Nesse fim-de-semana, clubes de grande torcida como Sport, Bahia e Vitória entrarão em campo com o único objetivo de não serem rebaixados para a Série C. E o temor dos torcedores desses três clubes, mais os de Ceará, Paulista, CRB, Gama, Anapolina e União Barbarense, é mais do que justificável. Não apenas pelo golpe moral, mas porque ir ao terceiro nível do futebol brasileiro tem conseqüências muito mais sérias do que cair da Série A para a B.
O principal problema é o formato do torneio. Nos últimos anos, a CBF tem dividido as dezenas de participantes em vários grupos de 4 equipes cada, com os dois primeiros passando de fase e entrando em mata-mata até chegar ao quadrangular final. Há alguns anos se fala na possibilidade de mudar o formato, mas nenhuma das propostas parece suficiente para resolver um problema: a Terceira Divisão é um torneio de alto risco e, por isso, qualquer plano de reestruturação pode ruir por acasos que fogem do controle.
De acordo com o calendário 2006 anunciado pela CBF, os Estaduais que não tiverem clubes nas Séries A ou B terminarão em 9 de abril, enquanto que a Série C terá início em 16 de julho e será encerrada em 19 de novembro. Ou seja, depois de abril, os clubes da Terceirona disputam um torneio de seis partidas (apenas três em casa) e correm o risco de, por causa de um mal resultado, ver o fim da temporada.
Financeiramente, é um enorme risco. As grandes equipes – como Bahia, Vitória e Sport – não podem se dar ao luxo de desfazer o time ao final do Estadual para remontá-lo semanas antes da Série C começar. Tecnicamente, seria melhor manter o elenco se preparando da melhor maneira possível, considerando, claro, que os clubes tenham como princípio ter um plano para voltar à Segundona.
Tal medida, entretanto, exige que o clube mantenha os salários durante esse período de inatividade, sem ter a garantia de que haverá algum retorno depois. Nem ao menos a cota pelos direitos de transmissão da Série C pode ser contada. Enquanto isso, algum clube que não tenha muitas pretensões pode montar o elenco sem muito critério às vésperas da competição, mas ter sorte em partidas-chave e obter o acesso ao segundo nível. É exatamente esse o motivo de o 15 de Campo Bom, vice-campeão gaúcho, sempre renunciar à sua vaga na Terceirona.
Por isso, para a Série C, a receita básica é manter um elenco barato para não comprometer as finanças do clube e ter muita convicção a respeito de cada ação para suportar a pressão da torcida, que não aceitará a imobilidade da diretoria e a ausência de reforços de respeito. Mesmo para clubes como Bahia, Vitória, Ceará e Sport, a Série C representa o risco de entrar em um novo mundo, de difícil saída.
Mesmo o Remo pode se considerar nesse risco. Os azulinos passaram com tranqüilidade pela primeira fase e tiveram média de mais de 25 mil torcedores nas partidas realizadas no Mangueirão. Por hora, o clube paraense tem tudo a seu favor na Série C e é um dos favoritos ao título. Porém, tudo isso pode cair em um mata-mata e o esforço se mostrar inócuo. Na primeira temporada no terceiro nível é aceitável. Mas, depois de dois ou três anos, o clube é obrigado a redimensionar suas pretensões e a auto-estima cai a níveis irrisórios.
Com as Séries A e B com apenas 20 integrantes cada, é inevitável que várias forças regionais façam estágios na Terceira Divisão. Aliás, já há várias dessas equipes na Série C, como ABC, América-RN, América-MG, Joinville, Treze, Botafogo-PB, Campinense, Sergipe e Confiança. A algumas dessas se juntou o Criciúma. Por isso, será inevitável que a CBF elabore um plano de reformulação da Série C. Enquanto isso, é recomendável ficar o mais longe possível do torneio. O risco de não voltar de lá não é pequeno.
Ubiratan Leal