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23/09/05

Histórias

Os dois anos da era Luxemburgo

A vitória do Real Madrid sobre o Athletic de Bilbao por 3x1 deve prolongar a estadia de Vanderlei Luxemburgo no clube. De qualquer maneira, por hora tem sido possível traçar alguns paralelos entre a atual situação do técnico e sua passagem no comando da seleção brasileira. Principalmente na expectativa de mudanças trazida e nem sempre atendida pelo treinador, no excesso de personalismo em vários momentos e na dificuldade pessoal de administrar as pressões do cargo que ele próprio tanto buscou. Quem sabe se ele não aproveita esse 23 de setembro para evitar repetir certos erros?

Luxemburgo chegou na seleção como símbolo de uma nova era. Depois de Parreira e Zagallo, e ainda traumatizado com a derrota para a França na final da Copa de 1998, o Brasil queria Luxemburgo. Era um técnico de discurso moderno, defensor de um futebol ofensivo e adepto de planejamentos detalhados, que evitariam as turbulências que se tornavam comum na seleção. Além disso, um novo comandante teria mais condições de iniciar o necessário processo de renovação, já que alguns dos integrantes da seleção do Mundial da França não estariam em 2002.

No entanto, sua contratação foi turbulenta. Luxemburgo estava no Corinthians e tinha contrato até o final de 1999. O time vinha bem, liderando o Campeonato Brasileiro e com uma equipe que já se mostrava uma das melhores do futebol brasileiro na década. Por isso, o clube (que ainda estava com contrato de co-gestão com o Banco Excel) não abriu mão do técnico, que dividiu as funções até o final de 1998, quando finalmente se desligaria do alvinegro paulistano.

A estréia foi contra a Iugoslávia em 23 de setembro de 1998, há exatos 7 anos. A expectativa sobre a seleção era muito grande e não foi possível esconder o desapontamento com o empate em 1x1. O gol brasileiro foi de Marcelinho Carioca. Contra o Equador, segunda partida com Luxembrugo no comando, a seleção venceu por 5x1 com destaque para Élber e Marcelinho Carioca.

A terceira partida foi a última em 1998, com o técnico acumulando funções em seleção e Corinthians. Sorte dele, pois o acúmulo de cargos já trazia problemas. Ele havia se desentendido com Marcelinho Carioca no Corinthians e, por isso, não o convocou para a seleção. Depois da partida, Luxemburgo afirmou que a base da seleção já estava definida pela comissão técnica, o que não se confirmou nas convocações seguintes, até porque alguns jogadores utilizados faziam parte das experiências com vistas aos Jogos Olímpicos de 2000.

O crédito acabou logo no quarto jogo, em um amistoso político na Coréia do Sul. O time jogou muito mal, não mostrou padrão algum e ainda protagonizou a primeira derrota da seleção para a Coréia do Sul. O gol foi marcado nos descontos por Kim Do-Hoon. A escalação do Brasil foi Rogério Ceni; Cafu, Odvan, César e Serginho (Felipe); Flávio Conceição, Zé Roberto, Juninho Pernambucano (Alessandro) e Rivaldo; Amoroso e Jardel (Fábio Júnior).

A sexta partida foi o primeiro amistoso com a seleção olímpica e a milésima da história da seleção. Contra uma equipe universitária norte-americana, a vitória foi fácil: 7x0. O Brasil jogou com Émerson; Michel (Reginaldo Araújo), Cris, Jean (Álvaro) e Athirson; Marcos Paulo, Felipe (Josué), Adriano Souza (Araújo) e Denílson; Fábio Júnior (Roni) e Warley (Rodrigão).

A sétima partida foi um amistoso para comemorar o centenário do Barcelona. O jogo ficou marcado pelo fato de os dois gols catalães terem saído de falhas de Rogério Ceni, que não assumiu os erros e disse que, excetuando os dois lances, aquela havia sido uma das melhores atuações de um goleiro pela seleção brasileira. Sujou sua imagem e não voltou a ter chances com Luxemburgo.

Na oitava partida, contra a Holanda em Salvador, o Brasil foi vaiado após o empate em 2x2. Foi o jogo que teve a polêmica convocação do lateral-direito cruzeirense Evanílson.

Pouco depois, Luxemburgo teve sua primeira competição, a Copa América do Paraguai, em 1999. E nem a relativa importância do evento afastou as crises. Um dia antes da apresentação, Corinthians e Palmeiras fizeram a final do Campeonato Paulista. Com o título alvinegro praticamente assegurado, Edílson fez embaixadas e provocou uma briga generalizada. Luxemburgo considerou a atitude pouco profissional e cortou o meia-atacante, convocando o jovem Ronaldinho Gaúcho.

Já na concentração em Foz do Iguaçu, Leonardo pediu dispensa por se sentir contrariado com a escolha de Cafu como capitão. A jornalistas, o meia insinuou que o técnico era muito personalista e não admitia que outras figuras ofuscassem seu brilho. Mesmo assim, o Brasil foi campeão com 100% de aproveitamento, batendo Venezuela (7x0), México (2x1), Chile (1x0), Argentina (2x1), México (2x0) e Uruguai (3x0). Na final, o Brasil jogou com Dida; Cafu, João Carlos, Antônio Carlos e Roberto Carlos; Émerson, Flávio Conceição, Zé Roberto e Rivaldo; Amoroso e Ronaldo.

Ainda em julho de 1999, o Brasil já estava em outra competição, a Copa das Confederações. Dessa vez, Luxemburgo não podia contar com alguns de seus principais jogadores e aproveitou para dar oportunidade a possíveis integrantes da seleção olímpica. O Brasil superou Alemanha B (4x0), Estados Unidos (1x0), Nova Zelândia (2x0) e Arábia Saudita (8x2) antes de cair diante do México (3x4) na decisão. A escalação foi Dida; Flávio Conceição, Odvan, João Carlos e Serginho; Émerson, Vampeta, Beto (Roni) e Zé Roberto (Warley); Ronaldinho Gaúcho e Alex.

Em seguida, vieram dois amistosos marcantes. Primeiro, uma derrota para a Argentina em Buenos Aires. O placar de 2x0 (gols de Verón e Crespo) foi econômico diante da apatia da seleção brasileira. Três dias depois, as duas equipes se enfrentaram em Porto Alegre. Comandado por Rivaldo, o Brasil fez uma das melhores partidas nos últimos 10 anos e venceu por 4x2, marcador também tímido diante do domínio brasileiro.

Em novembro, começaram de maneira mais intensiva os preparativos para a disputa do pré-olímpico. Em 14 de novembro, o Brasil Sub-24 bateu a Austrália por 2x0 em Sydney. A seleção alinhou com Sílvio Luiz; Mancini, Fábio Bilica, Álvaro e Dedê (Athirson); Marcos Paulo, Mozart, Alex (Lincoln) e Denílson; Fábio Júnior (Warley) e Ronaldinho Gaúcho (Adriano Souza). Um dia antes, a seleção principal, dirigida por Candinho, empatara com a Espanha em 0x0.

A partir de então, a seleção olímpica foi prioridade. O time não se encontrava e gerava enormes desconfianças. Tanto que empatou com Austrália (2x2 em outro amistoso) e Paraguai (3x3). As vitórias eram contra equipes muito fracas – Trinidad e Tobago e Costa Rica – e não permitiam um parâmetro de comparação.

O início do Pré-Olímpico, em janeiro de 2000, também não foi dos melhores. Mesmo com o apoio da torcida de Londrina, o Brasil empatou na estréia contra a boa equipe chilena. Depois, a seleção venceu Equador e Venezuela sem convencer, mas chegou praticamente classificada para o jogo decisivo contra a Colômbia. Foi aí que a seleção deslanchou. Em uma partida insólita, em que o índice de aproveitamento do ataque foi absurdo, o Brasil fez 9x0.

Depois dessa goleada, que ainda ajudou a classificar o virtualmente eliminado Chile, o Brasil embalou. Goleou a Argentina de Riquelme, Aimar, Cambiasso e Saviola por 4x2. Ainda venceu o Chile por 3x1 e garantiu o título com um empate em 2x2 com o Uruguai. A seleção da decisão foi Fábio Costa; Baiano (Cris), Fábio Bilica, Álvaro e Athirson; Marcos Paulo, Fabiano, Alex e Edu (Warley); Ronaldinho Gaúcho e Lucas (Fábio Júnior).

Com a classificação olímpica assegurada, a seleção principal voltou a campo. Venceu a Tailândia (7x0) em um amistoso bancado pela Nike antes de iniciar a disputa das Eliminatórias da Copa de 2002. A estréia foi contra a Colômbia na altitude de Bogotá. O empate em 0x0 traduziu a falta de produtividade das duas equipes. O Brasil jogou com Dida; Evanílson, Antônio Carlos, Aldair e Roberto Carlos; Émerson, Vampeta, Alex (Ricardinho), Zé Roberto e Ronaldinho Gaúcho; Jardel (Edílson) e Élber.

No jogo seguinte, o Brasil teve muitas dificuldades para bater o Equador de Aguinaga no Morumbi. Mesmo com a vitória por 3x2, a seleção saiu de campo vaiada. Depois, o time empatou com a Inglaterra em Wembley (amistoso) e bateu o Peru em Lima pelas Eliminatórias. Mas não era suficiene. Apesar de os resultados serem aceitáveis, o desempenho do time era fraco e inconsistente. Nada parecido com a seleção insinuante e ofensiva prometida pelo técnico ao assumir o cargo. E nem havia mais a desculpa de estar em início de trabalho, pois já havia tempo para ter uma base formada.

Tinha início o pior momento da passagem de Vanderlei Luxemburgo na seleção. O Brasil teve de contar com ajuda da arbitragem para empatar com o Uruguai no Maracanã (1x1) e perdeu para o Paraguai (1x2). Fora do campo, começavam as investigações das CPIs do Futebol e da CBF-Nike, que desestabilizaram a administração do futebol brasileiro (que já não prima pela organização) e, em determinado momento, voltou seus olhos justamente para as atividades de Luxemburgo.

Acusado de ter participação na transação de jogadores e de convocar atletas de acordo com a conveniência de alguns empresários, o técnico perdeu o controle da situação, algo fatal para quem baseia seu trabalho no planejamento. Vale dizer que ele já estava com dificuldade para fazer a seleção jogar bem e que enfrentava problemas em gerenciar a equipe olímpica. As CPIs apenas aceleraram o processo de desgaste do treinador.

No meio desse turbilhão, houve algumas boas notícias. Após atuações excelentes de Vampeta e Alex, o Brasil venceu a Argentina por 3x1 no Morumbi pelas Eliminatórias, a primeira partida convincente da seleção no qualificatório do Mundial. Em agosto de 2000, a seleção olímpica voltou a se reunir. Venceu o Chile em dois amistosos (5x3 e 3x0), o que aumentou o otimismo em relação àquele time. Luxemburgo considerava a hipótese de levar a Sydney três jogadores acima de 23 anos, um seria Romário, que declarava publicamente seu interesse em disputar as Olimpíadas. No entanto, os jogadores jovens se uniram e exigiram que o técnico mantivesse o grupo “fechado”, só com atletas de até 23 anos. Sem muita autoridade, pois o cerco apertava nas CPIs, foi obrigado a aceitar. Foi um grande erro.

Antes dos Jogos Olímpicos, ainda houve duas partidas pelas Eliminatórias. Primeiro, uma derrota contundente para o Chile (0x3). Depois, uma vitória sobre a Bolívia em uma Maracanã encharcado. Nessa partida, o Brasil atuou com Rogério Ceni; Cafu, Antônio Carlos, Émerson (da Portuguesa) e Júnior (Athirson); Flávio Conceição, Vampeta, Alex (Juninho Paulista) e Rivaldo; Ronaldinho Gaúcho (Marques) e Romário. Seria a última partida da seleção principal sob o comando de Luxemburgo.

O ato final do técnico foi a campanha nos Jogos Olímpicos de Sydney. Se, nos amistosos, a seleção olímpica estava bem, o mesmo não se pôde dizer durante a competição. A falta de experiência (que seria reduzida com a presença de três atletas acima de 23 anos) e capacidade de gerenciar a própria soberba foi muito clara. Para piorar, o próprio técnico já chamara para si a responsabilidade sobre aquele time, imaginando que reeberia o reconhecimento do primeiro ouro olímpico do futebol brasileiro.

A estréia foi com uma vitória pouco convincente sobre a Eslováquia (3x1). Depois, em uma atuação pífia, o Brasil perdeu para a África do Sul por 1x3. A classificação só viria com uma vitória sobre o Japão, surpresa do torneio. A seleção venceu por 1x0, gol de Alex. Mas continuou sem convencer. Enquanto isso, o Chile, que perdera três vezes do Brasil, tinha no experiente Zamorano uma peça fundamental na campanha que acabou com a medalha de bronze.

Nas quartas-de-final, o Brasil chegou como favorito diante de Camarões. No entanto, Mboma colocou os africanos na frente. Mesmo com um jogador a mais, o camaronês Geremi foi expulso, a seleção não conseguia o empate. E nem fazia por merecer melhor sorte. Até que no último minuto, Ronaldinho Gaúcho empatou em uma cobrança de falta. Na prorrogação, Camarões já estava com dois jogadores a menos, pois Nguimbat recebera vermelho na falta que gerou o gol de empate brasileiro. Ainda assim, o gol não saía. Em um contra-ataque mais do que improvável, Mbami fez o gol de ouro, desclassificando a seleção brasileira dos Jogos Olímpicos.

Com pressão por problemas na vida pessoal e erros gerenciais determinantes nas seleções brasileiras principal e olímpica, a posição de Vanderlei Luxemburgo ficou extremamente delicada. Foi demitido assim que voltou ao Brasil.

Em sua despedida da seleção, Luxemburgo escalou Hélton; Baiano, Fábio Bilica (Lúcio), Álvaro e Athirson (Roger); Fábio Aurélio, Marcos Paulo, Fabiano e Alex; Ronaldinho Gaúcho e Lucas (Geovanni). Esse time perdeu para Camarões em 23 de setembro de 2000, exatamente dois anos após a estréia de Luxemburgo na seleção. E há exatos 5 anos.

Ubiratan Leal

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