Utilizar a Independência do país para incentivar manifestações patrióticas e nacionalistas é tão comum que ver desfiles militar na TV e ouvir o hino da Independência (“Já podeis da pátria filhos/Ver contente a mãe gentil/Já raiou a liberdade/No horizonte do Brasil”) é inevitável, mesmo que de relance. Se é assim hoje, na época da ditadura militar as comemorações ganhavam outro âmbito, incluindo futebol e articulações políticas na Fifa. Essa foi a Taça do Sesquicentenário da Independência, também chamada de Minicopa, de 1972.
O torneio fez parte de uma série de comemorações preparadas pelo governo para o sesquicentenário (150 anos) da Independência do Brasil. Claro, tudo com o alto nível de ufanismo típico de ditaduras que buscavam se promover e desviar a atenção dos problemas reais do país. Esportivamente, o presidente da CBD, João Havelange, aproveitou para atrair a atenção de vários colegas dirigentes e ganhar espaço, já pensando nas eleições para a presidência da Fifa em 1974.
O regulamento da Minicopa era algo bastante estranho, inclusive com Eliminatórias. Nessa etapa preliminar, 15 seleções foram divididas em três grupos de cinco. O melhor de cada chave se unia aos cinco pré-classificados à fase final, formada por dois grupos de quatro equipes, cujos vencedores fariam a decisão. A estrutura necessária e alcance geográfico do torneio era para fazer crer que se tratava realmente de uma versão alternativa da Copa do Mundo. Por exemplo, enquanto estiveram no Brasil 20 seleções, no México em 1970 e na Alemanha Ocidental em 1974, apenas 16 equipes participaram do Mundial oficial.
Isso não significa que a competição brasileira tenha sido tecnicamente boa. Forças como Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália não enviaram representantes e a América do Sul estava super-representada. Claro, era mais barato para os organizadores e não havia problemas de confrontar as datas co o calendário europeu.
As Eliminatórias foram disputadas de 11 a 25 de junho. No Grupo 1, disputado em Aracaju, Maceió e Salvador, estavam África (um combinado continental), Argentina, Colômbia, Concacaf (outro combinado continental) e França. Como esperado, argentinos e franceses dominaram o grupo, vencendo todas as partidas até o duelo decisivo, na última rodada. A igualdade em 0x0 classificou os platinos pelo saldo de gols. A África ficou em terceiro lugar, com 3 pontos, seguida de Colômbia e Concacaf.
Recife e Natal dividiram as partidas do Grupo 2, composto por Chile, Equador, Irã, Irlanda e Portugal. Mesmo com poucos remanescentes da geração terceira colocada na década anterior, os portugueses se mostraram muito superior aos demais. Venceram todos os jogos e passaram sem dificuldades. Atrás vieram, pela ordem, Chile, Irlanda, Equador e Irã.
O Grupo 3 teve jogos em locais bastante distantes: Curitiba, Campo Grande e Manaus. Diante de rivais sul-americanos – Bolívia, Paraguai, Peru e Vanezuela –, a Iugoslávia jogou o futebol mais ofensivo do torneio e não teve muitos problemas para passar de etapa. Os eslavos chegaram, inclusive, a fazer 10x0 (maior goleada do torneio) nos venezuelanos. Só surpreenderam com o empate com a Bolívia em 2x2. Paraguaios e peruanos – esses últimos com a melhor geração de sua história – também mostraram bom nível técnico.
Para a fase final já estavam pré-classificados Brasil, Escócia, Tchecoslováquia, União Soviética e Uruguai. O Grupo A ficou com Brasil, Escócia, Iugoslávia e Tchecoslováquia. O B tinha Argentina, Portugal, União Soviética e Uruguai. Nas duas chaves teriam partidas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte.
O problema é que, justamente quando, em teoria, o torneio teria seus melhores momentos, houve uma onde de jogos truncados e pouco imaginativos. Já era um sinal claro de que o futebol entrava em uma fase mais defensiva e com maior valorização dos estudos táticos.
Para o Brasil, o drama era outro. Um ano antes, Pelé tinha encerrado sua trajetória pela seleção. Zagallo tentava encontrar um novo esquema para o time, mas esbarrava no fato de que outros campeões mundiais de dois anos antes não estavam em boas condições físicas, como Gérson e Tostão, e nas oscilações naturais de um grupo em fase de renovação. Basciamente, esperava-se do Brasil – jogando em casa e com a Jules Rimet nas mãos – um jogo fluido e superior, algo que não se viu.
Na estréia, a seleção não saiu do 0x0 com a Tchecoslováquia. Sem imaginação no meio-campo, não conseguiu furar a defesa adversária. Na segunda partida, a única do Brasil em São Paulo, a Iugoslávia (que vinha de um empate em 2x2 com a Escócia em Belo Horizonte) surpreendeu e tentou fazer um jogo aberto com o Brasil. Com mais espaço, as deficiências táticas da seleção brasileira foram minimizadas e o time de Zagallo venceu por 3x0.
O empate entre escoceses e tchecoslovacos em Porto Alegre fez que o Brasil entrasse na última rodada precisando da vitória sobre os britânicos no Maracanã. Um empate abriria a possibilidade de a Tchecoslováquia ir à decisão caso goleasse a Iugoslávia no dia seguinte. O jogo foi agoniante. Sem imaginação e força ofensiva diante de uma equipe bem armada na defesa, o Brasil não conseguia confirmar sua classificação. Apenas aos 35 minutos do segundo tempo o gol saiu, por meio de Jairzinho.
Enquanto isso, na outra chave, portugueses e argentinos lutavam pela outra vaga na decisão. O Uruguai, sem algumas de suas estrelas como Mazurkiewicz, Ancheta e Pedro Rocha, não esteve perto da seleção que chegou ao quarto lugar na Copa de 1970. Sem talento, não passou de um empate com Portugal e duas derrotas por 0x1.
Liderados pelo já veterano Eusébio, os lusitanos venceram a Argentina por 3x1 e lideravam o grupo, com soviéticos e argentinos ainda com chances na última rodada. O 0x0 entre Portugal e União Soviética persistiu até os 43 minutos do segundo tempo, quando Jordão deu a classificação aos ibéricos. A Argentina ganhou do Uruguai e assegurou um lugar na disputa do terceiro lugar.
Depois de quase um mês de partidas, já era possível ver que o Mundialito fracassara em vários sentidos. A seleção brasileira não reproduzira em casa o espetáculo e a superioridade demonstrada na México em 1970. O público era pequeno nos estádios. Por exemplo, Portugal e União Soviética levaram apenas 8 mil torcedores ao Mineirão, enquanto que Argentina e Uruguai teve pouco mais da metade disso no Beira-Rio. Memso os jogos do Brasil não lotaram o Maracanã, que teve “apenas” (para os padrões da época) 80 mil pessoas no jogo decisivo contra a Escócia.
Na disputa do terceiro lugar, a Iugoslávia dominou com facilidade a Argentina. Os eslavos, que já tinham a simpatia dos torcedores por apresentarem um futebol mais aberto, chegou a fazer 4x1. Nos acréscimos, Brindisi diminuiu a diferença, mas os argentinos mostraram que não eram, naquele momento, uma das forças do futebol mundial.
Contra Portugal, o Brasil teve muitas dificuldades. Os lusitanos não se fecharam como tchecoslovacos e escoceses, mas tinham Eusébio, Jordão e o ousado lateral Adolfo, que tentavam colocar em risco o gol brasileiro. Porém, se o Brasil tinha pendências no setor ofensivo, a defesa liderada por Leão e Brito era segura. Tanto que não sofrera gol nas partidas anteriores.
Novamente sem imaginação, o Brasil não deslanchava na frente. A principal estratégia eram os cruzamentos para Leivinha (depois Dario) na área. A tática foi inócua até os 44 minutos do segundo tempo, quando, de cabeça, Jairzinho fez o gol do título brasileiro. Gérson, capitão da seleção, recebeu o Troféu Independência das mãos, claro, do presidente Garrastazu Médici.
Ubiratan Leal