É possível realizar duas análises sobre a campanha brasileira nas Eliminatórias da Copa. Os otimistas podem dizer que o Brasil se classificou com duas rodadas de antecedência e tem a melhor seleção do mundo (apesar de tudo, isso é verdade hoje). Os pessimistas apontarão para o excessivo número de empates – sete – e para o fato de a equipe ter encerrado sua campanha ao lado da Argentina, time que sabidamente ainda não encontrou sua melhor formação. Na realidade, as duas análises são corretas porque não são excludentes.
O grande mérito de Parreira foi ter traçado um planejamento estratégico (parece papo de gerente de marketing) antes das Eliminatórias e, claro, ter conseguido executá-lo. Assim, ele tomou como ponto de partida a vitoriosa seleção campeão mundial em 2002 e foi mudando aos poucos, ajeitando a seu estilo. Nesse processo, o time ficou sem volume de jogo ou consistência em muitas partidas, perdendo pontos bobos e vencendo algumas partidas com dificuldade exagerada. Isso justifica a pontuação relativamente baixa para uma seleção que tem em mãos uma geração tão brilhante no setor ofensivo (o Brasil não atingiu a média inglesa, ou 66,6% dos pontos, equivalente a vencer todas em casa e empatar todas fora, índice considerado realista e ideal para vencer um torneio de pontos corridos).
Depois de um tempo, Parreira encontrou a melhor formação para a seleção brasileira. Sem grandes solavancos ou convocações revolucionárias ou excessivamente precipitadas. Por isso, além do bom futebol apresentado nas últimas partidas, o Brasil pode dizer que tem uma base, daquelas que se pode decorar ao menos nove nomes do time titular.
Com isso, a seleção deve chegar à Alemanha com maior tempo de preparo. Afinal, as próprias Eliminatórias fizeram parte do processo. Outra vantagem é evitar instabilidades e incertezas que muitas vezes minam o planejamento e o ambiente às vésperas de um Mundial. Essa solidez é um motivo até mais forte de que as boas atuações contra Paraguai, Argentina (na Copa das Confederações) e Chile para considerar o Brasil favorito destacado.
Porém, a própria virtude dá espaço para se ver falhas. A transição gradual ente a seleção de 2002 para a de 2006 é correta e poucos técnicos teriam a experiência de Parreira para fazê-la. Mas o técnico insistiu mais tempo do que o necessário em sua visão tática quase dogmática de jogo baseado em troca de passes paciente até o adversário abrir um buraco na defesa.
Ficava claro desde a primeira partida, contra a Colômbia, que o setor ofensivo seria formado por jogadores de características contrárias a essa tática. Na época, Rivaldo, Alex, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. O treinador ainda tentou dois centroavantes fixos, mas mantinha a idéia de troca de passes insistentes. Apenas depois da sonolenta vitória contra o Peru que o jogo mais rápido e insinuante teve espaço. Justamente o momento em que a seleção finalmente convenceu.
Enquanto se preocupava com o ataque, a seleção não acertou sua defesa até agora. Não foram testadas opções suficientes e os titulares abusam da insegurança. A derrota para a Argentina em Buenos Aires é recente e ainda há risco de o Brasil perder de maneira contundente. Isso pouco mudou durante todas as Eliminatórias.
E é na identificação de seus próprios defeitos que mora as chances de fracasso do Brasil na Alemanha. Em teoria, o time é favorito. Mas achar que não tem problemas ainda é dar margem para os adversários passarem. E isso nunca pode ser ignorado.
Ubiratan Leal