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12/08/05

O mundo não é uma bola...

Porque os torcedores do Manchester rechaçam Glazer

Depois da virada provocada pela entrada dos quase infindáveis rublos de Roman Abramovich no Chelsea, uma nova mudança na direção de um grande clube inglês não passaria sem ser consideradas uma das novidades da Premiership. Como ocorreu com a compra do Manchester United pelo norte-americano Malcolm Glazer. E, no Brasil, houve até os que comparassem os dois casos. Um enorme equívoco, pois as situações têm natureza completamente diferente e a revolta dos torcedores dos red devils não se dá apenas por orgulho ou anti-americanismo, mas por questões muito mais práticas.

Avaliar os interesses de Abramovich no Chelsea é relativamente simples. O proprietário do clube azul de Londres tem uma riqueza que cresceu de maneira misteriosa e rápida no processo de privatização do capitalismo russo. Milionário, se envolveu com a política e, oficialmente, resolveu investir em um time de futebol inglês por hobby. Não seria ousadia dizer que Abramovich comprou os blues por um misto de brincadeira/hobby, tentativa de desviar atenção de suas outras atividades e eventualmente aproveitar para realizar enormes transações financeiras sem despertar muita suspeita.

Glazer é um empresário com perfil completamente diferente. Para o bem e para o mal. O lado bom é que, comparando com Abramovich, suas operações são muito mais transparentes e lógicas, por mais que haja um lado nebuloso no acúmulo de sua fortuna. O norte-americano quer ganhar dinheiro e investe no que considerar uma boa oportunidade de negócio, como o Tampa Bay Buccaneers, uma das franquias menos valorizadas da NFL e que Glazer ajudou a levar à conquista do Super Bowl em oito anos. O lado ruim é que ele terá como ponto de partida a possibilidade de lucro. Não se imagina Glazer tomando atitudes que se assemelhem ao mecenato, como o concorrente russo. É por ver o Manchester United mais como negócio do que como clube de futebol que o novo proprietário do clube tem sido rejeitado pela torcida. E com alguma razão.

Tudo começou pela própria operação que permitiu a compra de 75% das ações do Manchester United. Glazer já era um acionista minoritário do clube que, aos poucos, ganhou espaço a ponto de quase se igualar aos irlandeses John Magnier e JP McManus, proprietários em conjunto de pouco menos de 30% dos red devils. O avanço do norte-americano fez que conselheiros do clube incentivassem o Shareholders United (espécie de consórcio formado por torcedores para comprar ações do clube) e outros torcedores a “protegerem” as ações do clube agindo antes. Não deu certo. Glazer ofereceu um excelente preço por cada ação, o que daria um bom lucro a cada acionista que vendesse sua participação, sobretudo a dupla irlandesa.

O investimento total para a compra de 75% do Manchester United passou de £ 920 milhões, quantia que nem Glazer teria a mão. E aí começam os problemas. O norte-americano teve de arrecadar tais recursos de diversas maneiras – sobretudo empréstimos bancários – e deixou o Manchester United extremamente comprometido. A modalidade de financiamento utilizada prevê juros bastante altos e, para parte do dinheiro investido, ações do próprio clube servem de garantia. O orgulho dos red devils de serem um dos poucos casos de clube com sucesso financeiro e nenhuma dívida foi por terra.

Para ter o retorno do investimento e ainda arcar com juros, a receita do Manchester United terá de aumentar sensivelmente. Oficialmente, a nova direção do clube ainda não divulgou o que fará, mas o jornal britânico The Times divulgou ter tido acesso a relatórios que conteriam o plano da família Glazer. Para o faturamento crescer em 76%, o ingresso para as partidas em Old Trafford deve aumentar em 54% nos próximos cinco anos.

Essa medida já foi adotada nos Buccaneers e provavelmente seria bem-sucedida, pois não seria difícil encontrar 76 mil torcedores do Manchester United dispostos a pagar o novo preço se fosse necessário. Mas, claro, criou um enorme descontentamento nos torcedores “comuns”, que não vêem com bons olhos a mercantilização dos red devils. O que pode ficar ainda pior se a idéia de “vender” o nome do Old Trafford – como ocorreu com a Kyocera Arena, a Petrobrás Arena, a AOL Arena e a Allianz Arena – para alguma empresa for realmente implementado.

Outra possibilidade seria, a partir de 2007, quando está prevista a renovação do contrato relativo aos direitos de transmissão da Premiership, tentar negociar individualmente os jogos do Manchester United, quebrando a tradição de acordo em bloco dos clubes. Malcolm Glazer já disse que não pretende fazer isso, mas o temor ainda existe. Por fim, não se pode descartar a possibilidade de redução dos gastos com o time.

O medo de ver o preço dos ingressos crescerem, seu tradicional estádio mudar de nome e a redução da verba para contratações fez que os torcedores do Manchester se unissem contra Glazer. O norte-americano anunciou que o time terá uma verba de US$ 35 milhões para contratações em cada temporada, além do que for arrecadado com a venda de atletas.

Ainda assim, as animosidades persistiram. Protestos se tornaram comum pela cidade, rivais usam máscaras do norte-americano para provocar, um grupo fundou um novo clube para torcer (o United of Manchester, que estreará pela Nona Divisão já nessa temporada) e, em visita da família Glazer à Manchester, alguns simpatizantes dos red devils extrapolaram e confundiram descontentamento com hostilidade exagerada. O que gerou pedidos de desculpas de nomes ligados ao clube pelo comportamento da torcida.

No fundo, o que deixou os torcedores do Manchester United tão descontentes foi ver que seu clube não tem, para a nova direção do clube, uma aura especial. Porque, por mais que um clube tenha de dar lucro, ser administrado de maneira profissional e seja submetido às mesmas regras de qualquer empresa, ele está dentro de um contexto cultural e histórico específico. E deve respeitar a isso.

Isso não significa que, em nome da tradição, sejam cometidos absurdos administrativos como os existentes no Brasil ou deixar que amadores tomem conta do futebol. Pelo contrário. É preciso apenas uma administração que respeite regras básicas de gerenciamento profissional de empresas e saiba como desenvolver uma estratégia de mercado com base na cultura que cerca cada clube.

Por quê? Porque o clube não vive da venda de espetáculos de futebol, mas da paixão do torcedor. Não adianta ir bem no campeonato se ninguém está disposto a apoiar o time (que o diga o São Caetano). Dessa forma, o grande atrativo de recursos é alimentar a paixão. Bilheteria, audiência na televisão e venda de produtos licenciados só existirão se a paixão existir. Se a diretoria não vê um clube com paixão, corre o risco de “esfriar” seus torcedores (que, no fundo, gostam da idéia mítica de milionário excêntrico apaixonado a ponto de gastar sua fortuna apenas para ver o time vencer, o que mais ou menos acontece com o Chelsea de Abramovich). Glazer deve saber disso e tentará reverter o cenário. Mas a reação automática da torcida do Manchester United é compreensível e natural (salvo, claro, as atitudes violentas).

Ubiratan Leal

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