A relação é automática: quando se imagina em Alemanha pós-Segunda Guerra e na formação do país de hoje, logo se pensa na divisão entre Oriental e Ocidental e no muro de Berlim. E quase ninguém se lembrará do pequenino Sarre, Estado na fronteira com França e Luxemburgo que teve uma certa independência política, campeonato de futebol próprio e até disputou uma Copa do Mundo no início da década de 1950.
Com 1,1 milhão de habitantes e apenas 2.570 km², Sarre é o menor Estado da Alemanha (excetuando as cidades-Estados de Bremen, Hamburgo e Berlim). O nome vem do rio Sarre, que cruza todo seu território, e a capital é Sarrebruque. Localizada em uma posição estratégica, na fronteira franco-germânica, a região rica em carvão e com forte indústria siderúrgica foi desmembrada da Alemanha no Tratado de Versalhes, parte dos acordos de paz após a Primeira Guerra Mundial. Assim, em 1920, Sarre passou ao controle da Liga das Nações (embrião da ONU) por 15 anos.
Na prática, quem administrava o Estado era a França. Com forte tendência pró-Alemanha devido à sua origem e idioma, a população sarrense não apreciava a condição, apesar de isso ter se revertido um pouco em 1933, quando o Estado virou um refúgio para alemães antinazistas. Mesmo assim, um plebiscito determinou a reintegração da região à Alemanha em 1935, quando expirou o período de controle da Liga das Nações. Serra se tornou o Estado de Westmark e seus clubes disputavam normalmente o Campeonato Alemão.
Tal cenário não durou muito tempo. Após a Segunda Guerra Mundial, o domínio da Alemanha foi dividido entre franceses, britânicos, norte-americanos e soviéticos. A parte soviética se transformou na Alemanha Oriental, enquanto que o resto compôs a Ocidental. Quer dizer, quase todo o resto. Sarre ficou como território autônomo sob controle francês, com língua oficial alemã, mas o franco como moeda. Essa mistura fez que a região tivesse uma cultura muito particular, misturando elementos franceses com alemães na culinária e no estilo de vida dos habitantes. Aos poucos, o território foi devolvido ao controle alemão, seguindo um acordo entre Paris e Bonn. Mas, enquanto isso, pôde se aproveitar para ter até sua seleção e campeonato de futebol próprios.
A liga de Sarre (Ehrenliga Saarland) foi criada em 1948 e contava com 14 clubes: Brebach, Dudweiler, Ensdorf, Hellas Marpingen, Homburg, Ludweiler, Merzig, Neunkirchen Preussen Merchweiler, Puttlingen, Saar 05, Saarbrücken B, Sportfreunde Burbach e Völklingen. O titulo fiocu com o Neunkirchen, que mudou para Borussia Neunkirchen já na temporada seguinte. O Sportfreude Burbach pasosu a se chamar Sportfreunde Saarbrücken e conquistou a segunda edição do Campeonato de Sarre.
No entanto, o melhor time da região era o Saarbrücken, que já possuía o vice-campeonato alemão em 1942-43. O clube da capital participava da Ehrenliga Saarland com sua equipe B. Enquanto isso, os titulares mantinham contato mais próximo com o futebol mais desenvolvido dos países vizinhos. Em 1948-49, o Saarbrücken participou como hors-concours da Segunda Divisão francesa.
A campanha do time foi muito boa. Com 25 vitórias e sete empates em 38 jogos, ficou em primeiro lugar, com 59 pontos (dois a frente do Bordeaux). Pelo caminho, o Saarbrücken conseguiu resultados como duas goleadas (3x0 e 4x0) sobre o Lyon, 6x0 no Monaco, 6x1 no Nantes, 10x1 no Rouen, 9x0 no Valenciennes e duplo 7x1 no Troyes. Por ser “café-com-leite”, o time não teve o direito à promoção, que foi para Lens e Bordeaux.
Na temporada seguinte, a diretoria do Saarbrücken tentou oficializar a participação do clube, que poderia, assim, ascender à elite do futebol francês. No entanto, o pedido foi vetado pelos demais clubes, principalmente o Racing Strasbourg, que fora rebaixado da Primeira Divisão. O motivo do clube alsaciano era o ódio à Alemanha que ainda resistia nos anos logo após a guerra. Além de ter de passar pelo domínio nazista, o Racing havia sido obrigado a disputar o Campeonato Alemão entre 1941 e 1944.
Sem lugar no futebol francês, restava ao Saarbrücken tomar o lugar de seu time B no campeonato sarrense. Como o nível técnico dos adversários locais era muito inferior, o clube decidiu não disputar campeonatos oficiais. Apenas criou a Copa Internacional de Sarre, um torneio amistoso em que o Saarbr6ucken enfrentava equipes de vários países europeus e as três que obtivessem melhor resultado diante dos anfitriões fariam a semifinal (junto com o Saarbrücken, lógico).
Na primeira edição participaram Áustria Viena (AUT), Bellinzona (SUI), Degerfors (SUE), Elfsborgs (SUE), Hajduk Split (IUG), KB (DIN), La-Chaux-de-Fonds (SUI), Metz (FRA), Nancy (FRA), Rapid Viena (AUT), Rennes (FRA), Sete (FRA), Standard Liège (BEL) e Toulouse (FRA). Os semifinalistas foram Metz, Saarbrücken, Hajduk Split e Rennes, com o clube sarrense conquistando o título sobre os iugoslavos (atuais croatas).
Em 1950-51, o Borussia Neunkirchen se juntou ao Saarbrücken na Copa de Sarre. Nessa segunda edição, houve a entrada de várias equipes alemãs-ocidentais, como Eintracht Frankfurt, Mainz, Tennis Borussia Berlim, Kaiserslautern e München 1860. Porém, a competição não foi encerrada por falta de interesse e patrocínio. Conseqüência do início da reunificação do futebol de sarrense com a Alemanha Ocidental.
Em 1951-52, Saarbrücken e Borussia Neunkirchen foram alocados na Oberliga Südwest, grupo regional cujo campeão disputaria o título alemão-ocidental com outras sete equipes (ainda não havia sido criada a Bundesliga). Os demais times de Sarre ficaram em uma espécie de segunda divisão. Logo na temporada de estréia, o clube da capital de Sarre teve grande sucesso, superando o Kaiserslautern para ficar com o título regional. No quadrangular semifinal, ficou à frente de Hamburg, Schalke 04 e Nürnberg, conseguindo um lugar na final. Em um jogo bastante apertado, o Saarbrücken foi derrotado pelo Stuttgart por 2x3 e ficou com seu segundo vice-campeonato nacional. Em 1952-53, o Saar 05 também teve lugar na Oberliga Südwest, seguido no ano seguinte pelo Sportfreunde Saarbrücken. Porém, esse foi o período de maior glória do Kaiserslautern (base da seleção campeã mundial em 1954) e as equipes de Sarre não conseguiam superar o rival local.
Mesmo com o campeonato de clubes unificado, Sarre mantinha uma seleção própria. E chegou a se inscrever para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 1954. Os sarrenses ficaram no Grupo 1, ao lado de Noruega e... Alemanha Ocidental. A campanha foi digna. Na estréia, Sarre bateu os escandinavos por 3x2 em Oslo. Em seguida, perdeu por 0x3 para os alemães-ocidentais em Stuttgart e ficaram com poucas chances de seguir. Ainda mais porque não saíram do 0x0 com a Noruega em Sarrebruque. Como a Alemanha Ocidenal empatara com a Noruega, Sarre forçaria um jogo extra se vencesse os vizinhos em casa. Porém, foram derrotados mais uma vez (1x3) e não conseguiram a qualificação para a Copa da Suíça.
Depois do título mundial, o futebol da Alemanha Ocidental se unificou completamente ao de Sarre. Na Oberliga Südwest, o Kaiserslautern continuava comandando. Apenas em 1961, com o Saarbrücken, e em 1962, com o Borussia Neunkirchen, que o futebol da antiga região autônoma conseguiu um lugar na fase nacional do Campeonato Alemão-Ocidental. Ambas equipes fracassaram.
A Bundesliga (campeonato nacional, com grupo único) foi criada em 1963. E o Saarbrücken teve uma das 16 vagas, coisa que clubes como Bayern Munique, Fortuna Düsseldorf e Borussia Mönchengladbach não conseguiram. Mas a estréia do futebol sarrense foi péssima, dando o tom que prevaleceria durante as décadas seguintes. O Saarbrücken fez apenas 17 pontos em 30 jogos, terminando em último lugar.
A região só não ficou sem representantes porque o Borussia Neunkirchen conquistou o título da Segunda Divisão. Na primeira temporada, os aurinegros conseguiram um razoável 10º lugar, mas foram rebaixados em 1965-66. Menos mal que voltaram depois de apenas um ano na Segunda Divisão, mas caíram novamente e nunca mais teve espaço na elite alemã. O problema que começava a se manifestar é a falta de poder econômico dos times da pequena e pouco populosa região. Por exemplo, a capital Sarrebruque tem menos de 200 mil habitantes.
Com a decadência do Borussia Neunkirchen, o Saarbrücken voltou a ser o principal clube do Estado. Em 1976-77, o time da capital reapareceu na Primeira Divisão. Como ocorrera com o rival local, foi rebaixado em duas temporadas. O clube teve nova oportunidade em 1985-86, mas terminou em penúltimo lugar e estava de novo na Segundona.
Em 1986-87, o futebol de Sarre viu um terceiro clube alcançar a Primeira Divisão nacional: o Homburg. Como já ocorrera com seus rivais locais, o time não ficou muito tempo entre os grandes. Escapou do rebaixamento na estréia apenas na repescagem contra o Sankt Pauli. Caiu em 1987-88, voltou em 1989-90 e foi rebaixado em 1990-91. Nesse período, o Saarbrücken não conseguiu o acesso ao perder na repescagem em duas temporadas consecutivas.
A última aparição do futebol de Sarre na Bundesliga foi em 1992-93, quando Saarbrücken terminou em último lugar na temporada que marcava sua volta à elite. Desde então, os clubes da região têm ocupado lugares nas divisões menos abastadas do futebol alemão. Atualmente, o Saarbrücken está na Segunda Divisão, enquanto que o Borussia Neunkirchen e o Homburg disputam a Oberliga Südwest (Quarta), ao lado do Saarbrücken amador (time B).
*
Pauta sugerida pelos leitores Daniel Silva e Leonardo Silvério.
Ubiratan Leal