Um amistoso entre Marrocos e Burkina Faso em novembro de 2004 deu um tom mais urgente uma questão que é discutida há tempos, mas que precisava justamente de um fato concreto para ser discutida. Nessa partida, o meia marroquino Abdelmajid Oulmers se contundiu e desfalcou seu clube, o Charleroi, por oito meses. Nesse tempo, os belgas tiveram de arcar com o salário e o tratamento do jogador. Sentindo-se lesada, a diretoria da equipe belga decidiu pedir ressarcimento à Real Federação Belga de Futebol. Foi o suficiente para dar novo ânimo à exigência dos clubes de não terem de se responsabilizar e pagar pelos atletas enquanto esses servirem suas seleções nacionais.
A proposta não é nada nova. O G-14, grupo de 18 (originalmente eram 14 membros) dos clubes mais importantes da Europa, a defende desde que foi criado. Mas faltava um fato concreto como o processo que o Charleroi abriu na Justiça comum contra a federação belga e a ameaça da Fifa de punir o clube. Tanto que o grupo dos grandes clubes, normalmente muito pouco sensível às necessidades dos pequenos, já declarou apoio ao time belga.
O G-14 alega que a decisão de os clubes terem de bancar os jogadores mesmo quando esses servirem as seleções é unilateral e não está de acordo com as leis da União Européia. Joseph Blatter rebate dizendo que os 207 membros da Fifa (já contando os recém-admitidos Timor Leste e Ilhas Comores) não deveriam ser obrigados a seguir uma regra por causa dos 25 integrantes da União Européia.
É uma situação bastante complicada. Se for comprovada a ilegalidade da medida da Fifa perante a lei européia, não seria nada difícil a Justiça comum do continente obrigar as federações a mudarem seus procedimentos em jogos de seleções. Afinal, a União Européia não teve pudor em enfrentar o mundo do futebol no caso Bosman, que acabou com o passe no continente. Até por isso, é provável que os dois lados negociem alguma solução.
Parece uma questão puramente financeira, mas obrigar as federações a pagarem pelo uso dos jogadores nas seleções nacionais pode ter uma influência esportiva enorme. Para as federações de Brasil, Itália, França, Portugal, Argentina ou Estados Unidos, não haveria grande problema. São entidades com receitas compatíveis com a projeção de suas seleções. Bastaria reorganizar o orçamento, procurar diversificar um pouco suas receitas e evitar amistosos sem sentido. Mas tal medida teria um efeito devastador no terceiro mundo do futebol.
Por exemplo, dificilmente as federações de Camarões, Austrália, Nigéria e Costa do Marfim, entre muitos outros países africanos, asiáticos e latino-americanos, teriam condições de bancar suas estrelas que atuam na Europa. Nesses casos, haveria três possibilidades: o atleta abrir mão de parte de seu pagamento para defender sua seleção, o clube, em solidariedade às dificuldades financeiras desses países, não cobrar a conta ou o contrato do jogador conter uma cláusula definindo como proceder no caso de convocação pela seleção.
Mas não pára aí, pois a forma como as federações são administradas também acabam influenciando a discussão. De acordo com os clubes, elas lucram com os jogadores para utilizarem o dinheiro de maneira muitas vezes nebulosa. E têm razão nessa questão.
Fica claro que, se nada for feito, a solução dependerá muito da boa vontade das partes envolvidas ou acabarão na Justiça. A primeira alternativa é frágil e a segunda, perigosa. Não seria difícil aos clubes provarem que estão certos do ponto de vista jurídico. O G-14 não se preocuparia com isso, mas minar as seleções teria um resultado catastrófico no futebol, que deixaria de ter encanto para muitas pessoas em centros menores.
Mais confiável para Fifa e federações nacionais é sentar para conversar com os clubes até chegar a um acordo. Criar mecanismos mais sólidos, definindo quais as responsabilidades de cada parte e eventualmente desenvolvendo uma forma de seguro para reduzir os prejuízos com contusões em jogos de seleções. Sem contar que os clubes poderiam pressionar as federações a deixar mais transparente o destino do dinheiro arrecadado com as seleções. Quem sabe se, assim, a crise é controlada antes de causar danos ao torcedor ou aos jogadores, que são as partes mais interessadas e menos ouvidas nessa história.
Ubiratan Leal
Imagem: HLN