A maneira convincente com que o Brasil oficializou sua participação na Copa de 2006 tomará boa parte dos noticiários. Mas apenas confirmou o que já era esperado. O jogo entre Uruguai e Colômbia teve tons dramáticos e emocionantes, com uma equipe voluntariosa e aguerrida vencendo um time muito mais frio e bem armado do ponto de vista coletivo. Para ser um épico, a vitória cisplatina por 3 x 2 só precisava ter mais valor imediato (como garantir a classificação), pois até os heróis de ocasião surgiram no estádio Centenário: Recoba e Zalayeta. E, mesmo com esses dois grandes duelos entre sul-americanos, o principal jogo das Eliminatórias nesse fim-de-semana ocorreu na África.
Já se sabia que o encontro de Costa do Marfim e Camarões seria interessante. Caso vencesse em casa, os marfinenses eliminariam os camaroneses – mais assíduos freqüentadores africanos dos Mundiais de futebol – com uma rodada de antecipação. Um empate não mudaria muito o cenário, já que os elefantes só cairiam fora com uma mistura pouco provável de incompetência no momento de decisão e algum azar. Por isso, era recomendável para Camarões quebrar a invencibilidade da equipe laranja em casa para chegar à rodada final em vantagem. Para tornar ainda mais atrativo o encontro, cada seleção possui um dos principais atacantes africanos do momento. O marfinense Didier Drogba do Chelsea e o camaronês Samuel Eto’o do Barcelona.
Mas todo esse contexto fez da partida algo mais do que a decisão de uma vaga na Copa. Era o duelo entre uma potência – pelo menos do ponto de vista local – contra um emergente. Era uma daquelas partidas que poderiam entrar no imaginário coletivo da Costa do Marfim (independentemente do fato de os elefantes já terem um título continental), um momento em que superou rivais mais poderosos para ganhar espaço no cenário mundial. Mais ou menos como Trinidad e Tobago precisando de um empate em Porto Espanha contra os Estados Unidos nas Eliminatórias para a Copa de 1990.
E parece que, como os trinitinos em 1989, os marfinenses também acusaram a falta de experiência. Não dos jogadores individualmente, pois possui jogadores em clubes europeus de nível médio e já tiveram de enfrentar situações delicadas na carreira. Mas como uma equipe coletiva, como representantes de uma nação. Com a responsabilidade, mesmo que psicológica, de carregar seu país. Algo que os camaroneses se mostraram mais acostumados.

Isso pesou muito justamente porque, tecnicamente, os dois times se mostraram iguais. Como já pôde ser visto nos últimos anos, o futebol africano deixou de ser um retrato de idealismo deliciosamente infantil (o que também sempre teve muito de estereótipo), com jogadores buscando apenas o prazer (deles e dos espectadores) e sem se importar com a relevância oficial das partidas.
Hoje, as equipes africanas já têm consciência de que defender também é importante. No entanto, o fazem com alguma dificuldade, já que tais funções dependem mais de entrosamento e sentido coletivo. Muito por falta de uso mais sistemático dos 11 titulares, mas também por instabilidade e lapsos de falta de concentração dos jogadores. Foi assim, por exemplo, que a Costa do Marfim deixou Webo ser lançado para colocar Camarões na frente e que Wome bobeou para Dindane servir Drogba no empate marfinense.
De qualquer maneira, via-se que os leões indomáveis estavam mais confortáveis com a situação de jogar com responsabilidade. E fizeram 2 x 1 ainda no primeiro tempo, como se conseguissem ganhar no momento que quisessem. Sorte que Costa do Marfim tinha Drogba. Ele fez o que Eto’o não fez: assumiu o comando do time, liderou os companheiros e decidiu quando precisou. O atacante empatou novamente e deu confiança para os elefantes controlarem a partida.
E aí novamente a experiência de Camarões se fez decisiva. Os leões indomáveis não partiram para a pressão desesperada, por mais que a situação justificasse tal atitude. Como se soubessem que o terceiro gol sairia, mesmo que em um lance completamente ocasional, com um rebote de uma falta da intermediária que bateu na trave.
Todo o mundo viu isso com atenção. E pôde chegar a uma conclusão. Não a respeito do futebol africano. Por mais que essas duas seleções sejam representativas, ainda há outras 48 nações no continente, sendo que as da África árabe e a África do Sul têm cultura futebolística bastante diferentes. O que todos perceberam assim que o árbitro tunisiano Mourad Daami encerrou o jogo é que, se Camarões não tropeçarem no bom Egito, esse jogo ficará marcado na vida futebolística da Costa do Marfim como o momento no qual um lance fortuito fez a Copa do Mundo lhe fugir das mãos. Sensação vivida pelos trinitinos após o gol de Paul Caligiuri em 1989.

FICHA TÉCNICA
Costa do Marfim 2 x 3 Camarões
Eliminatórias Africanas para a Copa de 2006
Data: 4 de setembro de 2005
Local: estádio Félix Houphouet-Boigny, Abidjã-CMA
Público: cerca de 40 mil
Árbitro: Mourad Daami, Tunísia
Costa do Marfim: Gnanhouan; Kolo Touré, Boka, Zoro Kpoulo (Meite) e Domoraud; Tchiressoua (Fae), Zokora, Kalou e Akale (Yapi Yapo); Didier Drogba e Dindane. T: Henri Michel
Camarões: Hamidou; Deumi, Song e Wome (Atouba); Geremi, Saïdou, Olembe, Makoun (Meyong Ze) e Douala; Eto’o e Webo. T: Arthur Jorge
Gols: Webo (30/1º), Didier Drogba (38/1º), Webo (47/1º), Didier Drogba (2/2º) e Saïdou (40/2º)
Cartões amarelos: Zoro Kpolo, Boka, Geremi, Fae e Makoun
Ubiratan Leal
Imagens: Fifa e BBC Sport (marfinense se lamentando)