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24/10/05

Variedades

Cadê os meias puros?

É impressionante como a percepção de alguns conceitos táticos muda e engessa o pensamento de torcedores e analistas. Isso reduz drasticamente a visão das variações táticas das equipes e cria algumas distorções. Agora, a moda é achar que todo meia que sabe marcar é volante. Se ele não souber, é meia-atacante. E todos parecem ter se esquecido do meia puro (o Balípodo nem menciona os “alas” porque, para o brasileiro, isso ainda é lazaronês).

Na verdade, é uma questão de nomenclatura equivocada ou pouco precisa. Os meio-campistas típicos ainda existem. Eles se posicionam na intermediária, ajudando na armação sem ter como função encostar tanto nos atacantes. Quando seus times não estão com a bola, eles ajudam na marcação, geralmente dando o primeiro combate e raramente recuando para ajudar a compor a linha defensiva. São os casos de Lampard, Ballack, Verón (nos tempos de Lazio), Ricardinho e Danilo (São Paulo).

Como alguns desses jogadores sabem ocupar espaços e roubar bolas, logo são taxados por muitos como “volantes” ou “terceiros volantes”. É um equívoco. Por mais que o meias típicos atuem eventualmente como volantes, por determinação do técnico ou necessidade eventual de um jogo, eles têm características muito diferentes de volantes. Já houve até quem chamasse Beckham de volante. Por mais que ele esteja participando um pouco mais na marcação desde que saiu do Manchester United, não tem a menor característica de volante.

Não é nem para entrar no mérito do cabeça de área truculento e de pouca habilidade. Mas basta ver o posicionamento e a função tática de volantes técnicos como Vieira e Frings (existe jogador bom na Alemanha, pode acreditar) para perceber como eles têm posições muito diferentes dos citados nos parágrafos anteriores.

Um dos motivos da mistura de conceitos é a organização tática dos europeus. O sistema mais comum no momento é o 4-4-2. Porém, no Brasil, o quarteto de meio-campo é composto por dois volantes na marcação e dois meias avançados na armação (o que tem sido chamado de “quadrado” ou 4-2-2-2), três volantes de marcação – no fundo, um dos volantes recua ainda mais para se transformar em terceiro zagueiro disfarçado – e um meia isolado na armação (o 4-3-1-2 que vira 3-5-2 retranqueiro) ou um volante na cabeça de área, dois alas e um meia-atacante na armação (4-1-2-1-2).

Em boa parte dos times europeus, o quarteto de meio campo atua em linha. Como os laterais não avançam, não é preciso ter volantes plantados na cabeça de área para proteger a defesa. Assim, os meias se movimentam mais e acumulam funções defensivas e ofensivas. Para os brasileiros, que pautam sua visão tática de acordo com os poucos que adotam esse discurso tático isso soa muito estranho. Ainda mais depois que Carlos Alberto Parreira (técnico e estudioso de respeito, mas muito ortodoxo e pouco ousado em seus conceitos) insiste em limitar sua análise dos meio-campistas a “marcação” e “armação” e Zagallo enfatiza a idéia do “1”, o único meia responsável pela organização de ataque. Os que não reconhecem as nuances, acabam acreditando que o meia necessariamente tem a função de um Émerson ou a de um Kaká. Sem meio-termos.

A confusão até seria justificável no caso de jogadores como Pirlo, Essien ou Gerrard, que atuam em uma posição intermediária. Trabalham como meias, mas se posicionam um pouco mais atrás em campo e participam com mais afinco na marcação e, por isso, até podem ser chamados de “segundos volantes”. Mas essa lógica não se aplica aos meias típicos. E isso vale para Juninho Pernambucano e Zé Roberto, que jogam como meias em seus clubes, mas, na falta de encaixe na visão bipolar que se tem dos meio-campistas no Brasil, são taxados de volantes. E eles próprios preferem isso, por saberem que é a melhor maneira de os torcedores entenderem que eles também têm funções defensivas.

Entender a real função dos meias puros não muda muita coisa. Apenas ajuda a eliminar alguns preconceitos como achar que todo time que tem poucos meias avançados é retranqueiro. Também impede que se cometam alguns equívocos de análise. Pense bem: se Gérson (aquele mesmo, o da seleção de 70) jogasse hoje, certamente seria considerado volante.

Ubiratan Leal

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