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31/10/05

O mundo não é uma bola...

Go East

O empate em 0x0 entre Ural Sverdlovsk e Luch-Energiya pela 40ª rodada da Segunda Divisão russa era o típico resultado que chamaria a atenção apenas dos torcedores adeptos do lado alternativo do futebol. Porém, foi a confirmação de um fato que ainda pode ter repercussão grande no futebol russo. Esse pontinho fora de casa oficializou a volta à elite do Luch-Energiya, clube mais importante de Vladivostok, cidade tão distante da Europa (inclusive de Moscou) que exigirá viagens inéditas para quem disputa uma liga nacional. E, ao contrário do que ocorreu em 1993, as perspectivas do time são melhores dessa vez.

Não se pode menosprezar a distância de Vladivostok para qualquer outra sede de clube da Premier Liga russa. Apesar de ser o maior país do mundo (e uma das maiores nações em extensão territorial da história da humanidade, atrás apenas da União Soviética e do Império Mongol), a Rússia tem uma concentração relativamente grande de seu futebol. Todos os times da elite têm sede na parte européia do país, a oeste dos montes Urais.

Por isso, para times de Moscou, São Petersburgo, Rostov na Donu, Samara e Volgogrado – e mesmo de Vladikavkaz e Grozni, já no Cáucaso – viajar de uma cidade para a outra durante o Campeonato Russo nunca foi um grande sacrifício. É mais do que a média européia, mas pouco se comparados com Brasil ou Estados Unidos. Até porque, durante o Campeonato Soviético, era necessário viajar até Alma-Ata (atual Almaty), no Cazaquistão e Tashkent, no Uzbequistão.

Ainda assim, ir a Vladivostok é algo sem precedentes. O nome da cidade já dá alguns sinais de quão longínqua está a casa do Luch-Energiye: em russo, “vladivostok” significa “controlando o Leste”. E, quando se fala em Leste, não é Leste Europeu, é Extremo Oriente asiático. Tanto que a cidade pertenceu à China até 1860.

A 43º08’ N e 131º54’ L, a cidade de 600 mil habitantes é banhada pelas águas do oceano Pacífico. Quem sair de Moscou terá de viajar 9,3 mil km até a capital do Estado de Primorsky Krai, distância equivalente à de Brasília a Berlim (9,58 mil km). Para os jogadores do Luch, certamente seria mais fácil integrar algum campeonato no oriente. Afinal, Seul, na Coréia do Sul, está a apenas 750 km e Tóquio, a 1,05 mil km. Aliás, até ir à Califórnia seria menos penoso. Vladivostok está tão a leste que se aproxima do extremo oeste do globo. San Francisco, nos Estados Unidos, é mais próxima do que a capital russa: 8,4 mil km.

Mas até há um certo simbolismo na chegada da elite do futebol russo a Vladivostok. A cidade tem importância histórica e geográfica tão grande que minou a possibilidade de clubes da região de participarem do Campeonato Soviético e crescerem. Incorporada ao Império Russo em 1860, a cidade teve papel fundamental na guerra contra o Japão e na Segunda Guerra Mundial devido à sua localização. Vladivostok merecia tantos cuidados que estrangeiros foram proibidos de visitá-la até 1992. E mesmo os soviéticos tinham de pedir permissão para fazê-lo. E até hoje, a capital de Primorsky Krai dá abrigo à Frota do Pacífico da marinha russa.

Por causa desse isolamento, Vladivostok nunca teve tanta importância futebolística quando política. O custo – financeiro e físico – de se deslocar pela União Soviética sempre dificultou um grande desempenho do Luch, que sempre militou nas divisões regionais do futebol soviético. A única experiência do futebol de Vladivostok na Primeira Divisão foi em 1993, quando o clube jogou a segunda temporada do Campeonato Russo pós-União Soviética. Porém o time era fraco e foi rebaixado rapidamente. Em 1997, a decadência se completou com a queda para a Terceira Divisão.

A trajetória do Luch mudou em 2002, com a chegada do empresário Victor Myasnik, dono da Fenec (empresa energética do extremo oriente russo). O clube mudou de nome (de Luch para Luch-Energiya) e os investimentos cresceram. Em dois anos, o clube já estava na Segunda Divisão, com planos para integrar o grupo de grandes clubes da Rússia em pouco tempo. Tanto que foram contratados jogadores estrangeiros como os camaroneses Simon Atangana e George Khamel.

Em 2004, a equipe começou bem, mostrando-se capaz de lutar pelo acesso. Porém, o misterioso assassinato do diretor-executivo Victor Skripal em sua casa desestabilizou o clube, que perdeu rendimento em campo e terminou em uma posição intermediária. Mas, nessa temporada, o time conseguiu manter o ritmo durante todo campeonato, com 26 vitórias, 10 empates e apenas 4 derrotas em 40 jogos. O acesso foi garantido com duas rodadas de antecipação e tem até um brasileiro como protagonista, o meia Viller de Souza Oliveira.

A diferença desse Luch-Energiya para o que esteve na elite russa em 1993 é a ambição. Dessa vez, a perspectiva não é de uma passagem rápida que provocaria poucos incômodos aos times da parte européia do país. Myasnik já anunciou que visa colocar o time em alguma copa européia. O empresário disse que o clube terá um orçamento polpudo para contratações, além de um estádio novo para substituir o Dínamo, utilizado desde a fundação do clube em 1958 (o Luch se chamou Dínamo Vladivostok apenas em seu primeiro ano de vida, mas o estádio manteve o nome).

Se essa expectativa se confirmar, os desconfortos causados por esse time oriental seriam grandes no futebol europeu. Por exemplo, de Vladivostok até Lisboa são cerca de 15 mil km e 11 horas de fuso (o equivalente a diferença entre Brasília e a Tailândia). Perto disso, ir até o Cazaquistão (país da Ásia Central recém-incorporado à Uefa) pode parecer fácil. Mas não há o que os clubes da Europa possam fazer, a não ser torcer para que o Luch-Energiya não mantenha esse crescimento.

Ubiratan Leal

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