Nesse fim-de-semana vai ter início mais uma temporada do Campeonato Espanhol. Como na edição passada, La Coruña, Valencia, Athletic Bilbao, Villarreal, Bétis e Atlético de Madri não estão fortes o suficiente e a briga deve se concentrar em Barcelona e Real Madrid. E, mais uma vez, se falará da rivalidade que é mais do que clubística, é nacionalista, com catalães e castelhanos trocando hostilidades. Mas como seria o futebol daquela parte da península ibérica se cada região da Espanha fosse para um lado e organizasse um campeonato próprio?
Essa hipótese poderia se concretizar de duas maneiras. A primeira seria ao estilo soviético, iugoslavo ou tchecoslovaco, com o país se dividindo politicamente em vários outros e, claro, o futebol seguindo essa separação. A outra seria mais semelhante ao Reino Unido, com a Espanha mantendo a unidade política, mas cada região organizando seu futebol de maneira independente. Como a primeira opção exigiria um exercício muito grande de imaginação, pois haveria várias implicações históricas muito grandes, é mais fácil imaginar que o futebol de cada região teria se desenvolvido de maneira independente.
Não seria muito difícil imaginar como isso ocorreria. O futebol espanhol se estruturou, em um primeiro momento, regionalmente, como no Brasil. Assim, os clubes formaram federações locais e não havia um campeonato nacional, apenas uma copa reunindo os campeões regionais. A primeira competição a surgir foi o Campionat de Catalunya, em 1901. Outros torneios surgiram por todo o país até que, em 1929, foi criado o Campeonato Espanhol. Ainda assim, os campeonatos regionais sobreviveram até 1940, quando o governo do general Francisco Franco acabou com essas competições para evitar manifestações bairristas.
Então, é possível partir da idéia de que o Campeonato Espanhol nunca teria sido criado e que os campeonatos regionais ganharam status de liga nacional, com classificação para competições européias. E, a partir da década de 1930, seria legítimo imaginar que cada federação regional teria sua própria seleção lutando por um lugar na Copa do Mundo e na Eurocopa. Haveria 12 campeonatos no território espanhol: Andaluzia (que englobaria os enclaves africanos de Melilla e Ceuta), Astúrias, Aragão, Cantábria, Castela (contando Leão e La Mancha), Catalunha, Extremadura, Galícia, Ilhas Baleares, Ilhas Canárias, País Basco e Valência/Múrcia.
Se fosse realmente assim, o público e a riqueza espanhola seriam divididos, o que reduziria o mercado de cada clube e dificultaria o surgimento de potências econômicas como o Real Madrid e o Barcelona de hoje. Outra diferença seria que Athletic Bilbao, Barcelona e Real Sociedad, que tiveram suas histórias ligadas ao nacionalismo de bascos ou catalães, perderiam essa aura de representantes de seus povos. Simplesmente porque não haveria a medição de forças entre as regiões e o poder central de Madri e manifestações nacionalistas seriam menos necessárias.
Ao invés de um campeonato forte, que rivaliza com Itália e Inglaterra pelo título de mais rico do mundo, provavelmente haveria vários torneios de médio porte. Catalunha e Castela provavelmente se equivaleriam aos Campeonatos Português, Holandês Turco e Escocês, com domínio bastante marcado de poucas equipes, que teriam condições de realizar campanhas dignas em competições internacionais. Até teriam títulos continentais esporádicos, sobretudo nas décadas de 1960 e 70, quando havia menos diferença técnica entre os clubes desses países e das potências européias. País Basco, Valência/Múrcia e, talvez, Andaluzia e Galícia estariam um degrau abaixo, em um nível semelhante ao das ligas austríaca, suíça, tcheca, sueca e belga. As outras regiões da Espanha teriam campeonatos pequenos e esvaziados, provavelmente ofuscados pelos vizinhos mais fortes, e rivalizariam com países como Chipre, Lituânia, Letônia, Finlândia e Albânia.
Nesse cenário, Real Madrid e Atlético de Madri estariam em um nível mais igualitário e lutariam pelos títulos de Castela. O Barcelona não seria tão mais forte que o Espanyol (que, logicamente, teria outro nome) e talvez o Europa (terceiro clube da capital catalã) não teria entrado em decadência. Múrcia, Elche e Hércules disputariam o posto de principal rival do Valencia, até porque não haveria grande interesse econômico no campeonato da região para que um empresário investisse no Villarreal. Celta e La Coruña seriam os grandes da Galícia. O campeonato da Andaluzia seria o mais emocionante (independente do nível técnico), com Sevilla, Bétis, Málaga, Recreativo Huelva e Cádiz repartindo as conquistas.
Com a criação das copas européias, em 1955, o campeonatos regionais ganhariam mais força, pois classificariam seus campeões. O surgimento da Recopa incentivaria as federações regionais a organizarem copas locais. Com isso, a Copa da Espanha teria cada vez mais um valor meramente simbólico e, por mais que houvesse rivalidade entre as regiões, teria caráter amistoso por não levar seus vencedores a lugar algum.
As seleções nacionais não seriam um fracasso total, mas teriam participações modestas, com picos de rendimento durante uma eventual grande geração. As maiores forças seriam Catalunha, Castela e País Basco, que disputariam algumas copas do mundo de maneira discreta, como Escócia, Suíça, Áustria e Bulgária. As demais ficariam como aquelas seleções que só são lembradas quando atrapalham um grande durante as Eliminatórias.
Pelo desempenho na última temporada, seria possível projetar os participantes de cada uma das ligas regionais. Andaluzia: Bétis, Sevilla, Málaga, Cádiz, Recreativo Huelva, Xerez, Politécnica Ejido, Almería, Córdoba, Alcalá (Guadaíra), Ceuta, Marbella, Algeciras, Melilla, Jaén, Linares, Écija e Baza. Astúrias: Sporting Gijón, Marino, Oviedo, Ribadesella, Mosconia, Langreo, Avilés Industrial, Caudal, Universidad Oviedo, Oviedo Astúrias, Siero, Ceares, Lealtad e Titánico. Aragão: Zaragoza, Huesca, Barbastro, Utebo, Universidad Zaragoza, Sariñena, Sabiñanigo, Villanueva, Casetas, Jacetano, Alcañiz, Monzón, Teruel e Calatayud. Cantábria: Racing Santander, Escobedo, Barreda, Noja, Tropezón, Bezana, Velarde, Ribamontán, Reocín, Castro, Atlético Albericia e Siete Villas. Castela: Real Madrid, Atlético de Madri, Getafe, Albacete, Numancia, Valladolid, Salamanca, Rayo Vallecano, Leganés, Alcorcón, Fuenlabrada, Burgos, Zamora, Cultural Leonesa, Palencia, Conquense e Alcalá (Henares). Catalunha: Barcelona, Espanyol, Gimnàstic, Lleida, Terrassa, Badalona, Figueres, Sabadell, Gramanet, Hospitalet, Reus, Sant Andreu, Girona, Mataró, Peralada e Santboia. Extremadura: Badajoz, Extremadura, Díter Zafra, Mérida, Villanovense, Cerro Reyes, Moralo, Império, Sporting Villanueva, Cacereño, Plasencia, Coria, Miajadas e Villafranca. Galícia: La Coruña, Celta, Racing Ferrol, Pontevedra, Ourense, Negreira, Bouzas, Lugo, Coruxo, Laracha, Cerceda, Lalín, Narón, Betanzos, Viveiro e Bergantiños. Ilhas Baleares: Mallorca, Constancia, Manacor, Santa Eulália, Mahonés, Vilafranca, Ferriolense, Eivissa, Poblense, Binisalem, Santanyi, Ciutadella, Montuiri e Arenal. Ilhas Canárias: Las Palmas, Tenerife, Universidad Las Palmas, Castillo, Vencindari, Lanzarote, Pájara Playas, San Isidro, Tenisca, Laguna, Larítima, Santa Brígida, Las Zocas, Galdar, Antigua e Mensajero. País Basco: Athletic Bilbao, Real Sociedad, Osasuna, Alavés, Eibar, Real Unión, Barakaldo, Lemona, Amurrio, Peralta, Cultural Durango, Recreación, Zalla, Portugalete e Alfaro. Valência/Múrcia: Valencia, Villarreal, Levante, Elche, Murcia, Ciudad de Murcia, Lorca, Castellón, Hércules, Alicante, Vila-Joiosa, Alcoyano, Benidorm, Cartagena, Águilas e Gandía.
O aumento de clubes participando de alguma Primeira Divisão seria multiplicado por 10, o que melhoraria as condições de equipes que hoje agonizam em terceiras e quartas divisões. No entanto, teriam um lugar na elite de um campeonato fraco e sem perspectivas de crescimento, o que não seria muito melhor que a situação atual a não ser do ponto de vista psicológico. E dificilmente as televisões do Brasil transmitiriam algum desses torneios. Tampouco algum clube dessa Espanha dividida pagaria US$ 30 milhões por Robinho. Talvez algum clube inglês ou italiano o fizesse.
Ubiratan Leal