Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha, Holanda, França, Alemanha, Bélgica e Rússia. A capital de todos esses países já viu, ao menos uma vez, um time local conquistar uma copa européia. Quer dizer, todos menos, a Alemanha. É estranho pensar que uma cidade grande e rica como Berlim tenha tanta dificuldade de se estabelecer futebolisticamente. Mas, por mais que hoje seja o 15º aniversário da reunificação alemã, isso ainda é conseqüência da divisão que a cidade viveu por 45 anos.
Nada mais natural que o processo de reunificação demorasse a se consolidar em Berlim. A capital alemã viveu como nenhuma outra cidade do mundo os grandes acontecimentos geopolíticos do século XX. Foi de Berlim que a Alemanha decidiu se unir a Áustria-Hungria e Itália para deflagrar a Primeira Guerra Mundial. Foi em Berlim que o governo alemão sentiu a humilhação imposta pela Tríplice Entente no Tratado de Versalhes, iniciando o processo de nacionalismo que culminaria com a ascensão do nazismo ao poder. Depois de ser o epicentro da Segunda Guerra Mundial, Berlim serviu de metáfora da Guerra Fria com sua divisão em duas e um muro que dava um símbolo à rivalidade entre capitalistas e comunistas. Por fim, o fim das Alemanhas Oriental e Ocidental deixou claro ao mundo de que os dois grandes blocos sócio-econômicos se uniam. Os rastros do período comunista resistem até hoje na cidade. Com o futebol, não haveria de ser diferente.
Por meio de estudantes e homens de negócios ingleses, Berlim foi uma das portas de entrada do futebol na Alemanha na década de 1870. Porém, o esporte foi visto como estrangeirismo pelos nacionalistas e chegou a ser proibido no exército e nas escolas que seguiam a tradição prussiana do turnen, tipo de ginástica comum na Alemanha da época. Com isso, o futebol teve dificuldade de se estabelecer como modalidade mais popular no país.
Como maior cidade do país, Berlim conseguiu contornar esses obstáculos com facilidade e logo se tornou um dos principais centros do futebol alemão. Tanto que, nas duas primeiras décadas do século XX, o Union 92 e o Viktoria 89 conquistaram títulos e rivalizaram com Leipzig e Karlsruhe FV pela hegemonia do futebol alemão. Porém, ambos clubes não conseguiram ganhar o apoio da classe operária, que preferiam os pequenos Hertha 92 e Berliner 99.
Apenas em 1923 Berlim teve um clube realmente forte e popular, capaz de disputar o título com Nürnberg e Hamburg, principais forças da época. Era o Hertha Berlin, resultado da fusão do Hertha 92 com o Berliner 99. O novo clube logo conseguiu uma seqüência de seis finais consecutivas, com dois títulos. O momento positivo do futebol berlinense foi interrompido pela industrialização crescente da Alemanha na década de 1930. Esse processo levou a um grande desenvolvimento do vale do rio Ruhr e dos clubes de origem operárias nessa região, como o Schalke 04. Durante todo esse período, o futebol alemão ainda não atingira o profissionalismo, até porque os nazistas também apreciavam bastante as formas mais “arianas” de atividade atlética.
A divisão da Alemanha em Oriental e Ocidental foi crucial para a decadência do futebol na capital do país. A cidade foi dividida ao meio. O Hertha ficou do lado ocidental, como o estádio utilizado nos Jogos Olímpicos de 1936. Porém, metade de sua torcida estava em Berlim Oriental. Até 1971, o Hertha jogava no estádio Gesundbrunnen, ao lado d fronteira. Os torcedores que estavam do lado comunista se amontoavam ao lado do Muro de Berlim simplesmente para ouvir os gritos e cantos que vinham do estádio para saber se o time estava vencendo.
A perda de metade de seus simpatizantes não foi o único problema do maior clube de Berlim. Como Berlim Ocidental era uma ilha capitalista no meio de um país comunista, manter-se na cidade era caro. O custo de vida era alto, pois os produtos vinham pelo ar da Alemanha Ocidental. Com isso, a manutenção de um clube era mais dispendiosa, tornando o Hertha pouco competitivo financeiramente – ainda mais depois da implantação do profissionalismo – diante de concorrentes de Munique, Colônia, Dortmund e Hamburgo. Inevitavelmente, o Hertha se apequenou.
Por essas mesmas razões, clubes menores de Berlim Ocidental tinham ainda menos condições de crescer no cenário da Alemanha capitalista. Blau-Weiss 90, Tasmania e Tennis Borussia tiveram passagens fugazes pela Bundesliga, com campanhas pouco memoráveis. O Tasmania é dono, até hoje, da pior campanha da história da liga alemã, com oito pontos em 36 jogos em 1965-66.
Enquanto isso, o cenário era falsamente melhor do outro lado do muro. Por ser capital da Alemanha comunista, Berlim Oriental era sede das principais instituições do governo. E, como em outros países comunistas, cada órgão mantinha um clube de futebol. Assim, o Vorwärts, clube do exército, se mudou de Leipzig para Berlim. Chegou dominando o futebol alemão-oriental, mas perdeu a briga política com a Stasi (polícia secreta), que patrocinava o Dynamo de Berlim, e o Vorwärts foi levado para Frankfurt-am-der-Oder (que não é a Frankfurt do Eintracht).
As diferenças políticas deixou um vácuo no futebol de Berlim Oriental, que foi ofuscado na década de 1970 por equipes do interior como Dynamo Dresden, Carl-Zeiss Jena e Magdeburg. Em 1979, o Dynamo de Berlim finalmente tomou as rédeas do futebol da Alemanha Oriental, iniciando uma incrível série de nove títulos nacionais seguidos.
Mas tudo isso devia ser relativizado. O futebol estava longe de ser prioridade no programa esportivo do governo alemão-oriental, que preferia natação, atletismo e outras modalidades com farta distribuição de medalhas em Jogos Olímpicos. Além disso, havia uma clara manipulação dos resultados de acordo com as preferências políticas das instituições que bancavam cada time (explicação do eneacampeonato do Dynamo de Berlim). Isso criava uma rejeição dos berlinenses-orientais com os grandes clubes da cidade. A maioria estava ainda ligada ao Hertha ou torcia para o independente Union Berlim, que, por não ter ligações com o governo, não ganhava títulos.
Com a reunificação, o Hertha reconquistou parte de seus torcedores e logo ganhou espaço como o grande clube de Berlim. Atrai patrocinadores e bons públicos ao estádio Olímpico, mas sofre com a falta de camisa e penetração entre os torcedores da região, que cresceram acompanhando a Verbandsliga (Campeonato Alemão-Oriental).
O Union, por ter uma base de torcedores razoáveis no antigo lado oriental, também teve relativo sucesso, chegando a uma final da Copa da Alemanha em 2000-01. Os demais clubes soçobraram. O Dynamo de Berlim, para não ficar com a pecha de time do governo comunista, mudou de nome para Berliner. Depois, diante da decadência que enfrentava, decidiu retomar o nome dos períodos de glória. Outro fenômeno na cidade, conseqüência direta da abertura política e do desenvolvimento econômico (que traz imigrantes) é o surgimento de clubes de colônias, como Türkiyemspor (cujo estádio Katzbach está exatamente onde passava o Muro de Berlim), Türkspor e Galatasaray Spandau, dos turcos, Croatia Berlin, dos croatas, Makkabi Berlin, dos judeus, Hellas Berlin, dos gregos, e Italia Berlino, dos italianos.
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Dos clubes de Berlim, o Hertha está na Bundesliga. Na Oberliga Nordost-Nord (Quarta Divisão) está Union Berlin, Tennis Borussia, Dynamo, Berliner, Türkiyemspor e Preussen. A Verbandsliga Berlin (Quinta Divisão) é um grupo formado apenas por clubes semi-profissionais da região de Berlim. O mais importante nesse nível é o Tasmânia. Na Landesliga Berlin 1 (Sexta) estão Blau-Weiss, Makkabi Berlin e Croatia Berlin. O Italia Berlino está na Bezirksliga 2 (Oitava Divisão).
Ubiratan Leal