A atual 15ª colocação é a pior do São Caetano desde que o clube aportou na Série A do Brasileirão. Quer dizer, após a primeira rodada de 2001, o Azulão perdeu de 0x5 para o Bahia e ficou em último, mas é aberração estatística provocada com base em uma única partida. De qualquer forma, a dificuldade de o clube do ABC sair da crise e a ausência de consternação por parte da mídia e de torcedores mostra como o São Caetano já perdeu seu encanto. O que, de certa maneira, é decorrência de erros próprios.
A queda de desempenho o time azul já era previsível. Por mais que negue, o clube, desde que apareceu entre os grandes do futebol brasileiro, dependia do apoio financeiro e infra-estrutural da prefeitura de São Caetano do Sul. Era o que garantia o bom elenco, os salários em dia, as condições de trabalho e a falta de problemas políticos internos. Como Luís Tortorello (PTB) era prefeito da cidade e presidente de honra da Associação Desportiva São Caetano e Nairo Ferreira de Souza era secretário municipal e presidente efetivo do clube, ninguém ousaria criar conflitos internos. O São Caetano sobrevivia por causa dessa estrutura e da ajuda financeira de Samuel Klein, proprietário das Casas Bahia.
No entanto, a diretoria não se atentou (ou não se importou) ao fato de que o crescimento do Azulão tinha base em uma situação transitória. Era preciso aproveitar o momento para desenvolver um projeto que desse autonomia ao clube. Os três pontos mais importantes seriam a aproximar o clube da comunidade caetanense, adotar um modelo gerencial moderno e organizar as categorias de base para revelar talentos na região. Nada disso foi feito. O São Caetano explorou ao máximo a estrutura que tinha à sua disposição.
O ano passado foi um marco. Era o último do segundo mandato de Tortorello e a corrida por sua sucessão seria difícil. Até falou-se na indicação de Nairo de Souza como candidato da situação, mas o dirigente caetanense não aceitou. Como o clube era usado para projetar uma boa imagem da administração municipal, o São Caetano recebeu um aporte de dinheiro e investiu pesado em jogadores como Euller, Lúcio Flávio, Fabrício Carvalho, Ânderson Lima e Warley. Em teoria, seria time para conquistar o Brasileirão. Ficou com o Paulistão e parou nas quartas-de-final da Libertadores após perder para o Boca Juniors nos pênaltis.
No segundo semestre, as más notícias se acumularam. A pior foi o falecimento de Serginho durante uma partida contra o São Paulo. A notícia de que dirigentes e o médico do clube sabiam do risco que o zagueiro corria sempre que entrava em campo deu uma pecha antipática ao São Caetano. Samuel Klein retirou seu apoio. O mesmo ocorreu com a prefeitura. José Auricchio Júnior, candidato da situação, venceu as eleições, mas, com a morte de Luiz Tortorello no final de 2004, o clube perdeu seu maior entusiasta.
A falta de visão da administração do São Caetano teve reflexos na forma como o clube passou a ser visto no imaginário do torcedor brasileiro. Quando chegou à final da Copa João Havelange, o São Caetano era um clube pequeno composto por jogadores esforçados que não tiveram chances em outras equipes. Não precisava de muito para cair na simpatia de todos, como um exemplo de que era possível montar times competitivos com estrutura enxuta. O vice-campeonato nacional em 2001 e o continental em 2002 reforçaram essa idéia.
Desde então, o São Caetano se mostrou um clube cheio de equívocos como tantos outros no futebol brasileiro. Os técnicos começaram a entrar e sair com constância, derrubando a tese de “projeto de longo prazo”, poucos jogadores foram revelados pelo clube nesse período. Viu-se que a política de montagem de elenco era baseada em contratar jogadores conhecidos. E, como não havia fontes de recursos aparentes, a imagem de “clube de prefeitura” ganhou força.
Para piorar, o São Caetano não cultivou muitos torcedores (com todo o respeito à folclórica Bengala Azul) nem em sua cidade. Mesmo em jogos decisivos, apenas 3 mil pessoas iam ao Anacleto Campanella apoiar o Azulão. Se nem em São Caetano há muita gente que se importa com o clube a ponto de ir ao estádio, não haveria motivo para torcedores de outras equipes desenvolveram alguma simpatia pelo time do ABC. Até porque, ao contrário de América-RJ ou Juventus, o São Caetano tinha uma “mancha” devido à sua relação com a prefeitura.
Hoje, o São Caetano perde força em campo e conta com a compaixão de poucos. Talvez já seja tarde, mas é imediata a necessidade de buscar contato com a população de São Caetano do Sul, de ter mais torcedores para, quem sabe, conseguir reverter o processo de decadência. Tudo para não virar em um novo Bragantino.
Ubiratan Leal