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15/08/05

Variedades

Identificação com clubes sempre será maior

Como já ocorrera com a Copa das Confederações e a Libertadores, a seleção brasileira realizará m amistoso essa semana prejudicará alguns clubes brasileiros que disputam a Copa Sul-Americana. Sempre que isso ocorre, os torcedores desses clubes se sentirão contrariados, pois colocam a paixão clubística à frente da equipe nacional. Um comportamento que quase sempre se repete quando há tal confronto. Os observadores menos próximos da realidade do futebol ate acham estranho, mas é uma atitude mais do que justificável.

Mais do que simplesmente definir uma opção no momento de assistir a um jogo de futebol, escolher um clube de preferência faz parte da definição de personalidade que um torcedor tem de si mesmo. Dessa maneira, pode-se dizer que o time de futebol ajuda a construir o jeito de uma pessoa se ver, mesmo que tal influência seja puramente psicológica e nada efetiva.

Além disso, a estrutura futebolística brasileira é de clubes sociais com departamentos de futebol profissional. Com isso, o clube não tem um dono oficial (se bem que, na prática, isso é discutível em alguns casos) e indivíduos comuns podem comprar um título de sócio e, de certa forma, serem um pouco proprietárias daquelas cores, daquele distintivo e daquela camisa. E, mesmo que a maior parte dos torcedores não é sócia de seus clubes de preferência, a idéia de que “a torcida” tornou um clube grande fica viva.

Dessa maneira, a relação de um torcedor com seu clube é íntima e simbiótica, pois um faz o outro grande e, em troca, recebe um componente de personalidade. E tal fenômeno é extremamente individualizado, em que cada um interpreta de um modo particular e se sente especial e diferente do colega de escritório, do vizinho, do cunhado ou sujeito com que sentou ao lado no ônibus na ida ao trabalho.

Com a seleção brasileira, o torcedor até sente que há uma ligação pelo fato de ser compatriota dos jogadores e que, de certa forma, o eventual sucesso da equipe nacional é um sinal de como o povo do país em questão é forte, capaz, talentoso, orgulhoso de si próprio e merece ser visto com respeito pela comunidade internacional. Como se uma nação que se preze devesse ter uma seleção de futebol forte (completando a declaração do roqueiro Frank Zappa, que afirmou que um país que se preze deveria ter uma companhia aérea e uma marca de cerveja própria).

No entanto, a relação entre torcedor e seleção não é individual, mas coletiva. O torcedor não tem a sensação de que ajudou a construir a grandeza do futebol da equipe. E, mesmo que o Brasil o patriotismo se manifeste em boa parte o futebol e durante as Copas do Mundo, o que constrói a brasilidade de um indivíduo é uma série de aspectos culturais do qual o futebol é uma pequena parte. Em resumo, não há simbiose. A seleção brasileira não compõe a personalidade do torcedor, que também não se sente responsável direto pelo sucesso do time.

Além disso, as reações de acordo com o sucesso ou insucesso da seleção são relativamente uniformes na população. Salvo os casos de quem more em região de fronteira ou conviva com muitos estrangeiros, as alegrias e tristezas pelo desempenho do Brasil (ou de Alemanha, Itália, Argentina...) não faz alguém se sentir diferente e especial em relação às pessoas que o rodeiam. Afinal, todos estão na mesma onda.

Quando em clube vence, seus torcedores se sentem privilegiados e, de certa forma, superiores aos demais. Os que torcem por clubes pequenos não têm essa sensação com os títulos. Mas o simples fato de ter uma preferência clubística tão, digamos, “exclusiva”, já é suficiente para estabelecer uma diferença diante dos outros. Sentimentos em geral muito mais fortes do que o orgulho patriótico.

Ubiratan Leal

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