Raras vezes se viu um exemplo tão claro de incompetência no gerenciamento de crise. A CBF e o STJD conseguiram fazer com que três pessoas (pelo menos em tese, porque pode haver mais, né?) conseguissem destruir a animação em torno do mais emocionante Campeonato Brasileiro em muitos anos. Tudo por não saber como identificar o real problema para, a partir daí, tentar resolvê-lo.
No cenário atual, muitos têm a sensação de que o erro foi anular os 11 jogos apitados por Edílson Pereira de Carvalho. Realmente, essa decisão criou revolta por parte de torcedores que se sentiram prejudicados. Mas é ilusão achar que uma decisão diferente por parte de Luiz Zveiter mudaria isso. Se alguns jogos apenas fossem anulados, ou se nenhum fosse, os torcedores de outros times estariam no lugar de santistas e colorados liderando a fila de descontentes.
Isso ocorre porque ninguém parou para fazer algo básico e fundamental em um momento de crise institucional: pensar e antecipar os problemas antes de buscar a solução. O desafio problema não é, nem nunca foi, refazer a justiça dos placares dos jogos “contaminados” por Edílson Pereira. É manter a credibilidade do campeonato e, a partir daí, do futebol brasileiro. No entanto, cada clube preferiu buscar seus interesses individuais, se preocupando mais com um ou outro ponto do que com a continuação do torneio.
Claro que não se pode esperar atitude diferente de presidentes de clubes, que têm de dar satisfação a torcedores e conselheiros. A iniciativa tinha de partir da direção da CBF ou do STJD. Mais do que se enfurnar em cada letra do regulamento de competições da entidade, buscando interpretações diversas para tirar alguma conclusão, era necessário negociar. Era a única saída, pois cada decisão possível desagradaria alguém.
A primeira medida a ser tomada era simples e praticamente definitiva. Convocar todos os presidentes de clubes da Primeira Divisão para uma reunião, apresentar todos os fatos (regulamento e informações levantadas pelas investigações do Ministério Público) e só encerrar o encontro após uma decisão consensual assinada por todos. Independentemente de qual fosse. Assim, já poderiam ser previstas compensações financeiras para os prejudicados e condições para que todos aceitassem, sempre com a sensação de que todo mundo foi ouvido e pôde argumentar.
Se isso acontecesse, dificilmente se ouviriam tantos dirigentes bradando contra a decisão do SJTD e ameaçando “melar” o campeonato. Claro, os torcedores se inflamaram e acabaram canalizando sua insatisfação de maneira mais enérgica e violenta. Claro, os dirigentes têm culpa nisso, mas é conseqüência da falta de capacidade gerencial que vem do mais alto escalão do futebol brasileiro. Algo agravado pela demissão de Armando Marques, que permitiu que se visse a quantidade de coisas suspeitas que rondam a comissão de arbitragem.
O Balípodo continua considerando a anulação dos 11 jogos a medida mais adequada. Porém, a completa falta de legitimidade do STJD ao tomar tal decisão conseguiu aumentar o problema. Com as instituições do futebol brasileiro tão fracas, seria um bom momento para se repensar a estrutura do esporte no Brasil. De início, a reformulação da Justiça esportiva e da comissão de arbitragem. Mas que processo não parasse por aí.
Ubiratan Leal