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27/09/05

O mundo não é uma bola...

A nova cara de um fenômeno antigo

Com 1,9 milhão de habitantes em sua região metropolitana, que conta todo o condado de Carson, e um impressionante crescimento desde a década de 1980, Las Vegas representa um dos maiores mercados norte-americanos sem uma equipe em uma liga profissional importante (MLB, NBA ou NFL). Os motivos declarados são a falta de infra-estrutura (estádio ou ginásio), o pequeno apoio do poder público local e o fato de a cidade ter alcançado tamanho potencial esportivo apenas na última década. Mesmo assim, o que realmente sempre inibiu as ligas a aceitarem franquias da maior cidade de Nevada são os cassinos. Dezenas de casas de jogos contam com um setor de apostas esportivas e seria desejável evitar que jogadores e árbitros passem por tentação.

O temor das autoridades esportivas se confirmou algumas vezes. Em 1983, os jogadores de beisebol aposentados Willie Mays e Mick Mantle foram punidos por promoverem cassinos de Atlantic City. Nada tinha a ver com apostas, mas apenas a proximidade já foi suficiente para a MLB agir. Pior ocorreu três anos depois, quando Pete Rose, uma das principais estrelas do beisebol norte-americano na década de 1980 e técnico do Cincinatti Reds na época, foi banido do esporte por ter apostado em jogos da MLB, da NFL e da NCAA (liga universitária). Ele admitiu que apostava desde o início da década (quando ainda era atleta profissional) e, por mais que nunca tenha apostado contra sua equipe (o que poderia configurar a “entrega” de partidas para benefício próprio), foi punido, a ponto de estar inelegível para o Hall da Fama do esporte até 2009.

Mas essa determinação já deixou de ser tão radical e Las Vegas não é mais olhada com tantas restrições. Tanto que, quando o time de beisebol Montreal Expos anunciou que deixaria o Canadá e estava em busca de uma sede nos Estados Unidos, várias cidades se apresentaram. Las Vegas foi uma delas. E, devido ao mercado que representa, a “Cidade do Pecado” quase ganhou a concorrência. Washington ganhou e os Capitals (novo nome da franquia) estreou na atual temporada. De qualquer forma, se a direção do ex-Expos decidisse em favor de Las Vegas, a MLB pediria à comissão de jogos de Nevada a exclusão das partidas de beisebol entre as observadas pelas casas de apostas.

O menor rigor da MLB é conseqüência direta da crise que os cassinos passam em seus setores de apostas esportivas, com queda de US$ 100 milhões anuais. Como há limitações para jogar online no Estado de Nevada, os apostadores muitas vezes eram obrigados a ir até Las Vegas. Ou poderiam ficar em casa e acessar algum site de apostas online, muitas vezes com sede em paraísos-fiscais. O fato de até o superprofissional e milionário mundo dos cassinos de Las Vegas, principal referência internacional em jogos de azar, ser afetado dá idéia de como o mercado de apostas esportivas pela internet cresce com vigor.

A vantagem de apostar nessas empresas – ainda mais as ilegais – é a possibilidade de colocar mais dinheiro em cada palpite, além de agir com menor controle de qualquer autoridade. Outro atrativo é permitir modalidades diferentes de apostas, como tentar acertar o autor de algum gol, o placar exato ou até mesmo, no intervalo, arriscar-se na esperança de uma virada.

Na Europa, os sinais deixados por essa nova indústria são evidentes, principalmente pela estratégia agressiva de marketing. Na Áustria, o pequeno Untersiebenbrunn foi vendido a um site de apostas online e recebeu um domínio como novo nome: InterWetten.com. Em Portugal, a Superliga é patrocinada pelo BetAndWin e se transformou na Superliga betandwin.com. Detalhe: a lei portuguesa impede que cassinos e casas de apostas patrocinem o esporte, mas como o BetAndWin não atua no mercado lusitano, conseguiu renomear o Campeonato Português.

Esse novo tipo de agência de apostas tem criado diversos problemas no futebol europeu. No Velho Continente, as apostas são permitidas há décadas. Porém, eram feitas por empresas estatais ou fortemente controladas pelo Estado. Com isso, distorções grandes – como as geradas por Nagib Fayed e Edílson Pereira de Carvalho – eram identificadas com mais facilidade e o risco de uma seqüência de fraudes eram menores, por mais que continuasse existindo.

Agora, a operação dessas empresas é independente e fica difícil saber quando apostadores dispostos a manipular os resultados começam a agir. Na Polônia e na República Tcheca, árbitros foram presos por vender partidas de acordo com orientações de apostadores.

Porém, o caso mais insólito envolvendo ocorreu na Finlândia ano passado. O Allianssi, vice-campeão em 2004, foi colocado à venda para que pudesse aumentar seus investimentos e montar uma equipe no mesmo nível das melhores da Escandinávia. O clube foi comprado por Ye Zheyn, um desconhecido empresário chinês ligado a agências de apostas asiáticas. O belga Olivier Suray foi designado como representante do investidor.

Pouco antes da partida contra o atual campeão Haka Valkeakoski, em 7 de julho de 2005, Suray demitiu o técnico Ari Tittanen e colocou em seu lugar o belga Thierry Pister. Em seguida, o dirigente levou à Finlândia seis jogadores belgas sem experiência em jogos de primeira divisão e ainda enviou o goleiro Sillanpaa para a Bélgica, onde realizaria um teste. Foi substituído por um goleiro (adivinha!) belga, que estava contundido.

Para piorar, ainda disseram ao recém-chegado Pister que o jogo contra o Haka era apenas um amistoso. Assim, o Allianssi entrou em campo com toda sua armada belga, sem experiência, nem condições de fazer um jogo minimamente competitivo. O Haka venceu por 8x0 em um dos maiores e mais descarados escândalos envolvendo combinação de resultados nos últimos tempos. O presidente do Allianssi (que mantivera quase que simbolicamente o cargo mesmo após a venda) renunciou e a liga finlandesa estuda a possibilidade de não renovar a licença do clube para 2006.

Como a liga finlandesa está longe de ser a de maior destaque no futebol mundial, o caso de arbitragem que mais ganhou projeção ocorreu na Alemanha. E esse é o que mais se assemelha à “máfia do apito” brasileira, pois teve como ponto de partida apostadores e a compra de árbitros, apesar de, na Alemanha, ter havido suborno a jogadores.

Em 2004, o Hamburg enfrentou o pequeno Paderborn, da Regionalliga Nord (Terceira Divisão), pela Copa da Alemanha. Claramente superiores, os hamburgueses fizeram 2x0 ainda no primeiro tempo. A partir daí, uma série de decisões insólitas – como duas expulsões de jogadores do Hamburg e dois pênaltis pouco convincentes – do árbitro Robert Hoyzer permitiram a virada do Paderborn para 4x2. Com a derrota, o Hamburg foi desclassificado do torneio.

Dois dias depois, um agente de apostas informou à Deutsche Fussball Bund (federação alemã) que havia uma estranha quantidade de apostas naquela partida, muitas delas feitas durante a partida apostando em uma improbabilíssima virada do Paderborn. A DFB iniciou as investigações sobre o árbitro da partida, Robert Hoyzer. Durante alguns meses nada foi feito, mas as arbitragens de Hoyzer continuaram suspeitas e pouco convencionais.

Já no início de 2005, a federação alemã já juntara provas suficientes para acusar o árbitro de manipulação de resultados para benefício próprio e de um grupo de apostadores. Alémd e Hamburg x Paderborn, outras cinco partidas, todas da Segunda Divisão germânica, tiveram seu curso natural adulterado.

Hoyzer negou em um primeiro momento, mas, depois, passou a colaborar com as investigações. Disse que teria convencido Jürgen Jansen, outro árbitro, a também entrar no esquema. Apesar de o próprio Hoyzer ter apostados nos jogos, os principais beneficiários seriam integrantes de uma máfia croata que agia nas bolsas de apostas clandestinas. Pelo “pacote” de jogos, Hoyzer teria recebido € 70 mil (valor que faz a corrupção de Edílson Pereira de Carvalho parecer ninharia).

Além dos dois árbitros, jogadores do Chemnitzer, Paderborn e Dynamo de Dresden também foram punidos por terem conhecimento do esquema e agirem em campo de maneira que facilitasse as marcações tendenciosas dos apitadores. Como a Copa da Alemanha já estava em etapas mais avançadas e seria difícil repetir os jogos já realizados, o Hamburg foi indenizado pela federação alemã (responsável pela comissão de arbitragens) pelos prejuízos da eliminação precoce. A Segunda Divisão não teve os placares alterados.

Esse não foi o único escândalo envolvendo arranjo de resultados no futebol alemão. Em 1971, ainda na época da Alemanha Ocidental, 48 jogadores foram punidos após um processo descobrir que eles facilitavam a vitória de equipes que estavam lutando para não serem rebaixadas. Manglitz, goleiro do Köln, foi banido do futebol, mas a punição mais importante foi a de Fischer, jogador da nationalmannschaft condenado no processo civil.

Outro grande caso de corrupção no futebol foi a Operação Apito Dourado, comandada pela Polícia Judiciária portuguesa em 2004 e pouco divulgada no Brasil. Há anos já havia suspeitas a respeito da condução da arbitragem da Superliga. Até que a Diretoria do Porto da PJ iniciou oficialmente o processo, recolhendo documentos na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), em clubes como Boavista, Porto, Braga e Gondomar (na época, na Terceira Divisão). A diferença do exemplo português dos demais é que o objetivo da estrutura de manipulação era tirar vantagem desportiva, como assegurar a vitória de determinados times.

O maior mérito das investigações realizadas em Portugal foi tomar como alvo principal os dirigentes, tentando descobrir como a manipulação de resultados era conseqüência de uma estrutura viciada desde o alto escalão. Assim, foram presos ou suspensos Valentim Loureiro, presidente de honra do Boavista e presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, Pinto de Sousa e António Henriques, presidente e vice do Conselho de Arbitragem da FPF, José Luís Oliveira, presidente do Gondomar e vice-presidente da Câmara do município de Gondomar, José Manuel Rodrigues, presidente da Associação de Futebol de Braga, e árbitros importantes do país como Jacinto Paixão. Até Pinto da Costa, presidente do Porto e dono de muito poder nos bastidores do futebol português (até por isso Sporting e Benfica apoiavam as investigações), foi indiciado por tráfico de influência e corromper árbitros, mas pôde manter suas funções.

Vários árbitros e dirigentes foram condenados, mas os resultados em campo foram mantidos, até porque o esquema era muito abrangente e seria difícil identificar quais partidas tiveram o resultado artificialmente montado.

Em nenhuma nação, porém, o acerto de resultados está tão institucionalizado quando na Itália. A ponto de até jogos de resultado quase certo, como o Genoa x Venezia da última rodada da Série B de 2004-05 (o Genoa era vice-líder e jogava em casa contra um adversário já rebaixado e pré-falimentar), tiveram acertos prévios. Na Bota, o entendimento geral dos torcedores é de que não se pode tratar o futebol como algo idôneo e que um clube que está fugindo do rebaixamento sempre terá auxílio de adversários que não têm mais interesse no campeonato.

O curioso é que, mesmo com a desconfiança sobre os resultados, em nenhum país a loteria esportiva tem tanta importância econômica e cultural. O totocalcio é uma instituição italiana e passar a sexta à noite ou sábado preenchendo seus palpites é algo quase religioso para muitas pessoas.

À margem disso tudo está o totonero, termo utilizado para designar várias espécies de loterias esportivas ilegais. É delas que partem a maior parte dos escândalos de acerto de resultados. O mais grave estourou no final da década de 1970. Um agente de apostas denunciou a existência de uma rede que manipulava os jogos da Serie A para favorecer determinados apostadores do totonero. Entre os envolvidos estavam empresários, dirigentes, árbitros e vários jogadores.

Nunca um escândalo de arbitragem teve conseqüências tão drásticas. Jogadores foram presos durante as investigações e, posteriormente, receberam pesadas punições. O centroavante Paolo Rossi, por exemplo, foi condenado a três anos sem atuar. No início de 1982, sua pena foi reduzida para que ele pudesse disputar (e ganhar) a Copa do Mundo da Espanha. Além dos jogadores, clubes também forma penalizados. O Milan, terceiro colocado na temporada 1979-80, foi rebaixado devido à participação de seus dirigentes no escândalo. O mesmo ocorreu com a Lazio, 13ª colocada. Bologna, Avellino e Perugia iniciaram a temporada 1980-81 com cinco pontos a menos, também como forma de punição.

O impacto foi tão grande, ainda mais porque o futebol italiano estava em crise técnica, que o país se uniu para tentar reerguer o calcio. Foi o início do processo que tornaria o Campeonato Italiano o mais rico do mundo no final daquela década. Em baixa, o Milan também iniciou ali seu crescimento, com a entrada de um empresário (Sílvio Berlusconi) disposto a investir pesado no clube.

Outro escândalo envolvendo o totonero foi revelado em 2003 (na realidade, de tempos em tempos surgem denúncias, suspeitas e casos pontuais comprovados). O foco dessa vez eram equipes pequenas como Chievo, Modena e uma série de clubes da Segunda Divisão. Dessa vez, as provas não foram tão contundentes e as punições foram relativamente brandas, com Modena iniciando a temporada 2004-05 com quatro pontos a menos, o Bari, com um a menos e o Catanzaro com cinco a menos (esse último foi perdoado depois).

São situações parecidas com o vivida na Inglaterra em 1995, quando jogadores do Wimbledon e o ex-goleiro do Liverpool Bruce Grobbelaar foram presos por supostamente arranjarem os jogos após acordos com máfia de apostadores do Extremo Oriente. Porém, nesse caso, nada foi comprovado e todos foram soltos.

Nem a Uefa está isenta de ter de resolver casos de suborno a árbitros. Na semifinal da Copa da Uefa de 1984, o Anderlecht subornou o árbitro espanhol Guruceta Moro para golear o Nottingham Forest e reverter o 0x2 do jogo de ida, na Inglaterra. A equipe de Bruxelas fez 3x0 e se classificou para a final. Menos mal que foi derrotada na decisão pelo Tottenham Hotspur. Em 1997, o clube da terra do pintor René Magritte admitiu que “compara” o apitador espanhol.

Um caso que também envolveu árbitro espanhol foi o do Dynamo Kyiv na Liga dos Campeões de 1995-96. O clube ucraniano tentou aliciar López Nieto antes de um jogo contra o Panathinaikos. O juiz denunciou e a equipe da antiga União Soviética foi excluída da competição e substituída pelo Aalborg, da Dinamarca, eliminados na fase anterior da competição.

No entanto, nenhum caso é tão notório quanto o Olympique Marseille de 1992-93. Na época, o clube era dirigido pelo milionário Bernard Tapie, que investiu pesado para fazer do clube o melhor da Europa. Até teria conseguido se não esbarrasse nos próprios equívocos. Com o título francês praticamente assegurado, Tapie subornou jogadores do Valenciennes, praticamente rebaixado, para assegurar a vitória dos marselheses. Conseguiu, mas um atleta do time derrotado denunciou os colegas – entre os quais o atacante argentino Burruchaga, já em fim de carreira – e deu início às investigações.

Depois de terminada a temporada, foi comprovada a fraude, agravada pela tentativa de compra do CSKA Moscou na fase semifinal da Liga dos Campeões (o Olympique venceu por 6x0). A Federação Francesa decretou o rebaixamento do clube marselhês, enquanto que a Uefa tirou os direitos de campeão do clube, que não defendeu seu título, tampouco representou o continente na final do Mundial contra o São Paulo.

Isso só mostra como acerto de resultados são comuns no futebol europeu. Na realidade, o primeiro caso registrado ocorreu antes de um Burnley x Nottingham Forest pelo Campeonato Inglês de 1899-1900. O Burney precisava da vitória para evitar o rebaixamento e seu goleiro, Jack Hillman, ofereceu propina a jogadores do Notingham. O corruptor foi suspenso por um ano.

E aí fica a principal lição. Em geral, os casos ocorridos na Europa tiveram um mínimo de punição aos envolvidos, mesmo os de alto escalão. Isso desde 1900. Enquanto isso, no Brasil, até hoje ninguém foi preso no escândalo da “máfia da loteria esportiva”, caso mais sério ocorrido no Brasil e muito mais grave que o das apostas de Nagib Fayad e Edílson Pereira de Carvalho.

O esquema montado no final da década de 1970 era muito mais complexo que o das apostas online. Na época, a loteria esportiva estava no auge e envolvia muito dinheiro. Assim, um grupo de apostadores conseguiu envolver jornalistas que participavam da escolha dos jogos que seriam incluídos nos testes, jogadores e técnicos. Com isso, tinham garantia de que as partidas que contassem com jogadores integrantes do esquema seriam válidas para a loteca. Depois, os atletas se encarregariam de “fazer” o resultado de acordo com a conveniência dos “investidores”. No caso, eram preferíveis resultados imprevisíveis, para que poucos apostadores de fora do grupo acertassem os 13 pontos.

O escândalo foi revelado pela revista Placar a partir de depoimentos do radialista Flávio Moreira, participante arrependido do esquema. Mais de 100 pessoas foram acusadas, mas apenas 20 foram indiciadas por falta de provas. Ninguém foi preso ou, no caso de jogadores, suspenso.

É possível ver como os casos de corrupção sempre existiram. Mas as apostas online têm alguns aspectos mais complexos do que os casos de “compra de árbitro” tradicionais. Como o objetivo é ganho financeiro com apostas, não há preferência por partidas importantes ou decisivas (o que ocorre em caso de acerto de resultado com fins esportivos). Outros problemas são a falta de controle sobre essas empresas, algo que afetou até os cassinos de Las Vegas, e a possibilidade de armar um esquema sem depender de uma rede de influência tão grande.

*

Desse histórico, deve-se atentar a como os europeus deram exemplos de como a estrutura do futebol dá margem ao surgimento desses escândalos e punir em todos os níveis é necessário. Do contrário, seria a prova que o Brasil não aprendeu nada com a impunidade da Máfia da Loteria Esportiva, que já tem mais de 20 anos.

Ubiratan Leal

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