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8/08/05

Cultura & Mídia

Garrincha – Estrela Solitária

É raro ver como uma grande história pode ser desperdiçada tão tolamente quanto assistindo a “Garrincha – Estrela Solitária”. O filme, dirigido por Mílton Alencar, conseguiu a façanha de perder o foco da vida do jogador, não explicar quase nada de sua carreira, nem mostrar como seus problemas pessoais se desenvolveram até torná-lo um dos personagens mais trágicos e simbólicos do futebol brasileiro. O resultado final foi uma quase pornochanchada recauchutada e pouco convincente.

Os problemas estão disseminados por toda a produção. A começar pelo roteiro, uma adaptação mal-sucedida de “Estrela Solitária – Um brasileiro chamado Garrincha”, ótima biografia que Ruy Castro escreveu sobre o craque. A começar pelo ponto de partida. Contar uma história linear e cronologicamente é pouco criativo, mas, se for para ousar, que se faça com propriedade. Pois não é o que ocorre aqui. O filme começa em 1980, com Garrincha (André Gonçalves) dopado no desfile da Mangueira do qual ele foi o enredo. Várias pessoas que conviveram com o ponta – Elza Soares (Taís Araújo), a ex-mulher Iraci (Ana Couto), Nilton Santos (Alexandre Schumacher) e o jornalista Sandro Moreira (Henrique Pires) – assistem à cena e começam a se lembrar de seus momentos com o jogador. E a vida de Garrincha é contada por meio desses flashbacks.

Até aí, vá lá. Porém, a montagem da história foi mal-feita e deixou vários buracos. E, por “vários”, entenda algo realmente numeroso, que impede um entendimento minimamente razoável da vida do jogador. O primeiro grande problema é passar como uma pressa digna de motoboy com encomenda atrasada pelo período em que Garrincha viveu em pau grande, antes de chegar ao Botafogo. Em um filme que propõe uma abordagem mais humana e menos futebolística do jogador, é indispensável apresentar suas origens, seus problemas familiares, sua introdução precoce às bebidas alcoólicas e seu desprendimento do conceito de responsabilidade. O que se vê no filme são cenas pouco conexas de peladas – vale nos dois sentidos do termo: mulheres nuas e jogos informais – em Pau Grande.

A situação não melhora no momento em que Garrincha se profissionaliza. Apesar de tentar reconstituir a lendária cena do primeiro treino do jogador, o futebol é tratado como algo secundário. Não se mostra como um ponta revelado tardiamente se tornou titular de um dos maiores clubes do país, passou a integrar a seleção brasileira, ganhou um lugar na Copa da Suécia e o efeito disso tudo na forma de a torcida vê-lo. Nada disso. É tudo imediato e simples. Para se ter uma idéia, não é abordada a passagem de Garrincha pela Suécia (onde, oras!, ele teve um filho durante uma excursão do Botafogo em 1959). No máximo, mostra Iraci, sua mulher na época, ouvindo as partidas pelo rádio e comemorando os gols da seleção.

Também não é mostrado como, de grande craque do futebol carioca, ele vai se acabando em si mesmo. Como os interesses econômicos sacrificaram o joelho do jogador gradualmente, como a bebida foi tomando conta dele, como os falsos amigos o faziam perder todo o dinheiro que conseguia e como sua carreira terminou tristemente. Quase tudo é tratado superficialmente por uma única cena ou se resume a falas pouco convincentes. A propósito, quem vir o filme não será informado do fato de o jogador ter participado da Copa de 1966 e de ter passado pelo Corinthians.

Por causa da participação de instituições culturais chilenas na produção, há um destaque maior para a Copa de 1962. E, mesmo com a preocupação de filmar algumas cenas em Santiago, essa passagem também é rasa. Já começa nas semifinais contra o Chile, ignorando a contusão de Pelé e a crescente importância do jogador na trajetória brasileira. Além disso, passa claramente a mensagem de que Garrincha só jogou bem aquelas partidas porque estava iniciando seu romance com Elza Soares. (obs.: aliás, há um sério erro de continuidade do filme. Pela forma como foi montado, os jornais teriam noticiado o caso dos dois antes de eles se conhecerem realmente).

Não é de estranhar o fato de a produção justificar o bom futebol do botafoguense na Copa com sucesso na vida amorosa. O roteiro mostra um Garrincha cuja única coisa que interessava era conquistar mulheres, qualquer uma em qualquer momento. Um verdadeiro maníaco sexual em estilo rodrigueano. E, se o futebol de Mané ficou de lado no filme, não se pode dizer o mesmo de seus amores. Afinal, tudo parece ter sido pretexto para gastar fita com cenas de sexo gratuitas e dispensáveis (até porque estão longe de serem efetivamente sensuais).

Em sua segunda metade, o roteiro tenta se redimir ao ser um pouco mais detalhista com os problemas de Garrincha com a bebida e da forma como isso afetou seu relacionamento com Elza. Mas essa parte sofre com outros problemas, que também permeiam todo o filme.

A direção é muito fraca. Os atores não parecem convencidos do que estão fazendo, pois parecem apenas recitar as falas previstas no roteiro. As cenas estão longe de serem naturais, das comemorações no vestiário após a conquista da Copa de 1962 aos pedestres que passam pela rua. Além, claro, das tentativas de reconstituições de jogadas, por mais que André Gonçalves mostre um controle de bola razoável. Tudo muito mecânico, como, para usar uma metáfora futebolística, um “passe telegrafado”. Outro problema é fazer os personagens falarem o que deveria ser mostrado. Assim, há uma profusão de declarações óbvias e, pior, discursos-prontos que visam apenas tapar buracos do roteiro.

Em alguns momentos, a montagem preservou linguagens típicas do “Cinema Novo”, com cortes bruscos para tomadas mais caricatas de um detalhe da cena. Porém, tal escolha estética é extemporânea e incoerente com o andamento do resto do filme. Para piorar, não houve uma preocupação básica em filmes cuja história se passa durante três décadas: “envelhecer” os atores de acordo com o passar do tempo. O Garrincha, o Sandro Moreira, a Iraci e a Elza Soares da década de 1950/60 são praticamente iguais aos de 1980. Uma maquiagem seria bem-vinda.

A caracterização de André Gonçalves também é igual em todo o filme. Ao invés da pessoa divertida, ingênua, infantil, desapegada, irresponsável (no bom sentido) e impulsiva de Garrincha na vida real, vê-se um indivíduo patético, egoísta, sexomaníaco, irresponsável (no mal sentido), alcoólatra, triste e incapaz de ter expressões faciais autênticas. Como se o Mané não tivesse mudado nada de sua juventude até sua morte.

Pelo que foi como jogador, Garrincha merecia um filme melhor e que valorizasse sua importância na história do futebol. Pelo que foi como personagem, Garrincha merecia um filme mais profundo e que mostrasse a complexidade de tudo o que envolveu sua vida pessoal. Com um todo, Garrincha e seus admiradores merecem um outro filme.

Ubiratan Leal

Imagens: Adoro Cinema Brasileiro

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