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« Quando o São Paulo foi para a Segundona | Página inicial | Internacional precisa de ambição para ser favorito »

10/08/05

E se...

E se existisse uma liga européia?

A Uefa relutou em aceitar a participação do Liverpool na atual Liga dos Campeões porque não vê com simpatia a idéia de um país ter muitos representantes na principal competição européia. Entre outras coisas, é uma medida para tornar as copas o mais espalhadas possível pelo continente e reduzir o risco de, mais uma vez, os clubes proporem uma liga internacional. Até porque o G-14 nunca deixou de sonhar com isso. E o que aconteceria se isso realmente tivesse ocorrido?

Houve um momento em que uma liga européia chegou mais ou menos perto de se concretizar. Em 1999, o G-14 (entidade formada por 14 grandes clubes da Europa: Real Madrid, Barcelona, Bayern Munique, Borussia Dortmund, Liverpool, Manchester United, Paris Saint-Germain, Olympique Marseille, Milan, Internazionale, Juventus, Porto, Ajax e PSV Eindhoven. Depois entraram Lyon, Arsenal, Valencia e Bayer Leverkusen) e a empresa de marketing esportivo Media Partners elaboraram um projeto para uma liga européia, com pontos corridos em jogos nos meios de semana a partir da temporada 1999-2000. O passo seguinte dos integrantes dessa liga seria a retirada de seus campeonatos nacionais.

Para evitar que tal idéia fosse colocada em prática, a Uefa reformulou a Liga dos Campeões, aceitando até quatro integrantes dos campeonatos mais importantes do continente (até então o máximo eram dois) e aumentando as fases de grupo (evitando eliminações precoces). O ponto de partida da teoria hipotética poderia ser esse. Caso a Uefa e o G-14 não tivessem entrado em acordo e a liga européia realmente saísse do papel.

Teoricamente, a definição dos integrantes desse novo torneio deveria se dar por critérios técnicos. Nesse caso, para manter o balanço de vagas por país já existente no G-14, haveria três italianos, dois espanhóis, ingleses, alemães, holandeses e franceses e um português. E, se fossem escolhidos os primeiros colocados nos campeonatos nacionais da temporada 1998-99, os integrantes dessa nova liga européia seriam Milan, Lazio, Fiorentina, Barcelona, Real Madrid, Bayern Munique, Bayer Leverkusen, Manchester United, Arsenal, Bordeaux, Olympique Marseille, Feyenoord, Willem II e Porto.

Porém, o objetivo da Liga Européia, além de criar um grande torneio, seria ganhar dinheiro, muito dinheiro. Por isso, o mais provável é que teriam lugar os fundadores do G-14. No máximo com a entrada de algumas equipes como Arsenal, Benfica ou Roma.

Na primeira edição da competição, que teria um pomposo nome como Euro Superleague, Bayern Munique, Barcelona, Manchester United se destacariam na frente. Real Madrid, Porto e Juventus formariam um bloco intermediário. As decepções seriam Borussia Dortmund, Liverpool, Paris Saint-Germain e Ajax. A maior estabilidade do time daria ao Bayern de Munique o título da primeira edição da Liga Européia.

A competição teria sido um sucesso financeiro, de público e de audiência na TV. Os clubes participantes teriam todos fechado o ano com lucro, por mais que tivessem prejudicados suas participações na liga nacional. Para evitar esse “problema”, em 2000-01, os membros da Liga Européia romperiam definitivamente das ligas nacionais.

Haveria um grande descontentamento dos outros clubes, que seriam desvalorizados e veriam alguns rivais em vantagem de mercado. Por isso, também ficou decidido que as ligas nacionais serviriam como uma espécie de Segunda Divisão. Os campeões disputariam um torneio em mata-mata no final da temporada e os dois melhores substituiriam os dois últimos da liga continental. Isso ajudaria a resolver outro problema: a redução de público e audiência de jogos entre clubes que não disputassem mais o título europeu.

No início da temporada seguinte, Bayern de Munique, Real Madrid e Milan tomariam a dianteira, com Manchester United, Liverpool e Paris Saint-Germain um pouco atrás. Milaneses e parisienses demonstraram pouco fôlego e a briga ficou entre bávaros, ingleses e madrilenos. No final, o Bayern mais uma vez seria mais incisivo nos confrontos diretos e ficaria com o bicampeonato da liga.

Na metade de baixo da tabela, duas surpresas seriam Juventus e Porto, que fizeram campanhas razoáveis na temporada anterior. Ainda assim, a luta para escapar do rebaixamento envolveria Ajax, Olympique Marseille, a decepcionante Internazionale e Borussia Dortmund. O elenco mais modesto levaria Ajax e e Olympique Marseille de volta a seus campeonatos nacionais, substituídos por Valencia e Galatasaray.

Para a terceira edição, a novidade seria o aumento no número de participantes. Novamente cairiam dois clubes, mas quatro subiriam dos mata-matas entre os campeões nacionais. Além disso, já seria iniciado um movimento para a criação de uma Segunda Divisão da Euro Superleague, o que deixaria os campeonatos nacionais esvaziados e compostos praticamente por equipes pequenas.

O Bayern de Munique partiria como favorito ao tricampeonato, mas teria a companhia de Manchester United, Real Madrid, Barcelona, Juventus e até Liverpool. Seria a edição mais emocionante da liga continental desde que fora criada, pois os seis clubes formariam um bloco sólido e na liderança. Na virada do primeiro para o segundo turno, Liverpool e Juventus ficariam um pouco para trás.

A cinco rodadas do fim, quatro clubes ainda disputavam o título. No entanto, o Real Madrid, comandados por Figo e Zidane, imprimiria um ritmo mais forte nas partidas decisivas e se distanciaria dos concorrentes. O Manchester United ficaria com o vice-campeonato, seguido, pela ordem, por Barcelona e Bayern. Seriam rebaixados PSV Eindhoven e Paris Saint-Germain. Os novos integrantes seriam La Coruña, Bayer Leverkusen, Arsenal e Feyenoord.

Assim, a Superleague teria 16 clubes em 2002-03, sendo que quatro integrantes originais já teriam caído. Os participantes seriam Arsenal, Barcelona, Bayer Leverkusen, Bayern Munique, Borussia Dortmund, Feyenoord, Galatasaray, Internazionale, Juventus, La Coruña, Liverpool, Manchester United, Milan, Porto, Real Madrid e Valencia. Apenas dois cairiam para a recém-criada Segundona européia, que teria o nome de Euroleague e 20 equipes (Ajax, Anderlecht, Benfica, Celtic, Dynamo Kyiv, Fenerbahçe, Lazio, Lyon, Newcastle, Olympique Marseille, Olympiakos, Panathinaikos, Paris Saint-Germain, PSV Eindhoven, Rangers, Roma, Rosenborg, Schalke 04, Spartak Moscou e Sporting).

Na Primeira Divisão, as surpresas seriam Borussia Dortmund e Internazionale, que e colocariam entre os ponteiros pela primeira vez desde a criação do campeonato continental. Juventus, Manchester United, Barcelona e Milan seriam os principais adversários. Real Madrid faria uma campanha apenas mediana, enquanto que o Bayern seria a grande decepção, lutando, inclusive, para não ser rebaixado. A surpresa seria o Porto, que apresentava uma equipe extremamente consistente e difícil de ser batida.

A partir do início do returno, Dortmund e Manchester United perderiam força, deixando o campeonato quase que uma disputa italiana. Até porque o Barcelona também mostraria falta de fôlego e a reação do Real Madrid era tardia. A Superleague passaria uma situação estranha, com um país vivendo o torneio com intensidade e os demais esperando o fim da competição sem muito ânimo. Nas rodadas finais, a Itália ficaria em transe na expectativa dos resultados de Juve, Milan e Inter. Os rossoneri estavam mais embalados, mas bianconeri e nerazzurri conseguiam os resultados no sufoco. No final, o Milan fez valer sua maior margem de manobra técnica para vencer com um ponto de vantagem sobre a Juventus.

No fundo da tabela, o Feyenoord não agüentaria o ritmo forte do torneio e seria rebaixado logo em sua primeira temporada entre os maiores da Europa. Apesar de seu péssimo início, o Bayern de Munique conseguiu reagir e deixou a outra vaga na Segundona para o Galatasaray. Na Segundona, Ajax, Roma, Newcastle, Boavista, Celtic e Lazio. Ajax, com um time jovem e talentoso, e Celtic teriam mais sorte.

A Segunda Divisão européia também teria sido um sucesso, até porque permitia que as novas ligas também se aproveitassem da receita de televisão em países secundários como Rússia, Escócia e Bélgica, mas seu surgimento teria um impacto muito forte no futebol europeu. Os campeonatos nacionais teriam se transformado em grupos de uma Terceira Divisão continental, repleta de equipes médias e pequenas e sem nenhuma garantia de que o melhor teria lugar na Segundona (pois teria de passar ainda pelos playoffs com os campeões dos outros países).

Com isso, campeonatos de Itália, Inglaterra, Espanha e até Holanda e França seria esvaziados ao extremo. Na Alemanha, a Bundesliga ainda sobreviveria de Werder Bremen, Stuttgart e Hertha Berlim. Em países com apenas um clube nas duas principais ligas continentais, o outro grande dominaria de maneira constrangedora, sobretudo Brugges na Bélgica e Shakhtar Donetsk na Ucrânia. Outros campeonatos ficariam em estado semi-falimentar, como a Scottish Premier League sem Celtic e Rangers, a Superliga portuguesa sem Porto, Benfica e Sporting e a Eredivisie holandesa sem Ajax, PSV Eindhoven e Feyenoord.

A receita dos clubes pequenos seria reduzida drasticamente porque, sem boas receitas da televisão e os torcedores se ausentando dos estádios, muitos fechariam as portas ou passariam a adotar um sistema administrativo muito modesto. Os que conseguiriam, eventualmente, subir para as ligas continentais seriam obrigado a se reformular completamente. Em países sem representantes continentais, como República Tcheca, Suécia, Suíça e Áustria, a falta de intercâmbio com os grandes do continente e a venda de direitos de transmissão da finada Liga dos Campeões sucatearia o futebol do país.

Na temporada 2003-04, Arsenal, Juventus, Manchester United, Real Madrid e Milan iniciariam a temporada na frente. Porém, Juventus, Real Madrid e Manchester United perderiam espaço de maneira impressionante a partir da metade do campeonato, abrindo caminho para a reação do surpreendente Porto e, com um pouco mais de timidez, do trio espanhol Valencia, La Coruña e do Barcelona.

Nas rodadas finais, Porto, Arsenal e Milan estariam na luta pelo título. O Porto teria mais consistência, mas lhe faltaria o talento que sobrava em Milan e Arsenal. Entre gunners e rossoneri, os italianos teriam vantagem pela experiência em decisões continentais e ficariam com o bicampeonato.

Na parte de baixo da tabela, Ajax, Borussia Dortmund, Internazionale (que teria caído muito em relação à temporada anterior), Bayer Leverkusen e Liverpool lutariam contra o rebaixamento. Os poucos, Liverpool e Internazionale teriam se desvencilhado dos adversários. O Ajax escaparia apenas nos últimos jogos, colocando dois times alemães na zona de rebaixamento.

A Segunda Divisão foi toda dominada pelo Chelsea, que acabara de chegar da liga inglesa e teria as milhões de libras de seu novo proprietário Roman Abramovich. O vice-campeonato ficaria com o Lyon, que bateria a Roma nas rodadas decisivas. Novamente a França teria um representante na Primeira Divisão européia.

A última temporada teria uma novidade, pela primeira vez um clube recém-chegado da Segunda Divisão disputaria o título. No caso, o milionário Chelsea, que teria o técnico revelação das temporadas anteriores, o ex-Porto José Mourinho. Na realidade, apenas Barcelona, Milan e Juventus mostrariam fôlego para acompanhar os azuis de Londres. O quarteto andaria emparelhado por quase todo o campeonato e o título seria decidido na última partida. O Chelsea teria vencido o Barcelona em uma partida espetacular em Londres (4x2). Ainda assim, o Milan ficaria com o título com uma vitória simples sobre o Liverpool. Chegou a fazer 3x0 no primeiro tempo, mas permitiu um empate improvável e deixaram o título ir para a Inglaterra pela primeira vez desde a criação da liga.

Com um final tão emocionante, poucos dariam atenção para a luta contra o rebaixamento, que teriam condenado Celtic e Valencia. PSV Eindhoven e Stuttgart seriam os promovidos para a mais importante competição européia.

Ubiratan Leal

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