Muitas pessoas esquecem, mas televisões e rádios são concessões públicas, às quais devem, em teoria, atender ao interesse da população. Sobretudo na parte jornalística da grade de programação, que deveria estar acima dos interesses comerciais dos veículos. Mesmo colocando de lado o idealismo utópico, não é possível ignorar certos fenômenos. Como a relação entre as entidades que organizam campeonatos e muitas das televisões que compram os direitos de transmissão desses torneios. O que fica claro na maneira como a seleção brasileira é tratada.
É raro ver a Globo criticar a CBF ou a maneira como a entidade gere o futebol brasileiro. A seleção é criticada apenas por suas atuações, porém, no mais, parece que tudo está sempre sob controle, que não há crises entre jogadores e comissão técnica, nunca há amistosos inúteis e o torcedor tem apenas motivos para sorrir. Em troca, a emissora tem tratamento “diferenciado” na cobertura da seleção – como uma declaração exclusiva de Júlio César a respeito de seu suposto envolvimento com o traficante Bem-Te-Vi – e na compra dos direitos de transmissão das competições nacionais, eventualmente até tendo voz na organização dos torneios.
Vale lembrar que a Globo não é a única empresa a ter esse tipo de atitude. As nebulosas saídas de Juca Kfouri da Abril e de Juarez Soares da Bandeirantes tinham estranhas relações com a briga na época pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.
Seria muito fácil simplesmente crucificar a Globo por evitar críticas à CBF ou à seleção. E, realmente, a emissora aceita com certa facilidade a conveniência de tal simbiose. Até porque tem porte suficiente para não ter de entrar nesse tipo de situação. No entanto, isso só ocorre porque falta transparência administrativa da confederação, que, de certa maneira, incita seus parceiros a tomarem tal atitude. Sempre que há uma real disputa pelos direitos de transmissão de campeonatos, a escolha quase nunca se dá por motivos “técnicos” – o que cada candidato oferece além do dinheiro – ou pela maior proposta financeira para contratos semelhantes. O que dá margem a pensar que “amigos” têm preferência.
Ubiratan Leal