melhores da história do futebol inglês. Além do double em 1961, essa base ficou com a FA Cup em 1962 e 67.
E o Tottenham ainda teve a sorte de esse ser justamente o período de maior glória do futebol inglês, com o título mundial do English Team de 1966. No imaginário do torcedor britânico, os spurs podem ser comparados com o Botafogo ou o Santos, que também se destacaram no momento histórico mais brilhante de seu país.
Como os alvinegros brasileiros, o Tottenham ainda sofre com a sombra de suas equipes mais gloriosas. Desde que voltaram à Primeira Divisão, em 1978, o máximo que o time conseguiu foram três terceiros lugares. O mais comum é o time procurar algum lugar no meio da tabela e lá se instalar, sem ao menos se aproximar das vagas européias.
Essa tendência se reverteu um pouco nas últimas temporadas. A diretoria do clube passou a trabalhar com planos de longo prazo, pensando em uma maneira de recolocar os spurs em igualdade de forças com o vizinho Arsenal e, mais recentemente, com o Chelsea, novo-rico do sul de Londres.
Aliás, o Tottenham foi a primeira escolha de Roman Abramovich quando decidiu investir no futebol inglês. A preferência do milionário russo não era injustificada. O clube do norte londrino é mais popular e ainda teria a vantagem de, caso voltasse aos títulos, dar ao empresário a imagem de responsável por reerguer um grande. Porém, a direção dos spurs vetou a proposta de Abamovich, que rumou à Stamford Bridge.
O fato de não depender de um mecenas só mostra o quanto o Tottenham realmente cresce aos poucos, mas de maneira consistente. O time não foi montado em um mês, mas sim, com reforços que chegaram à medida que se percebeu que eram necessários. O início do processo se deu em 2004, logo após terminar na 14ª posição, desempenho pífio para um time que poderia fazer algo muito melhor.
O clube iniciou a temporada 2004-05 com ambições. Manteve os atacantes Robbie Keane, Jermain Defoe e Kanoute, o zagueiro Ledley King, o meia Redkanpp e o goleiro Paul Robinson. Além disso, trouxe o técnico da seleção francesa, Jacques Santini, e mais 15 jogadores.
O início foi muito ruim, com Santini encontrando dificuldades para se adaptar ao sistema do futebol inglês e sem encontrar a melhor formação. Acabou se demitindo no meio da temporada. Seu substituto foi o holandês Martin Jol, ex-técnico do RKC Waalwijk e assistente do francês desde o início daquela temporada. O time ainda contou com a chegada do egípcio Mido Hossam em janeiro. O novo treinador até deu algum rumo aos spurs, que chegaram até a pensar em uma vaga na Liga dos Campeões, mas acabaram na nona posição.
Para a atual temporada, não houve nenhuma revolução. Estava claro que o time do Tottenham era bom o suficiente para brigar por um lugar em competições européias (afinal, se o Everton conseguiu...). O que exigiu apenas contratações pontuais, como o volante Davids, encostado na Internazionale, mas com muito futebol para apresentar ainda. Além do holandês, os principais reforços foram o meia Jenas, ex-Newcastle, e o lateral-direito canadense Stalteri, ex-Werder Bremen. No mais, foi dar tempo a Jol montar o time com calma, usando o que já tinha à disposição.
A equipe não é brilhante, mas tem o goleiro titular da seleção inglesa (Robinson), um zagueiro útil dentro dos padrões locais (King), um meio-campo sólido devido à dupla Jenas-Davids e boa variedade de opções no ataque, como Defoe, Mido e Keane. Se esse Tottenham conseguir manter o ritmo, pode tirar proveito do processo de renovação por que passam Arsenal e Manchester United e da provável sobrecarga física do Liverpool para brigar por um lugar na Liga dos Campeões. Título? Bem, vamos com calma. Esse já está com o Chelsea nessa temporada.
Ubiratan Leal