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« E se a Espanha fosse dividida no futebol? | Página inicial | Todo o clube errou »

30/08/05

Variedades

Una inmersión en el balompié español

Se já foi difícil agüentar o oba-oba da imprensa brasileira após a chegada de Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid, ficará ainda pior agora, com Robinho vestindo a camisa 10 merengue. O clube branco da capital espanhola certamente terá mais atenção da mídia do que equipes da Série A do Brasileiro. E, se Ronaldinho Gaúcho estiver inspirado nessa temporada também, o Barcelona também terá seu espaço. Tanta atenção ao futebol da Espanha pode despertar uma grande vontade de ver tudo isso de perto, ainda mais porque o país é o segundo que mais recebe turistas estrangeiros no mundo (atrás apenas da França), prova de que tem muitas outras coisas para fazer.

Por mais que o Valencia tenha crescido nos últimos anos, o La Coruña tenha carinho dos brasileiros após contratar tantos jogadores daqui e a rivalidade andaluz entre Bétis e Sevilla seja empolgante, é evidente que os principais destinos para ver o futebol espanhol são Madri e Barcelona. Nessas cidades, é possível respirar a rivalidade entre merengues e blaugranas, sentir o espírito de cada clube e ver de perto alguns ícones do futebol mundial.

Uma vez que o Real está na moda por causa de Robinho, comecemos por Madri. Localizada em Castela, a cidade só teve um crescimento significativo a partir de 1561, quando foi elevada à condição de capital do Reino da Espanha por Felipe II. Hoje, a cidade está renovada, sobretudo após as intervenções urbanísticas motivadas em parte pela candidatura – mal sucedida – para sediar os Jogos Olímpicos de 2012, moderna, cosmopolita e viva, e, mesmo mantendo o caráter predominantemente espanhol, já deixou para trás o ar aristocrático típicos da cidade que abriga uma família real.

Para o visitante, fica claro que, por mais que os museus do Prado (onde está “As Meninas”, de Velásquez), Reina Sofia (“casa” de “Guernica”, de Picasso) e Thyssen-Bornemisza continuem sendo atrações obrigatórias, há mais o que fazer na cidade. Desde programas simples como passear pelo jardim central do Paseo Del Prado e o Parque Del Retiro, até sentir o movimento das calles de Alcalá e Gran Via e dos bairros boêmios de Lavapiés e La Latina (hoje ambos tomados por imigrantes sul-americanos, asiáticos e africanos). Sem esquecer uma passada na estação de Atocha, alvo principal dos atentados de 1 de março de 2004 (ou simplesmente “11M” para os locais) e, para quem achar válido, à Plaza de Toros de las Ventas (esteticamente é uma edificação bonita, independentemente das atividades lá realizadas).

E futebol nisso tudo? Bem, para muitos, toda a história da capital espanhola é secundária perto do fato de a cidade ser a casa do Real Madrid. O curioso é como o clube branco absorveu o espírito madrileno. Não a nova face, mas a de uma Madri monárquica, que não esconde a soberba real (de realeza), um sentimento de superioridade que leva a um sentimento algo imperialista. Talvez seja influência do período de maior glória do clube, nas décadas de 1950 e 60, quando era alinhado ao governo franquista.

Por isso, para os merengues, dominar a Espanha é tão fundamental quanto sair de seu “feudo” e conquistar territórios além-mar. Para tanto, o clube desenvolveu a cultura de ter à disposição alguns dos maiores jogadores do mundo no momento, ainda mais se forem ícones que permitam que o clube se imponha – mesmo que psicologicamente – no cenário internacional. Política que tornou o clube mais uma atração turística da cidade.

Mesmo o turista pouco afeito ao futebol é obrigado a “trombar” com o Real por toda a cidade. As lojas de souvenires e bancas de jornal sempre têm algo do clube blanco para vender. Os produtos oficiais são caros, mas não é difícil encontrar versões “genéricas” de qualidade razoável e preços acessíveis (para os padrões locais). Não é difícil assegurar a encomenda que alguém provavelmente fez por um produto com a marca do Real Madrid. No entanto, para tornar mais efetiva a experiência futebolística na capital espanhola, é fundamental uma visita ao Santiago Bernabéu. Até porque não é nada difícil chegar à casa madridista. Várias linhas de ônibus e uma de metrô deixam o torcedor em frente ao estádio.

A impressão externa não é das melhores. O Bernabéu impressiona pelo tamanho incomum para os padrões europeus, mas, para o brasileiro, acostumado com estádios como Maracanã, Mineirão ou Morumbi, não há motivos para espantos. Além disso, a fachada é simples e não esconde uma certa falta de uniformidade devido à construção em fases bem definidas. Não chega nem perto de impressionar como outros estádios europeus.

Outra decepção é saber que, por enquanto, o Real Madrid não tem seu museu. O que havia foi desativado e só será reaberto após a conclusão da Ciudad del Real Madrid, mega centro de treinamento cujas obras começaram em 2004. Para não deixar o torcedor na mão, o clube montou uma exposição com seus troféus e permite uma visita ao interior do estádio por € 9, preço um pouco salgado se considerarmos que a entrada para cada um dos três grandes museus madrilenos custa € 6.

A visita não é guiada e o torcedor/turista é obrigado a seguir setas e indicações para saber o trajeto do passeio. Menos mal que ganha um pequeno livro com explicações dos pontos do estádio, como arquibancada, área VIP, sala de imprensa e vestiários. Seria outra decepção se não fosse por um único aspecto: por dentro o Bernabéu é lindo e imponente, casa digna de quem se considera o maior clube do mundo. A sensação de proximidade e intimidade entre arquibancada e gramado se mistura com o tamanho do estádio (que, ao contrário do que ocorre no Brasil, cresce para cima, não para trás). É contraditório, mas é assim mesmo.

O passeio pelo estádio termina justamente na sala de troféus. Muito bem organizada, dá destaque para as nove Copa dos Campeões conquistadas pelos merengues. Também dá espaço para os títulos nacionais, de torneios amistosos e até de outros esportes, como o basquete. Por fim, dá para se divertir com o enorme painel que contém as fotos de cada jogador que vestiu a camisa branca, de Di Stéfano e Puskas a Rodrigo Fabri e o lateral-direito Vítor. O visitante que empolgou com a causa madridista aproveita e passa pela loja oficial do clube.

No entanto, não se deve esquecer que Madri não abriga apenas um grande clube. Apesar de receber menos atenção e destaque, o Atlético é visto pelos nativos como uma força continental, mesmo que em má fase. É possível encontrar produtos dos colchoneros pela cidade sem dificuldade e dar uma passada no estádio Vicente Calderón não é má idéia.

Por fora, a casa do Atleti é mais bonita que a do rival. O revestimento de granito impressiona e o fato de abrigar estabelecimentos comerciais convencionais deixa o estádio mais integrado com a cidade. Também é interessante ver o lance de arquibancada construído sobre uma avenida, criando um túnel. Solução interessante para ampliar a capacidade do estádio mesmo sem espaço físico. Outra vantagem do Vicente Calderón é a paisagem, nas margens do rio Manzanares. Está longe de será mais bonita de Madri, mas está alguns pontos a frente do cenário em volta do Santiago Bernabéu.

O problema é que só há motivos para ir ao estádio do Atlético de Madri para ver um jogo. Não há museu ou visita pelo estádio. No máximo, é possível ir à loja oficial, ao lado do estádio, que reservou um canto para expor alguns troféus e camisas históricas do clube. Menos mal que, em relação a produtos disponíveis, a loja do Atlético se iguala à do Real.

Por mais atenta e cuidadosa que tenha sido a visita ao Real Madrid e ao Atlético, falta uma coisa básica para ter noção do espírito futebolístico da capital da Espanha. É necessário conhecer seu contraponto, conhecer Barcelona.

Ao contrário de Madri, que esbanja uma certa imponência, a capital da Catalunha é ávida pela auto-afirmação. A existência da língua catalã é a primeira coisa que vem à mente, mas é algo até pequeno perto de outros elementos, muito mais discretos e igualmente particulares. Basta ver a lista de pontos turísticos em Barcelona para perceber tal característica.

Os projetos de Gaudí se espalham pela cidade, desde o bairro de Eixample – alguém aí falou na igreja da Sagrada Família? – ao distante Parc Güell. Todos misturando linhas orgânicas com inspirações orientais, sempre tendo como ponto de partida elementos da natureza. Os prédios que margeiam as Ramblas (calçadão arborizado cheio de turistas e artistas de rua) e o Palau de la Música Catalana também ignoram o convencional. Tudo muito diferente... e catalão.

O centro da cidade também parece imune ao período glorioso da Espanha da Era dos Descobrimentos. O bairro gótico é medieval, da época do domínio muçulmano na península ibérica. Mas existem até resquícios de construções romanas.

A parte mais moderna da cidade também tem características diferentes de Madri. A revolução urbanística realizadas para as Olimpíadas de 1992 criou uma cidade que mistura estética catalã – sobretudo em esculturas pela orla da praia – com temática marítima. Tudo isso para visitantes de todo o mundo. Aliás, há tantos turistas em Barcelona que chega a incomodar em alguns momentos, na medida em que fica difícil ver os catalães em seu habitat natural.

Os Jogos Olímpicos também desenvolveram o Montjuïc, monte a leste do centro da cidade que abriga boa parte dos locais de competições em 1992. Além do estadi Olímpic, das piscinas de Bernat Picornell e do Palau Sant Jordi, a região também tem um dos principais museus da cidade, exclusivo de arte produzida na Catalunha. Aos pés do monte está o que restou da praça de touros, hoje desativada. Afinal, os catalães contrariam os castelhanos até no pouco apego a touradas.

Como uma metáfora social, o futebol não poderia deixar de refletir essa relação de antagonismo entre catalães e castelhanos. Por isso, os barceloneses logo criaram sua forma de se auto-afirmar futebolisticamente diante do poder de Madri, ou melhor, do Real Madrid. Por isso, o lema do Barcelona é “més que um club”, ou “mais que um clube” em catalão (óbvio).

A importância dos blaugranas é tão grande que o “Museo del Fútbol Club Barcelona”, com cerca de 1 milhão de visitantes, é o mais freqüentado da Catalunha, à frente até do Museu Picasso de Barcelona. Pode até parecer um exagero para quem não dá tanta importância ao futebol, mas não é. Tanto que os € 6 (valor abaixo da média das dispendiosas atrações da capital da Catalunha)

Em seu museu, o Barcelona levou até onde pôde a filosofia de se mostrar presente na vida catalã. O básico de qualquer museu de clube – camisas históricas, troféus e fotos antigas – está lá. Quem quiser, pode até tirar uma foto erguendo uma réplica da Copa dos Campeões de 1992. Mas o museu não se limita a isso. Uma ala tenta reproduzir em tamanho real a primeira sede administrativa blaugrana. Em outra, há obras encomendadas pelo clube a ilustríssimos artistas catalães, como Salvador Dali, Pablo Picasso, Antoni Tàpies e Joan Miró. Todas tendo o Barça como tema principal.

Ah, claro. Quem está no museu do Barcelona já viu o Camp Nou. O estádio blaugrana é maior que o do rival madridista e, por fora, um pouco mais bonito (nada comparável a alguns ícones do Velho Mundo). Pagando mais € 3,90 em relação ao ingresso do museu, o turista/torcedor pode conhecer o interior da casa do Barcelona.

A comparação com o Bernabéu é inevitável (afinal, como em toda rivalidade que se preze, um lado se torna parâmetro par ao outro). Apesar de ser bonito, o Camp Nou não se iguala ao estádio do Real Madrid nesse quesito. A vantagem é que o passeio (também sem guia) leva o visitante a muitos mais lugares: sala de imprensa, vestiários, área vip, cabines de televisão, estúdio da TV catalã dentro do estádio, capela e arquibancadas. No final, a lojinha oficial do clube. Maior e mais bem abastecida do que a do Real.

Se o nível de fanatismo do turista chegar ao ponto de querer também conhecer o Espanyol, haverá alguma decepção. O segundo clube de Barcelona é ofuscado pelo vizinho que praticamente não se sente sua presença no dia-a-dia da cidade. Salvo por alguns produtos como cachecóis e camisas em poucas lojas e bancas de jornal.

Ainda assim, o Espanyol merece atenção por ser o usuário do estádio Olímpico de Montjuïc. Não há uma visita detalhada pelo estádio, mas é possível entrar, tirar algumas fotos, ver a tradicional torre com o relógio e a pira olímpica sem gastar um centavo de euro. Basta passar em frente ao estádio e entrar. Mesmo assim, dá uma certa pena ver um estádio tão grandioso nunca ser preenchido completamente pela pequena torcida espanyolista.

Como chegar
Santiago Bernabéu: descer na estação Santiago Bernabéu do metrô é a escolha mais simples. De ônibus, a partir do centro, pegue alguma linha que passe pelo Paseo de la Castellana (uma das mais importantes de Madri) e desça na altura da Plaza de Lima. Vicente Calderón: estação Acácias do metrô. Camp Nou: meio distante do centro, é mais fácil ir pelo metrô, descendo na estação Maria Cristina e seguindo o restante (quatro quarteirões) a pé. Estadi Olimpic de Montjuïc: desça na estação Espanya de metrô (ao pé do monte) e pegue a linha 50 de ônibus. Para ver um jogo, é importante verificar a disponibilidade de ingressos (sobretudo em jogos de Real e Barca) e comprar com antecedência. É provável que os setores mais baratos estejam lotados, o que não é agradável ao bolso do turista, que talvez tenha de pagar algo em torno de € 60 por pessoa.

Outros clubes
O Europa de Barcelona está na quarta divisão e dificilmente terá alguma atenção. Melhor apostar no Rayo Vallecano e no Getafe, ambos na região de Madri. O Rayo é distate do centro, mas está dentro da cidade de Madri. Está perto da estação Puente de Vallecas do metrô. O mesmo sistema de transportes deve ser utilizado para ver o Getafe, na estação Getafe, cidade na região metropolitana da capital espanhola.

Compras
Os preços são meio salgados para quem recebe em real e vai gastar em euros. As camisas oficiais custam cerca de € 65. Dependendo da época, é possível encontrar promoções que tornem a compra viável. Outras lembranças são fáceis de encontrar. As oficiais dos clubes são caras, mas dá para fazer uma força. Ainda assim, vale a pena procurar algo entre os produtos “genéricos”, como cachecóis, camisetas, bonés, bolas, canecas, pôsteres, brinquedos, bonecos, vinhos, mouse, sacolas...

Jornais e revistas
A principal revista é a Don Balon, que tem um preço em conta para os padrões europeus (€ 2). Os diários refletem bem o espírito bipolar do futebol espanhol. Madridistas preferem o Marca e o As, que sempre reproduzem o ponto de vista dos merengues. Os barcelonistas ficam com o Mundo Deportivo e o Sport, pouco afeitos às pirotecnias da diretoria do Real. Os torcedores do Atlético, parceiros dos blaugranas no ódio ao Real, também ficam com o Mundo Deportivo, que até publica um caderno específico para os colchoneros.

Brasil
O Brasil está na moda na Europa. Em todas as cidades espanholas é inevitável cruzar com pessoas vestindo camisas com as cores do Brasil ou referências ao país. Mas é algo comportamental, como apreciadores de reggae que vestem camisas com motivos jamaicanos. Mas é claro que, entre os amantes de futebol, a preferência é por camisas da seleção brasileira.

Transporte
Ônibus e metrô em Barcelona e Madri têm preços parecidos, por volta de € 1. No caso do metrô, o turista pode se programar e comprar bilhetes múltiplos de 10, que reduz o preço de cada viagem quase pela metade.

Comida
Quem gosta de peixes e frutos do mar não terá problemas. Os apreciadores de carne de porco também não. Só fuja dos bocadillos, sanduíches insossos no pão baguete.

Curiosidade
Apesar do nome, o Espanyol foi fundado para representar os futebolistas catalães. Na época, os clubes da cidade (inclusive o Barcelona) eram dominados por ingleses. Assim, estudantes criaram um clube para os catalães terem vez. O nome tentava deixar clara essa origem não-estrangeira do Español.

Balompié
Apenas para os que não entenderam o título do texto. Em tradução literal, “balompié” é “bola pé”, nome alternativo e puristas que os espanhóis deram para o “fútbol”.

Ubiratan Leal

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